Biblioteca Nacional adquire "diário cultural" de Eduardo Lourenço

Com milhares de documentos e manuscritos, é uma das mais extensas colecções a integrar o Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea. Lourenço diz que ele próprio tinha já "perdido de vista" a dimensão do acervo.

Na colecção estão manuscritos inéditos do autor
Foto
Na colecção estão manuscritos inéditos do autor Enric Vives-Rubio

A Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) adquiriu o acervo do filósofo e ensaísta Eduardo Lourenço (n. São Pedro de Rio Seco, Almeida, 1923) para o integrar no Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, anunciou esta segunda-feira a Secretaria de Estado da Cultura (SEC). São milhares de documentos, manuscritos e até correspondência trocada com grandes nomes da Cultura como Vergílio Ferreira, Jorge de Sena ou Sophia de Mello Breyner.

Numa nota enviada às redacções, o gabinete de Jorge Barreto Xavier diz tratar-se “de um bem cultural fundamental para a investigação filosófica, literária, histórica e sociológica não só da obra de Eduardo Lourenço, mas do pensamento português dos séculos XX e XXI”. Comentando esta comunicação da SEC, Eduardo Lourenço disse ao PÚBLICO que ele próprio já não tinha “uma ideia muito precisa” da dimensão do acervo. “Já o perdi de vista há algum tempo”, acrescenta, lembrando que este é um processo que foi iniciado há já vários anos. “A decisão [de entregar a colecção de manuscritos à BNP] estava sempre implícita na minha cabeça, mais ainda quando se tornou claro que eu passaria os meus últimos anos em Portugal”, justifica Lourenço, dizendo que os mais de dez milhares de documentos que constituem a colecção estiveram depositados na Torre do Tombo – “mas, como não tinham o carácter de espólio de reis, isso era uma situação transitória”, graceja.

O responsável pela organização dos documentos é João Nuno Alçada – “agora está tudo arrumadinho; parece uma loja de calçado!”, comentou o filósofo sobre o trabalho realizado por aquele investigador, que tem também em vista a edição da Obra Completa de Eduardo Lourenço pela Fundação Calouste Gulbenkian, actualmente em preparação.

Sobre o conteúdo do acervo, que tem peças desde os anos 1940 e correspondência trocada com várias personalidades nacionais e estrangeiras contemporâneas de Lourenço – e que faz deste, assinala a nota da SEC, “um dos mais extensos espólios” a integrar o Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea da BNP –, Lourenço diz que “são coisas que [eu] ia escrevendo ao longo do tempo”, como “uma espécie de diário cultural”. E admite que o número de textos inéditos é bem superior àquilo que imaginava. Entre eles, assinala os escritos sobre as artes da pintura e da música. “São mais de três milhares de páginas escritas sobretudo lá fora e resultantes de uma paixão tardia”, nota.

Sobre a publicação da Obra Completa pela Gulbenkian, Lourenço confirma que está a trabalhar nela há já algum tempo. “Estou a tratar de uma obra que, não sendo póstuma no sentido próprio, sê-lo-á na prática”, diz. Mas acrescenta que espera ainda poder surpreender-se, e surpreender os seus leitores, quando começarem a sair os primeiros capítulos da publicação.

Actualmente, o acesso ao acervo de Lourenço na BNP é ainda restrito, estando a consulta limitada aos investigadores que trabalham na edição da Gulbenkian.

O acervo bibliográfico de Eduardo Lourenço, recorde-se, está já representado em duas outras instituições no país: a biblioteca municipal da Guarda (distrito natal do filósofo), que desde 2008 tem mesmo o seu nome e uma colecção de cerca de três mil volumes em português – "são os livros dos meus amores, dos meus estudos, das minhas paixões literárias", disse Lourenço aquando da sessão formal da doação –; e a biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde o filósofo estudou, e que recebeu uma colecção de obras relacionadas com os temas da filosofia e da história das ideias.

Eduardo Lourenço, de 91 anos, autor de obras como Pessoa Revisitado ou O Labirinto da Saudade, é considerado um dos maiores pensadores portugueses. Passou parte da sua vida entre França e Portugal, mas manteve-se sempre ligado ao país onde nasceu, reflectindo a sociedade portuguesa no seu trabalho.

O seu trabalho foi amplamente reconhecido com prémios nacionais e internacionais, entre os quais se destaca o Prémio Europeu de Ensaio Charles Veillon (1988) e os Prémios António Sérgio (1992), Camões (1996), Vergílio Ferreira (2001) e Pessoa (2011). Foi também agraciado com as ordens portuguesas de Sant’Iago da Espada (1981, 2003), do Infante D. Henrique (1992) e da Liberdade (2014).