Opinião

António Costa e José Sócrates

A forma como António Costa tem vindo aos poucos a erguer um cordão sanitário em redor de José Sócrates, procurando proteger-se a si próprio e ao PS dos riscos de contaminação, é uma das mais impressionantes manobras políticas a que eu me lembro de assistir. Nem Francisco George foi tão eficaz no combate à Legionella.

Primeiro, foi o SMS enviado aos militantes socialistas a 22 de Novembro, escassas 10 horas após Sócrates ter sido detido no aeroporto: “Os sentimentos de solidariedade e amizade pessoais não devem confundir a acção política do PS.” Sete dias depois, foi a Lei da Rolha que Costa impôs num congresso com tudo para correr mal, onde o nome de Sócrates acabou por não ser pronunciado uma única vez em palco, nem sequer pelos seus amigos mais chegados. Três semanas depois, quando os jornais já se interrogavam sobre a demora de António Costa em deslocar-se a Évora, o actual líder do PS esvaziou o balão afirmando numa manchete do Expresso que iria certamente lá no Natal, “a título pessoal”, até porque só lhe “ficaria mal se não fosse”. “Você não faria o mesmo se um amigo seu fosse preso?”

Finalmente – cereja envenenadíssima em cima de um bolo já azedo –, António Costa decide conceder esta semana uma entrevista à CMTV, o que visto da perspectiva de José Sócrates deve fazer tanto sentido quanto Harry Potter convidar Voldemort para ir jantar lá a casa. Convém recordar que na última quarta-feira o advogado João Araújo atacou directamente o Correio da Manhã junto à prisão de Évora: “Não costumo ler o Correio da Manhã, e o meu cliente também não lê. Não gosto em absoluto”, disse, antes de lançar umas indirectas (“ontem tive duas comunicações do CM que me fazem supor que este processo terá bons resultados laterais”) que só sete pessoas terão percebido (entre as quais eu não me incluo).

Ora, optar por dar uma entrevista ao Correio da Manhã nesta altura não pode ser um acaso – é mais um degrau na escada do “vocês não me confundam com ele” com que António Costa tem aos poucos alargado a distância que o separa de Sócrates, com uma eficácia simultaneamente admirável e assustadora. Admirável, porque é de uma frieza calculista só ao alcance dos mais hábeis políticos, que definem um objectivo e não deixam que nada nem ninguém se intrometa no caminho (atitude que, diga-se, está a produzir resultados: a última sondagem do Expresso, realizada já após a detenção de Sócrates, dava o PS a subir e António Costa como o político mais popular). Assustadora, porque a forma como ele tem vindo a enterrar a faca entre as costelas de Sócrates, e a rodar o cabo ao mesmo tempo que lhe chama “amigo”, provoca certo sobressalto em almas mais sensíveis.

António Costa, enquanto líder do PS e ex-ministro de Sócrates, já deveria ter ido a Évora há muito tempo. Entre o socialista descerebrado que se põe a proclamar a inocência de Sócrates em frente à prisão, e o eterno fiel que agora não se atreve a meter um pé no Alentejo, há um vasto território para ser habitado por gente decente. Nada obriga Costa a responder aos jornalistas com mais palavras do que aquelas que foram usadas por António Guterres: “Fui visitar um amigo.” Isso chega perfeitamente. Visitar Sócrates não significa ser cúmplice dele; não o visitar, ao mesmo tempo que se proclama a sua amizade, tem perigosas ressonâncias pascais: “Amigo, com um beijo me trais?” António Costa tem de ter cuidado. Há um momento em que muito calculismo passa a ser calculismo a mais.