Já sem o pó das obras, a igreja dos Clérigos reabre com maratona cultural

O fim das obras na Igreja e na torre dos Clérigos é assinalado a partir das 12h de sexta-feira, com concertos e outros espectáculos. Até domingo.

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Há um mês, a 12 de Novembro, ainda se trabalhava no restauro da talha do cadeiral da igreja Nelson Garrido

As obras nos Clérigos, que terminam 235 anos após a dedicação do templo, foram sendo acompanhadas através de visitas de notáveis, no dia 12 de cada mês. Em dia de inauguração, a Irmandade convidou o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, para um concerto especial, com os dois órgãos de tubos da igreja, a partir das 17h. Este espectáculo iniciará algo que Américo Aguiar, o sacerdote responsável pela igreja, pretende instituir na cidade, se possível diariamente, alargando a oferta cultural do Porto.

Com o apoio da empresa municipal Porto Lazer, o monumento mais famoso da cidade vai ser invadido, nesta sexta-feira por manifestações artísticas pouco habituais. Que decorrerão sob uma iluminação especial do templo, que será ligada pelas 18h30. Ligado o interruptor, haverá música e cânticos de Natal, com uma actuação de cinco músicos no varandim da torre, entre as 18h45 e as 19h45.

Para a Torre dos Clérigos e envolvente está agendada uma performance visual de Angel, entre 19h15 e 19h45, a que se segue, já depois do jantar, entre as 21h e a meia-noite, a actuação de DouTAR. Pelo meio, entre as 21h45 e as 22h15, acontece no varandim da torre um espectáculo de Novo Circo, com os Galo Bravo, João & João. Depois das artes circenses, o mesmo (pequeno espaço) serve de palco a uma edição especial do Porto Sounds, com um DJ set de Carla Castelhano, que antecede o último espectáculo da noite, pelos Sequin, a partir das 23 horas.

Tudo isto acontece enquanto a igreja e a torre se mantêm abertos, e com entrada gratuita. No dia seguinte, as portas continuam franqueadas entre as 9h e a meia-noite, e domingo assim permanecerão, entre as 9h e as 19h. No sábado, entre as 15h30 e as 16h30, está agendado um concerto de jazz pelo Pedro Neves Trio, de novo no varandim da torre que, no domingo, será palco de um espectáculo de ópera, por Manuel Soares, João Miguel Gonçalves e Rui Fernandes. Pelas 21h30, explicou o padre Américo Aguiar, a igreja volta a ser o espaço de celebração da missa dominical mais tardia do Porto.

Receber melhor
Concluído o projecto de reabilitação dos Clérigos, o visitante passa a entrar na igreja, na torre e no novo espaço museológico que irá surgir pelo lado oposto ao que hoje utiliza. Fecha-se a porta da Rua Senhor Filipe de Nery e abre-se uma nova, na Rua da Assunção, com condições de acesso para deficientes e idosos. Que ganham, no interior, um elevador que não os consegue levar ao cimo da torre mas que permite, pelo menos, uma visita às salas de exposição espalhadas pelos vários pisos.

Na expectativa de aumentar, e muito, o número de turistas, a Irmandade dos Clérigos preparou-se para os receber melhor, tendo construído uma loja e sanitários – valências até aqui inexistentes. A subida à torre vai ser regulada por sinais luminosos e, em cada piso, passa a haver zonas de descompressão, com pequenas exposições, onde os turistas podem esperar pelo momento de subir ou descer, escapando aos congestionamentos que, não raramente, acontecem naqueles 240 degraus que os colocam perante uma das mais famosas, e belas, vistas do Porto. Lá em cima, passam a existir painéis gráficos de leitura da paisagem e o piso foi elevado, para permitir uma vista mais desafogada da cidade.

No edifício da antiga enfermaria, construída para receber os clérigos enfermos,  ao nível do 3.º piso, foram demolidas paredes que cortavam a galeria, transformando-a em três salas mais pequenas, para "devolver ao espaço a sua dimensão original", como realçava no ano passado ao PÚBLICO o arquitecto João Carlos Santos, autor do projecto. Na Semana Santa de 2015 será inaugurado, aqui, o Museu dos Cristos, onde ficará exposta uma colecção de crucifixos – o mais antigo dos quais do século XII –  pertencente a  António Miranda, um natural de Baião há muito radicado em Lisboa.

Financiada pelo Programa Operacional Regional e pelo programa Jessica – direccionado para reabilitação urbana – a obra dos Clérigos custou dois milhões de euros e realizou-se em apenas nove meses. A irmandade arriscou ao não a realizar por fases, misturando, no espaço, os trabalhos de restauro de arte sacra com empreitadas de construção civil. Mas, como se pôde verificar na última visita, a aposta deu certo, e a obra termina sem um minuto que seja de atraso. O que em Portugal quase raia o milagre.