ONU pede-lhe um dólar para alimentar os refugiados sírios

A falta de financiamento pelos governos obrigou o Programa Alimentar Mundial a suspender o apoio a 1,7 milhões de pessoas que fugiram da guerra na Síria; agora, apela-se à solidariedade de cada um nas redes sociais.

Refugiados sírios na Turquia
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Refugiados sírios na Turquia FLORIAN CHOBLET/AFP

Os Estados Unidos conseguiram em pouco tempo juntar uma coligação internacional para bombardear o grupo jihadista Estado Islâmico, que impressionou o mundo com os seus actos de terror no Iraque e na Síria. Mas as histórias de horror vindas da guerra da Síria nos últimos três anos – povoações inteiras dizimadas com armas químicas, mulheres violadas, cidades destruídas – não foram suficientes para convencer os governantes a canalizar mais dinheiro para os quatro milhões de sírios obrigados a fugir das suas casas.

A situação chegou a um ponto crítico: a 1 de Dezembro, o Programa Alimentar Mundial (PAM) anunciou que se via obrigado a suspender a assistência que prestava a 1,7 milhões de sírios, por falta de financiamento. São precisos, com toda a urgência, 64 milhões de dólares (52 milhões de euros). Este é o valor necessário para alimentar em Dezembro os refugiados a que o PAM presta auxílio nos cinco países que recebem 95% dos quatro milhões de sírios que procuraram refúgio da guerra no estrangeiro: Turquia, Líbano, Jordânia, Iraque e Egipto. Outros seis milhões de sírios estão deslocados internamente, e precisam também de ajuda.

O programa humanitário das Nações Unidas que apoia a infra-estrutura necessária para dar assistência aos sírios só tem 54% do financiamento necessário, alerta a Amnistia Internacional. Esta falta de fundos fez com que haja grandes restrições na assistência financeira, alimentar e nos cuidados de saúde.

A suspensão da ajuda alimentar é particularmente grave no Líbano, diz o PAM. Este país acolheu mais de um milhão de refugiados sírios – o que equivale a 26,3% do total da sua população –, que estão espalhados por cerca de 1700 comunidades, e não em campos, como noutros países.

Muitos vivem em bairros de lata e o Alto Comissariado para os Refugiados está a desenvolver uma operação de Inverno, junto de 132 mil famílias recenseadas, para distribuir abrigos impermeáveis, fogões, cobertores e cupões para a compra de alimentos, combustível e outros bens essenciais. Mas desde o início do mês, os cupões do PAM deixaram de ser distribuídos.

“Na falta de uma resposta política, os países árabes e ocidentais deviam pelo menos dar uma resposta humanitária a esta crise. É uma irresponsabilidade sem fim, um crime. A comunidade internacional tem um dever de solidariedade com os refugiados sírios”, afirmou ao Le Monde Thierry Coppens, chefe de missão dos Médicos Sem Fronteiras no Líbano.

Apelar à boa vontade dos cidadãos é o que resta às agências das Nações Unidas, quando se vê que os governantes olham para o lado quando são chamados custear a ajuda aos milhões de pessoas que fogem do país que se transformou no palco de uma guerra sangrenta. O PAM lançou uma campanha nas redes sociais, apelando à solidariedade individual. “Cada dólar pode fazer a diferença. Para si é um dólar, para eles é uma questão de sobrevivência”, explica a directora do PAM, Ertharin Cousin, em comunicado. “Bastaria que 64 milhões de pessoas dessem um dólar do seu dinheiro.”

Num beco sem saída

E não há esperança que a situação melhore, porque não só continuam a chegar refugiados, como quem foge da guerra se vê chegar a um beco sem saída. Os governos ainda arrastam mais os pés no que diz respeito a conceder asilo – pedido por um refugiado quando chega a um país, ou autorizações de residência, concedidas por um outro país que não aquele onde o refugiado chegou primeiro – a sírios, sublinha a Amnistia Internacional, no relatório Abandonados ao Frio.

Desde o início da crise síria, em 2011, foram prometidas 63.170 autorizações de residência, diz a Amnistia, mas até 31 de Agosto deste ano apenas 7000 sírios tinham conseguido partir para o país de acolhimento. A Amnistia sublinha como particularmente “chocante” que os ricos países do Golfo Pérsico não tenham dado autorização de residência a um único refugiado sírio, apesar da proximidade geográfica, cultural, linguística e religiosa.

Na União Europeia, dois países acolhem a grande maioria dos refugiados sírios: Suécia e Alemanha juntas receberam 64% dos 96.500 pedidos de asilo nos últimos três anos. A Suécia prometeu ainda 1200 autorizações de residência, e a Alemanha 30 mil. Mas o resto da UE apenas prometeu receber 6305 sírios, ou seja 0,17% das pessoas que vivem nos cinco principais países de acolhimento, e que dependem da ajuda alimentar do PAM para sobreviver.

A Amnistia Internacional está a apelar para que 380 mil refugiados obtenham autorizações de residência em algum país até ao fim de 2016. São pessoas especialmente em risco por diversas razões: podem ser crianças sozinhas, vítimas de tortura, pessoas mais velhas, doentes ou que sofreram violências sexuais. Até agora, só pouco mais de 63 mil refugiados sírios conseguiram ter autorizações de residência.