Opinião

De que PS o país precisa?

O país carece de um PS empenhado na enunciação de um programa de governação sério, credível e exequível.

“Francisco Assis, de quem sou amigo, decidiu hoje dar uma absurda entrevista em que defende uma coligação entre o PS e o PSD. Como o fez publicamente é porque quer um debate público em torno desta matéria.

E isso é algo que está para além de qualquer compreensão lógica, a não ser uma obstinação ideológica que nada acrescenta aos socialistas. A poucos dias do congresso nacional e da recomposição do PS no combate político ao governo, Assis já antecipa que não haverá maioria absoluta (ao contrário até do que indicam algumas sondagens) e que, no contexto de um governo alargado, a opção deve ser por um bloco central estrutural no país. Estou certo que há cada vez mais socialistas cansados destes ziguezagues e que não deixarão de se fazer ouvir no congresso. António Costa teve uma votação muito expressiva liderando a ambição de uma nova maioria social capaz de derrotar a direita, abrindo-se, entre outros, à esquerda que não se canse de ser esquerda para nada e queira dialogar. A enorme expressão da mudança personificada por António Costa, dentro e fora do PS, representa precisamente a recusa de uma oposiçãozinha. A direita pode fazer parte disso? Em abstracto, sim: se deixar de ser direita. Porque a ‘proximidade ideológica’ que Assis vê entre PS e PSD é para mim um mistério. Eu quero um PS concentrado na recusa do tratado orçamental, numa reforma fiscal que pese mais no capital do que no trabalho, numa revisão profunda do Código do Trabalho, na recuperação da iniciativa estatal, na regulação económica sobre sectores-chave, na renegociação da dívida impagável. E isto não é retórica, é mesmo para ser feito. O país está cansado dos discursos vazios, cheios de esquerda na lapela e que depois se limitam a governar para a gestão da situação. É isso que afasta cada vez mais cidadãos dos partidos, a começar pelo PS, porque ‘eles são todos iguais’. Mas não são. Não somos e estou convicto que somos cada vez mais”.

O autor deste texto, publicado nas redes sociais, é um jovem dirigente socialista portuense destinado a exercer a muito curto prazo altíssimas responsabilidades no plano local. Se o cito é porque descortino no seu pensamento algumas das principais características configuradoras da identidade de uma corrente política que me suscita enorme apreensão, pelas razões que passo a apresentar: insuportável arrogância moral, indisfarçável propensão para o simplismo doutrinário, preocupante valorização de uma linguagem emocional em detrimento da argumentação racional, inquietante incompreensão da realidade contemporânea. Se virmos bem, estamos perante um discurso construído a partir de clichés, de antagonismos puramente retóricos, de proclamações quase integralmente vazias.

Comecemos pelo que me parece mais deplorável: a tentativa de desqualificação intelectual e moral de qualquer posição que se afaste de uma nova ortodoxia extremista. O jovem autor do texto não faz a coisa por menos – considera absurda a própria entrevista em que preconizei a vantagem de uma coligação futura entre o PS e o PSD, e coloca mesmo essa posição num domínio situado para além de qualquer possibilidade de compreensão lógica. Identifica aliás essa expressão de irracionalidade como uma obstinação ideológica, uma espécie de desvario mental, portador de perigosas implicações. A seguir, insinua, revelando uma pulsão inquisitorial que as ortodoxias inevitavelmente incentivam, que a explicitação de uma qualquer dúvida em relação ao sucesso eleitoral absoluto da nova liderança socialista constitui uma manifestação inaceitável de derrotismo partidário. Opta depois por vituperar uns supostos ziguezagues, que aliás é incapaz de enunciar com clareza, apelando a que os mesmos sejam devidamente vergastados no próximo conclave socialista. É que para ele a vitória de António Costa significa a recusa de um PS reduzido ao exercício de uma simples oposiçãozinha. Não, o país carece de uma oposição a sério, sólida, profunda, fracturante, que o promissor político portuense enuncia com uma clareza desarmante: ele quer um PS empenhado na recusa do Tratado Orçamental, numa revisão do Código do Trabalho, na revalorização do Estado e na renegociação da dívida impagável, voltado para uma reforma fiscal que penalize mais o capital do que o trabalho. Se não estou enganado, este programa já existe e é da autoria do Bloco de Esquerda (e, como é óbvio, nem tudo o que é preconizado merece a minha discordância). O que suscita a minha mais viva apreensão é o conjunto do programa preconizado, a que só falta aliás um ataque descabelado ao Tratado Comercial Transatlântico que está presentemente a ser negociado entre a União Europeia e os Estados Unidos. O que está em causa não é de somenos importância: a prevalecerem estas teses, o PS renegaria o essencial da sua trajetória histórica enquanto grande partido do centro-esquerda e autocondenar-se-ia a um estatuto de absoluta irrelevância no plano europeu. Para além de que em nada contribuiria para a superação dos verdadeiros problemas que um capitalismo desregulado tem vindo a provocar. O país não precisa de um PS iludido com a perspectiva de uma impossível unidade de esquerda, aliás historicamente desqualificada. O país carece de um PS empenhado na enunciação de um programa de governação sério, credível e exequível. António Costa já deu provas suficientes de que não concebe outro caminho que não seja este. Ainda bem.

2. Com a demissão de Miguel Macedo o governo ficou inquestionavelmente mais fraco. Anabela Rodrigues tinha tudo para ser uma boa Ministra da Justiça; infelizmente parece-me faltar-lhe quase tudo para poder vir a ser uma mediana Ministra da Administração Interna. O primeiro-ministro tenta transformar a imagem da obstinação pessoal num verdadeiro programa político. Não me parece que esteja destinado ao sucesso.