Ataque em sinagoga de Jerusalém deixa cinco mortos e abre novo capítulo de violência

Os dois atacantes eram palestinianos de Jerusalém Oriental. Israel promete acção, mas analistas dizem que impedir este tipo de ataques será difícil

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Membros dos serviços de emergência israelitas junto ao local dos ataques Jack Guez/AFP

Dois palestinianos de Jerusalém Oriental, um dos quais trabalharia numa mercearia ao lado da sinagoga de Jerusalém Ocidental, entraram no local na altura da oração da manhã, com armas, um machado, e facas, e atacaram os judeus que lá rezavam. Morreram quatro das vítimas, todos com dupla cidadania (três israelo-americanos, um israelo-britânico), a que se juntaria mais tarde um polícia. Além disso, cinco pessoas ficaram feridas (uma em estado muito grave, duas em estado moderado e duas com ferimentos ligeiros).  

“Já vi muitos, muitos incidentes aqui e no estrangeiro, mas não me lembro de ver algo como isto”, disse Yehuda Meshi Zahav, dos serviços de emergência Zaka, citado pela imprensa israelita. “Parecem as imagens que vimos do Holocausto – judeus embrulhados nos xailes das orações, filacteras [pequenas caixas com pergaminhos com versículos da Tora] nos braços e cabeça, deitados numa enorme poça de sangue no chão de uma sinagoga.”

Europeus e americanos estão habituados a ver sinagogas guardadas – este não é o caso em Israel. Os israelitas estão habituados a medidas de segurança em todo o lado – ao entrar numa repartição, num centro comercial, num café. Não numa sinagoga. Apenas durante a segunda Intifada, com atentados suicidas frequentes, esta medida foi considerada - quando foi posta em prática não durou, lembra Anshel Preffer, jornalista do diário Ha’aretzO único outro ataque a uma sinagoga aconteceu em 2008, a alunos de uma yeshiva (escola religiosa) que tecnicamente era também uma sinagoga (foram mortos oito estudantes).

Ninguém sabe exactamente porque mesmo durante os maiores períodos de violência as sinagogas escaparam a ataques. Pfeffer diz que não só são alvos menos convenientes por terem horas de funcionamento mais estritas, como ainda por ser fácil detectar rapidamente a entrada de não crentes, que não saberiam comportar-se dentro da sinagoga. Por outro lado, os atacantes da segunda Intifada eram palestinianos vindos da Cisjordânia, que nunca tinham estado nos locais que pretendiam atacar.

Os últimos ataques têm sido levados a cabo por palestinianos de Jerusalém Oriental, muitos dos quais conhecem bem a parte ocidental. Neste caso, eram dois primos e um deles trabalhava numa mercearia ao lado da sinagoga; conhecia por isso bem a rotina e horários do local.

O ataque foi duramente criticado por responsáveis norte-americanos; primeiro pelo secretário de Estado John Kerry, que lhe chamou “um acto de puro terror e de brutalidade sem sentido”, e depois pelo Presidente Barack Obama, que apelou a todos – responsáveis políticos e cidadãos – para “cooperarem juntos para fazer diminuir a tensão, rejeitar a violência e procurar o caminho para a paz”

Israel prometeu uma resposta firme. “Este é o resultado directo do incitamento do Hamas e de Abu Mazen”, disse o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, referindo-se ao movimento islamista palestiniano e a Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestiniana. O Hamas elogiou o ataque, dizendo que era uma retaliação pela morte de um motorista de autocarros palestiniano da véspera (Israel diz que foi suicídio, mas os media palestinianos garantem ter-se tratado de um crime de extremistas) e dizendo que vai haver mais acções destas. Abbas condenou o ataque.

“Vamos responder com mão firme a este assassínio brutal de judeus que foram rezar e foram apanhados por um assassino desprezível”, garantiu Netanyahu.

Mas a resposta que Israel dará ao ataque não será fácil nem óbvia. Jerusalém não é uma cidade dividida – o muro que foi construído para evitar os ataques da segunda Intifada afasta os atacantes vindos da Cisjordânia.

Apesar de ter sido elogiado pelo Hamas, este ataque não terá provavelmente sido dirigido pelo movimento (embora analistas notem que exigiu algum planeamento). Parece tratar-se de uma ou duas pessoas, sozinhas, que pegam em armas comuns (facas) ou carros e decidem atacar. Não havendo organização, a prevenção torna-se quase impossível, como sublinhou o antigo conselheiro de segurança nacional de Israel Yaakov Amidror em declarações à estação de televisão americana CNN: “Não vejo medidas que possam impedir um indivíduo assim”, que decida um dia pegar na faca que tem na cozinha e levar a cabo um ataque.

Para já, parece que Israel decidiu voltar à política de demolição de casas dos atacantes, e ainda discute facilitar mais acesso a armas (estão restritas a militares, antigos militares, e habitantes de colonatos judaicos em território ocupado, e apesar de se verem imensas armas nas ruas, é preciso seguir um processo de avaliação e demonstrar a necessidade de ter arma para conseguir uma licença).

Nas últimas semanas, morreram dez israelitas em cinco ataques levados a cabo por palestinianos (a maioria acabaram mortos pelas forças de segurança de Israel na sequência dos ataques ou no dia seguinte). “O ritmo dos acontecimentos, com um ou dois ataques mortíferos por semana, está a manter o conflito no centro e minou completamente a sensação de segurança pessoal em Jerusalém”, comentava no Ha’aretz Amos Harel.