Opinião

Macedo não “salvou” o Governo: enterrou-o

"Saio para defender o Governo, a autoridade do Estado e a credibilidade das instituições”, afirmou Miguel Macedo no momento em que anunciou a sua demissão do cargo de ministro da Administração Interna.

Basta um pouco de boa vontade para acreditar que a sua saída pode ajudar a superar a devastação que o caso dos vistos gold está a causar em organismos sensíveis como o SEF ou o SIS, instituições que fazem parte dos pilares da tal autoridade do Estado. Mas ninguém acredita que a sua saída sirva para “defender o Governo”. Principalmente quando se sabe que o próprio primeiro-ministro fez tudo o que pôde para que o ministro se poupasse à árdua tarefa de sair em sua defesa.

Custa a acreditar. Num dos casos de corrupção nas altas instituições do Estado mais graves dos últimos anos, o chefe do Governo chegou a acreditar que poderia passar incólume à tempestade. No seu absurdo entendimento, o indício de envolvimento de directores de serviços policiais e as suspeitas de conluio dos serviços secretos num caso de corrupção toleravam a ideia de que a responsabilidade política haveria de morrer solteira. Miguel Macedo não teve nenhum envolvimento pessoal no escândalo, mas o escândalo desenrolou-se nos serviços que tutela e envolveu quatro pessoas das suas relações pessoais, profissionais e societárias. Sim, ele tem culpas políticas pelo que aconteceu. Felizmente, percebeu-o, teve o bom senso de reconhecer que a sua carreira de ministro acabara e demitiu-se; infelizmente, o primeiro-ministro deve julgar que o nojo que um país em crise sente com este festival de escândalos é apenas um espirro e tentou conservá-lo.

Pedro Passos Coelho tem em relação a este caso uma manifesta má-consciência – só isso explica o seu pedido para que Miguel Macedo “reponderasse” a sua demissão. Nos últimos meses, uma ministra politicamente responsável pelo caos informático que paralisou o sistema judicial durante semanas e um ministro politicamente culpado por uma fórmula de colocação de professores que afectou o quotidiano de milhares de pessoas acabaram por ser protegidos pelo mesmo autismo e insensibilidade do primeiro-ministro. No seu alheamento, Passos Coelho acreditou que o mesmo podia acontecer com Macedo. Porque não percebe que a política não tem como fim o umbigo da sua equipa. Não percebe que os cidadãos querem apenas que o Governo seja um conjunto de homens sujeitos às regras básicas da decência, nas quais o mérito, a competência e os erros se avaliam, nas quais a responsabilidade tem um preço.

A saída de Miguel Macedo é uma brecha nessa concepção imperial do poder que leva o primeiro-ministro a acreditar que um ministro é por natureza inimputável pelo que se passa na sua esfera política. Em vez de ser uma “defesa do Governo” é uma farpa que confronta a prática recente do primeiro-ministro. O perfil e a dimensão do escândalo é tão aterrador que a ligeireza com que Passos os encarou não geram apenas perplexidade: implicam indignação. Aceitar o empobrecimento por causa do estado onde nos levaram é uma coisa, calar ou assobiar para o lado quando se suspeita que o Estado se despedaça com cheques em rublos ou yuan endossados a meia dúzia de servidores públicos em organismos sensíveis do aparelho do Estado, é outra. Completamente diferente.