Primeira aterragem num cometa ensombrada por falhas

Muita emoção é o que melhor define o que se passou nesta quarta-feira com a aterragem histórica de um engenho humano no núcleo de um corpo gelado de poeiras, a 510 milhões de quilómetros de nós, entre Marte e Júpiter.

Fotogaleria
O cometa 67P ESA
Fotogaleria
O cometa 67P ESA
Fotogaleria
O cometa 67P ESA
Fotogaleria
O cometa 67P ESA

Depois da festa inicial, veio uma certa desilusão. Os responsáveis da Agência Espacial Europeia (ESA) tinham começado por explodir de contentamento quando nesta quarta-feira, pelas 16h03, chegou à Terra a confirmação de que uma sonda tinha pela primeira vez pousado no núcleo de um cometa — uma estreia absoluta em toda a história da exploração do espaço. Mais tarde, chegou a apreensão, quando se percebeu que nem tudo tinha corrido bem na aterragem, o momento ansiosamente aguardado por milhares de cientistas há pelo menos dez anos, desde que esta missão partiu da Terra. Os arpões que deveriam prender a sonda ao chão do cometa não dispararam e o aparelho não pode assim ficar bem amarrado ao cometa.

Por isso, as notícias desta quarta-feira foram boas e más ao mesmo tempo, admitiram os responsáveis da ESA. E recorreram ao humor para suavizar o que estava a passar-se naquele momento. Até porque muitos dados enviados para a Terra pela missão composta  por uma sonda maior, a Roseta, que ficou em órbita do cometa, e por outra mais pequena, a File, que aterrou no cometa ainda estavam a ser analisados e interpretados.

“A File sobreviveu à aterragem. Aterrou no local certo e, estejam descansados, no cometa certo”, brincou o director-geral da ESA, Jean-Jacques Dordain, numa declaração ao início da noite – o que desencadeou o riso de quem estava com ele no Centro Europeu de Operações Espaciais da ESA, em Darmstadt, Alemanha.

Apesar do humor, o tom de Jean-Jacques Dordain já não era bem o mesmo do de horas antes. Nessa altura, o director-geral da ESA regozijou-se por este feito inédito na história espacial, pouco depois de a aterragem da File ter sido confirmada através do envio de sinais pela própria File para a Roseta, que por sua vez os reenviou para a Terra, uma comunicação ao longo de 510 milhões de quilómetros que demora 28 minutos. Tinha sido recebida uma primeira indicação de que os arpões tinham funcionado, que depois não se verificou. “Somos os primeiros a fazer isto – e assim ficará para sempre”, festejou então.

Antes da declaração mais contida de Jean-Jacques Dordain, Stephan Ulamec, responsável pela File, tinha explicado à agência noticiosa AFP que os arpões não tinham funcionado. “Temos indicações de que os arpões podem não ter sido activados, o que quererá dizer que pousámos num material solto.”

Também numa declaração pública, Stephan Ulamec mencionou a inesperada ocorrência de flutuações na ligação via rádio entre a File e a Roseta, por um lado, e flutuações nos dados enviados pelos instrumentos da File, por outro. E procurou interpretar essas flutuações desta forma: “A File pode ter-se levantado [depois de ter tocado no chão] e começado a virar.”

Como essas flutuações terminaram ao fim de algumas horas, Stephan Ulamec usou também ele próprio o humor para explicar publicamente o que pode ter acontecido. “Talvez não tenhamos aterrado uma vez – mas duas vezes.” Novamente, ouviram-se risos.

Além disso, as comunicações entre a File e a Roseta, que se mantém a vários quilómetros do cometa – de seu nome 67P/Churiumov-Gerasimenko , perderam-se mais cedo do que o previsto. A perda das comunicações é normal, devido à rotação do cometa. Mas o facto de ter acontecido antecipadamente pode dever-se à topografia do cometa, impedindo assim a ligação rádio. Hoje, no entanto, espera-se que as comunicações sejam retomadas.

Agora, o que se segue? Até que ponto as más notícias podem comprometer a missão? Nesta quarta-feira, os responsáveis da ESA evitaram falar desta questão. Como as informações divulgadas ainda são escassas, fica uma margem para especulações – por exemplo, que consequências pode vir a ter na missão o problema dos arpões e se a ESA está a confrontar-se com decisões difíceis.

Os arpões destinavam-se a prender a File (de 100 quilos de peso na Terra) ao cometa, cuja gravidade é muito fraca, uma vez que é um corpo muito pequeno. Apesar de os arpões não terem funcionado, ao que parece a sonda pode ter ficado presa ao chão do cometa utilizando outro sistema – mais exactamente, através de duas das três brocas existentes em cada uma das três patas metálicas da File. Suspeita-se que duas dessas brocas, segundo informações divulgadas no Twitter pelo Instituto de Meteorologia da Finlândia, que participa na missão, possam ainda assim ter-se fixado ao cometa na aterragem. Neste caso, além de contribuírem para a segurança da File, permitiriam cumprir um importante objectivo científico que é a obtenção de amostras do solo a 25 centímetros de profundidade.

Mas se as brocas não se fixaram, então será que a ESA vai arriscar e tentar disparar os arpões para garantir que a File não fuja e se perca no espaço? Só que essa operação pode, por si, até ter o efeito contrário e, além disso, os arpões precisam de espaço em relação ao chão para acelerarem e poderem enterrar-se.

Os percalços, no entanto, tinham começado antes, foi-se depois sabendo nesta quarta-feira ao longo do dia. A própria File teve de ser ligada duas vezes, porque na primeira vez não funcionou, contou ao PÚBLICO o engenheiro aeroespacial Tiago Hormigo, administrador e co-fundador da empresa aeroespacial portuguesa Spin.Works. Depois, o sistema de propulsão que deveria ajudar a File a aterrar também falhou nos testes que os cientistas fizeram um pouco antes de se avançar para a separação entre a pequena sonda e a Roseta. Ainda assim, a aterragem recebeu luz verde.

A libertação da File pela Roseta, quando as duas estavam a 20 quilómetros do cometa, fez soltar muitos sorrisos e abraços no centro de controlo espacial da ESA, logo pela manhã. A Roseta já se tinha conseguido posicionar no sítio certo, uma manobra de extrema delicadeza e precisão, se pensarmos que o cometa está a rodar sobre si próprio a grande velocidade e que o objectivo era fazer aterrar um engenho numa pequena área do cometa. Já na descida, outro dos momentos altos foi a chegada de imagens durante esse percurso tiradas pela File à Roseta e vice-versa. É impossível não pensar quão sozinha a File estava nesta aventura quando se vê a sua fotografia, em que aparece como um pontinho luminoso contra um fundo preto, a caminho do desconhecido.

Imagens que a Roseta tem tirado ao cometa, desde que os dois se encontraram em Agosto deste ano e andaram a conhecer-se melhor, já tinham revelado um núcleo com uma forma muito invulgar. Parece uma colagem de dois bocados, sem contar com uma topografia extremamente acidentada. Nas últimas semanas, as imagens que foram chegando continuaram a surpreender com o grau de pormenor com que, pela primeira vez, estávamos a ver o núcleo de um cometa.

Nesta quarta-feira, uma das imagens que a File obteve a apenas três quilómetros do núcleo mostrava um corpo cheio de amolgadelas. Mas as imagens tão aguardadas da File cara a cara com o cometa, já lá em baixo, e que a ESA tinha prometido divulgar ao final do dia, acabaram por não ser publicadas depois de tudo o que sucedeu. Mesmo assim, Jean-Jacques Dordain rematou a jornada dizendo: “É um grande sucesso. Foi um grande dia.”

Veremos então que surpresas estão guardadas nos próximos tempos para esta missão, que começou a ser planeada há 29 anos, foi autorizada há 21 e descolou da Terra há dez. Tudo para que os cientistas percebam melhor não só a formação do nosso sistema solar – uma vez que os cometas, corpos congelados de gelo e poeiras, são os restos dessa formação que ficaram preservados no tempo –, como perceber a origem das moléculas orgânicas e da água que eles trouxeram para a Terra, ao bombardeá-la intensamente no início da sua criação. Essa ligação leva-nos, por sua vez, à origem da vida na Terra e, no fundo, de nós próprios.