Em directo

Nesta quarta-feira a humanidade vai abraçar um cometa

A pequena File já deu notícias depois de se ter separado da sonda Roseta enquanto faz uma descida de cerca de sete horas até chegar ao núcleo de um cometa.

A pequena File já deu notícias enquanto continua a descer até ao núcleo do cometa 67P/Churiumov-Gerasimenko. “A sonda Roseta confirmou que está a receber sinais vindos da File”, disse Paolo Ferri, responsável da Agência Espacial Europeia (ESA), logo após o centro de controlo espacial, em Darmstadt, ter recebido os primeiros sinais da sonda, às 11h06.

“É um momento muito importante”, acrescentou Paolo Ferri. Duas horas antes, às 9h03, o centro tinha recebido a informação da separação entre a File e a Roseta – e esta ficou a 20 quilómetros de distância do núcleo do cometa que está a cerca de 500 milhões de quilómetros da Terra, entre a órbita de Júpiter e Marte.

Nas próximas horas, são esperadas os primeiros dados científicos e as fotografias que a File tirou enquanto desce até ao núcleo. Os sinais da File têm sempre de passar pela Roseta e só depois são retransmitidos para a Terra. 

A sonda-robô de 100 quilos continua agora a descer, ajudada pela gravidade do cometa, depois irá abrir as três patas metálicas para pousar no chão e terá de se atarraxar ao solo do núcleo. "Este é o nosso dia mais longo”, dizia nesta quarta-feira Matt Taylor, um dos responsáveis pela missão, na emissão televisiva da ESA, ainda antes de se saber que a separação tinha corrido bem. “É muito entusiasmante.”

Durante a madrugada nem tudo correu bem. Apesar de ter sido dado o sinal verde para o comando da separação e descida da File, os especialistas da ESA não conseguiram activar um propulsor que iria ajudar a sonda agarrar-se ao núcleo do cometa, no momento da aterragem.

A gravidade do 67P é cerca de um milhão de vezes menor do que a da Terra. Apesar de a File chegar ao núcleo do cometa a uma velocidade de um metro por segundo, os cientistas temem que a sonda-robô ressalte devido à baixa gravidade do cometa. Por isso, a sonda lançará dois arpões que vão penetrar no solo assim que ela tocar lá, prendendo o robô. Mas a File tem um propulsor no topo que seria activado para forçar a sonda a ficar no chão e é esse propulsor que estará avariado.

“O propulsor no topo do robô não parece estar a funcionar, por isso vamos ficar completamente dependentes dos arpões para o momento de aterragem”, disse Stpehan Ulamec, responsável pelo File, citado numa notícia da ESA. “Vamos precisar de alguma sorte para não aterrar num pedregulho ou numa encosta íngreme.”

Se tudo correr bem, às 17h desta quarta-feira a Terra vai receber as primeiras imagens do núcleo de um cometa. Será das fotografias mais aguardadas da missão da sonda Roseta, lançada em 2004 pela ESA. Significará que a pequena sonda File, transportada pela Roseta, está a funcionar. Nunca nenhum aparelho construído pela humanidade pôs os pés num cometa.

O dia é pois de grande expectativa. A missão, que custa 1300 milhões de euros, permitirá à File analisar material que pode ajudar a explicar a formação do sistema solar, há quase 4600 milhões de anos, e a origem da vida na Terra. Durante quase três anos, a Roseta esteve em hibernação. Em Janeiro deste ano, acordou e começou a movimentar-se para, a 6 de Agosto, apanhar finalmente o 67P.

Este cometa foi identificado em 1969, por Klim Churiumov e Svetlana Gerasimenko, no Observatório Alma-Ata, no Cazaquistão. Dez anos antes, o astro foi empurrado pela gravidade de Júpiter e entrou numa nova órbita. Desde então, percorre uma elipse a cada 6,44 anos, que começa para lá de Júpiter e vem até um local entre Marte e a Terra, onde está mais activo devido à proximidade do Sol e produz uma cabeleira e uma cauda – a assinatura no céu dos cometas.

Nos últimos meses, à medida que a Roseta se foi aproximando do núcleo do 67P, ficámos a conhecer a sua forma invulgar: é um corpo composto por dois bocados, a fazer lembrar um pato. A sua massa é de 10.000 milhões de toneladas.

Mais tarde, foi possível obter a geografia do cometa para escolher locais candidatos à aterragem da File. O sítio escolhido na “cabeça” do “pato” foi baptizado Agilkia em Novembro, após um concurso público.

Os nomes desta missão remetem para a história do Egipto. Roseta é o nome da pedra encontrada em 1799 no delta do rio Nilo, por militares de Napoleão. O objecto permitiu descodificar os hieróglifos egípcios e, mais tarde, um obelisco encontrado na ilha de File, no Nilo, aprofundou a compreensão dos hieróglifos. Na década de 1960, os templos da ilha de File foram transportados para a ilha de Agilkia, igualmente no Nilo, devido à construção de uma barragem que iria inundar os monumentos.

Agora, será a vez da File espacial viajar até uma ilha desconhecida, no meio do espaço, para descodificar origens ainda mais remotas. “O material dentro do cometa é o resto do início do sistema solar, por isso é material primordial”, explicou Matt Taylor, em Setembro ao PÚBLICO, cientista da missão da Roseta. “Quanto mais longe se está do cometa, menos puro é o material. A File dá-nos acesso ao material mais puro.”


Com os instrumentos científicos que a Roseta e a File carregam, os cientistas vão analisar vários aspectos do núcleo do cometa. Deste modo, poderá compreender-se a relação entre a água e as moléculas orgânicas presentes no 67P e o que existe na Terra, já que no início do sistema solar o nosso planeta foi bombardeado por inúmeros cometas.

Ao fim de uma viagem de dez anos, este é o dia de todas as emoções. Ontem, soube-se que a Roseta estava em posição para a descida da File. A ESA vai emitir no seu site a chegada ao cometa, que pode ser acompanhada no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa. De manhã, pelas 9h, chegará a informação sobre a separação entre a Roseta e a File. Mas só às 16h02, passadas sete horas, é que se terá a certeza de que a missão correu bem, com a chegada à Terra dos primeiros sinais enviados pela Roseta.

Depois, deverão vir as imagens da paisagem do 67P. “Os cometas são a aparição visual do espaço”, dizia Matt Taylor. Num céu de aparência estática, aparecem e desaparecem ciclicamente e acordam-nos para o Universo misterioso. Uma parte desse mistério pode hoje vir até nós.

Notícia actualizada às 12h39