Roma vai abrir ao público o bunker de Mussolini

Na próxima semana, o abrigo mandado construir pelo ditador junto à sua residência oficial passa a receber visitas guiadas. Em Janeiro, começam as obras do futuro Museo della Shoah. Duas histórias paralelas do século XX italiano, agora desenterradas no mesmo parque de Roma.

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O bunker que Mussolini mandou construir junto à sua residência oficial organiza-se ao longo de um corredor de 60 metros de comprimento REMO CASILI/REUTERS
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As divisões do bunker estavam equipadas com capacetes e máscaras de gás REMO CASILI/REUTERS
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Não se sabe se Mussolini terá chegado a usar o abrigo da Villa Torlonia, mas em todo o caso foi ali instalado um telefone para comunicações com o exterior REMO CASILI/REUTERS
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O bunker de Mussolini recebe visitas guiadas a partir do próximo dia 31 de Outubro REMO CASILI/REUTERS
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Este será um dos 12 bunkers que Mussolini mandou construir em Roma durante a Segunda Guerra Mundial REMO CASILI/REUTERS
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Pequeno WC rudimentar dentro do abrigo agora reaberto REMO CASILI/REUTERS

Em 1940, pouco tempo depois de entrar na Segunda Guerra Mundial ao lado da Alemanha nazi, o ditador italiano Benito Mussolini dava ordens para que se iniciasse a construção de um bunker nos jardins da Villa Torlonia, junto ao palácio que entre 1922 e 1943 usou como residência oficial – um bunker que, a julgar pelas eufóricas declarações de que enfrentaria as bombas aliadas sozinho na varanda, não estaria propriamente disposto a frequentar. A partir da próxima sexta-feira, dia 31, esse abrigo, que nos anos seguintes Mussolini mandaria ligar a dois outros bunkers contíguos, passará estar aberto aos fins-de-semana para visitas guiadas. É apenas o primeiro passo para converter a Villa Torlonia num local de referência para a reflexão sobre o período mais negro do século XX italiano: por decisão unânime da Fondazione Museo della Shoah, aqui será construído também, a partir de Janeiro de 2015, o primeiro museu do país inteiramente dedicado ao Holocausto.

"Acreditamos realmente que o que aconteceu em Itália no último século não pode repetir-se nunca. Por isso é tão importante que hoje aqui estejamos a mostrar que queremos educar os nossos filhos no espírito de conceitos como a liberdade e a igualdade", afirmou o presidente da Câmara de Roma, citado pela BBC, na visita inaugural deste fim-de-semana. Não foram declarações muito diferentes das que fez há uma quinzena, depois de saber que a fundação responsável pela instalação do Museo della Shoah escolheu o mesmo parque da cidade, em cujo extremo noroeste foram descobertas as catacumbas de um cemitério judaico da época romana, para ali contar a história da participação italiana na maior operação de genocídio da história europeia: "Roma terá finalmente um lugar para recordar a tragédia das deportações e do extermínio dos judeus e para transmitir às futuras gerações o valor da memória como antídoto contra todas as formas de intolerância e de ódio", disse então Ignazio Marino.

Mandado edificar junto à Villa Torlonia para protecção da família do ditador, o bunker que agora abrirá aos visitantes é apenas um dos 12 que terão sido construídos em Roma durante a Segunda Guerra Mundial – o último dos quais debaixo do Palazzo Venezia, onde Mussolini teve o seu escritório (e a varanda a partir da qual fez os seus mais célebres discursos, actos fundadores do fascismo italiano).

O estado em que foi encontrado não permite determinar se alguma vez chegou a ser utilizado, embora por trás das suas pesadas portas de metal tenham sido descobertas divisões equipadas com telefones, capacetes e máscaras anti-gás, além de um WC rudimentar. Não se trata, no entanto, de uma construção de raiz: o bunker de Mussolini resulta do reaproveitamento da antiga adega dos Torlonia, a família de aristocratas que em 1797 adquiriu a então Villa Colonna e a remodelou sucessivamente para a colocar à altura das melhores residências nobres de Roma, dotando-a de um dos raros jardins ingleses da cidade. Quando tomou o complexo como residência oficial, em 1922, o Duce foi menos ambicioso do que os anteriores proprietários e não viu necessidade de o submeter a grandes alterações: reservou o palácio para si e para a família, destinando o anexo medieval e a estufa a reuniões sociais, festas e sessões de cinema. No limite, o seu único gesto revolucionário na Villa Torlonia foi a conversão do campo de torneios em court de ténis  anos mais tarde, a sua mulher, Rachele, quis cultivar legumes no jardim, como contribuição para o esforço de guerra.

Nostalgia
Ocupada pelas tropas do comando anglo-americano em Julho de 1944, e adquirida 33 anos mais tarde pelo município de Roma, que a restaurou e adaptou a museu (acolhe actualmente uma colecção importante de obras do período da Escola Romana, o movimento artístico que floresceu na capital italiana no período entreguerras), a Villa Torlonia nunca se tornou um lugar de peregrinação dos nostálgicos de Mussolini. Mas a memória do ditador continua particularmente viva em Predappio, onde nasceu a 29 de Julho de 1883.

Aberta a visitantes, a casa onde passou a infância é actualmente uma galeria de exposições temporárias (uma das mais recentes foi justamente dedicada à juventude do Duce); o jazigo de família onde está enterrado, no cemitério local, recebe cerca de 100 mil visitantes por ano. E embora o actual presidente da câmara, Giorgio Frassinetti, esteja particularmente empenhado em fazer descolar Predappio da má fama de local de peregrinação para neofascistas, um museu bastante benevolente em relação ao legado de Mussolini, La Casa dei Ricordi, mantém-se aberto na casa de Verão da família desde 2001. Ali é possível ver a cama onde dormiu, o violino que tocou, e até o terço que fazia questão de ter consigo nos momentos mais difíceis.

Reeleito este ano, Frassinetti mantém o projecto não exactamente consensual de transformar a Casa del Fascio, construída em 1930 para receber visitantes e glorificar Mussolini, num museu dedicado à história do fascismo italiano: "Predappio poderia assim tornar-se num lugar de reflexão, o que resgataria a cidade daqueles que querem usá-la para fins discutíveis", disse o autarca ao jornal britânico The Independent em Abril deste ano.

Morte e sobrevivência
Entretanto, em Roma, a maioria dos que usam a Villa Torlonia para passear ou fazer piqueniques parece absolutamente indiferente ao facto de durante mais de 20 anos aqueles jardins terem sido o recreio particular de uma das figuras mais sinistras do passado recente de Itália. A partir de Janeiro, quando se iniciarem as obras de construção do futuro Museu della Shoah, será difícil ignorar que talvez tenham sido ponderadas ali algumas das mais terríveis decisões do ditador italiano, a começar pelas leis anti-semitas de 1938.

Embora pretenda documentar todo o processo do Holocausto nazi, o novo museu dedicará uma especial atenção ao período que decorre entre a radical alteração legislativa de 1938, que limita severamente os direitos dos judeus italianos, e as deportações para campos de concentração e de extermínio organizadas entre 1943 e 1944. É uma história de morte, que, de resto, faz ecoar a memória antiga dos judeus de Roma evocada pelo cemitério subterrâneo descoberto em 1919 nos jardins da Villa Torlonia. Mas também será, garante a fundação que está por trás do museu, uma história de sobrevivência.

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