Compensar alunos sim, mas sem mais aulas por semana e fora das pausas lectivas

Por uns motivos ou por outros, docentes e especialistas nas áreas da Psicologia e da Educação consideram que não há maneira de resolver de forma completamente adequada os problemas provocados pelo atraso na colocação dos professores. Falam em soluções "menos más" e em "contenção de danos" e rejeitam uma overdose de aulas extra.

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Adriano Miranda

Esgotadas cinco das 13 semanas do primeiro período lectivo, ainda há alunos sem professores. Uma situação que preocupa os especialistas pela instabilidade criada, pela perda de conteúdos programáticos ou por ambos os motivos. Todos consideram que não há mais a fazer do que tentar minimizar as consequências e concordam com o que não pode ser feito. “Nem mais aulas por semana nem aulas nas pausas lectivas. Isso, sim, seria educação de encher chouriços”, afirma Lurdes Figueiral, dirigente da Associação de Professores de Matemática (APM). A solução mais consensual é o reforço do número de professores na sala de aula, ao longo de todo o ano.

Na sexta-feira, Filipe, que está no 8.º ano e estuda na EB 2,3 Marquesa de Alorna, em Lisboa, ainda não tinha professores de Matemática, de Português e de Ciências Naturais; Anita, de 12 anos de idade e a frequentar o 7.º ano na EB 2,3 do Seixal, continuava sem aulas a Matemática, História, Inglês e Francês; e Matilde e Carlota, ambas no 4.º ano, tinham começado as aulas há três dias, na E,B 1 Actor Vale, em Lisboa.

Estes são exemplos da situação de um número indeterminado de alunos dos 304 agrupamentos de escolas TEIP (Território Educativo e de Intervenção Prioritária) e com autonomia, que ainda sofrem com os atrasos na chegada de professores. Que resultaram, primeiro, de um erro na colocação; e, depois, do próprio mecanismo do concurso, que permite que o mesmo docente seja colocado em várias escolas, bloqueando o acesso às vagas por parte dos colegas.

O presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, Manuel Pereira, calcula que “nem todos os problemas estarão resolvidos antes do fim de Outubro”. Depois, diz, “terá de ser estudada com os docentes a solução adequada a cada caso”, que o Ministério da Educação já se comprometeu a apoiar, após os pais reclamarem a compensação dos dias perdidos.

A preocupação dos directores é corroborada por professores e especialistas das áreas da Educação e da Psicologia. Perder duas, três, quatro e cinco semanas de aulas é considerado grave, principalmente em relação às crianças dos primeiros ciclos de escolaridade. Edviges Ferreira, da Associação de Professores de Português (APP), considera que os alunos do secundário “já têm capacidade para aguentar horas de aulas extra e para se organizarem”; Lurdes Figueiral, da Associação de Professores de Matemática (APM), acredita que estarão a ser menos afectados, já que “normalmente são professores do quadro que leccionam as disciplinas em anos de exame”.

Alunos do Ensino Básico preocupam mais
“Em relação aos alunos do 1.º, do 2º e do 3º ciclos, mais grave do que perderem conteúdos programáticos é o impacto da instabilidade na sua formação global”, alerta Filomena Viegas, da APP. Diz não ter dúvidas de que “as crianças que ficaram em casa, sem professores, e as que passaram semanas com aulas “hora sim, hora não; hora não, hora não têm de estar perturbadas”.

“Os alunos precisam de rotinas, de terem as actividades estruturadas e, principalmente para as crianças mais novas e em fase de transição entre ciclos, esta situação é muito, extraordinariamente, prejudicial”, considera.

Lurdes Figueiral concorda e mostra-se preocupada com a possibilidade de as escolas optarem, agora, por tentar resolver o problema com aulas extra, “colocando uma pressão inútil sobre os alunos, que já estão a sofrer com esta situação”. Numa alusão à "salsicha educativa" de que falou o primeiro-ministro, a dirigente da APM diz que "isso, sim, seria encher chouriços, algo inadmissível".

“As crianças têm um ritmo de aprendizagem próprio, que já está comprometido, e agora há que evitar agravar a situação”, alerta também Lucília Salgado, da Escola Superior de Educação de Coimbra.

Paula Carqueja, da Associação Nacional de Professores (ANP), e José Morgado, especialista em Psicologia da Educação, têm a mesma opinião. Mas, tal como Lurdes Figueiral (e ao contrário das dirigentes da APP), não desvalorizam os conteúdos que ficaram, entretanto, por leccionar. E é aqui que a questão se complica. Se todos consideram que o problema dos exames do 4.º, 6.º e 9.º anos devia ser, pelo menos este ano, eliminado (cancelando, adiando as provas ou reduzindo os conteúdos testados), nenhum dos quatro vê como é que se pode fugir a cumprir os programas “fechados” e a metas “exaustivas”. "Estão definidos", critica José Morgado, “para ocupar todo e qualquer tempo que as crianças estão dentro das salas de aulas”.

Parcerias, para "conter danos"
O investigador acredita que, neste contexto, "pouco mais há a fazer do que conter danos", evitando "soluções que são mero fingimento", como os dois dias a mais de aulas por período lectivo nas pausas de que já se falou. Porque "as crianças e os professores devem ter tempo para brincar" e também pela "inutilidade da medida", explica. "Quem perdeu um mês de aulas precisaria de mais de um mês de aulas para recuperar, porque o processo já não se desenrola da mesma maneira", reflecte igualmente Lucília Salgado. No caso do 1º ciclo,em que os alunos têm um professor todo o dia, isso representa muitas semanas; no 2.º e no 3.º ciclos, em que faltou parte de um conjunto de professores, os tempos perdidos contam-se, normalmente, em vários blocos de 45 ou 90 minutos por semana, consoante as disciplinas.

Feito o balanço entre prós e contras, a presidente da ANP afirma que a única solução que encontra – “e que ainda assim é má, porque entra nas férias dos alunos” – passa pelo prolongamento das aulas para além do termo oficial do ano lectivo, com as turmas divididas e apoio personalizado, de maneira a compensar os conteúdos em falta sem provocar pressão nas crianças. Lurdes Figueiral e José Morgado, que frisam que não há estratégia "adequada" a um problema com “efeitos irreversíveis”, propõem que os alunos passem a ter dois professores na sala de aula ou que as turmas sejam divididas em dois grupos, mas desde já, durante o resto do ano ou enquanto for necessário. “Em vez de dar mais, dar diferente e dar melhor”, traduz o especialista em Psicologia da Educação.

Lucília Salgado, que também aposta nas parcerias na sala de aula, considera que, seja qual for a solução, o importante é “não perder de vista, nos próximos anos, as crianças que foram e estão a ser afectadas pela falta de professores”.

“Os problemas podem não se revelar já, mas dificilmente deixará de haver sequelas”, antevê, defendendo que “o mínimo que se deve fazer é continuar a apoiar estes alunos”.