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Gordon Brown falou como um escocês e salvou o Reino Unido

Londres tremeu com a perspectiva de perder a Escócia e chamou um dos mais impopulares políticos britânicos para fazer campanha. E resultou.

A escassos dias da data em que os escoceses seriam chamados às urnas para escolher o seu futuro, um tremor de terra abalou Westminster. Várias sondagens indicavam uma vitória do “sim”, contrariando a tendência dos meses anteriores, e instalaram o pânico desde o número 10 de Downing Street até Buckingham.

O establishment unionista teve que agir rapidamente e foi chamar aquele que é visto, agora que o referendo ditou a derrota dos independentistas, como uma espécie de novo herói da União. Gordon Brown, o antigo primeiro-ministro caído em desgraça, saiu do exílio a que se submeteu desde que em 2010 os trabalhistas sofreram uma das maiores derrotas da sua história.

Para a posteridade ficará o discurso que proferiu em Glasgow na véspera do dia da consulta, em que alertou para o “alçapão económico” que esperava os escoceses caso escolhessem a independência. Escreveu o Guardian (próximo da esquerda) que “não foi tanto um discurso quanto uma oração”, em que apelava à “maioria silenciosa” para que deixasse de o ser.

Considerado um dos políticos mais impopulares do Reino Unido, a escolha de Brown, ele próprio nascido na Escócia, para capitanear os últimos esforços da campanha do “Não” foi vista com algum cepticismo. O Telegraph (alinhado à direita) notava que “desde que aparentemente Calígula nomeou o seu cavalo como cônsul que a elite política não tinha concordado com uma escolha mais estranha”.

A escolha dos partidos britânicos, perante a percepção de que o “sim” vinha a ganhar adeptos nos dias cruciais antes do referendo, tinha de ser feita de forma rápida e eficaz. Sobretudo depois de uma campanha desastrada tanto por parte do primeiro-ministro, David Cameron, como pelo líder da oposição, Ed Miliband.

Nos dias que precederam o referendo, verificou-se que o resultado seria definido pelos eleitores indecisos das classes trabalhadoras na cintura industrial escocesa. “Zangados, e muitas vezes ignorados pela máquina do Partido Trabalhista, que tratou o poder como um direito de nascimento, muitos escoceses da classe operária parecem acreditar que todos os seus problemas são culpa dos ingleses”, dizia o Financial Times.

Foi aí que entrou Gordon Brown e o seu discurso emotivo. Mas mais que a retórica que o receio do avanço do “sim” impunha, terá sido, sobretudo, o trabalho de bastidores do antigo primeiro-ministro que terá tido algum efeito concreto.

A decisão de conferir mais poderes à Escócia, apoiada pelos três partidos, e anunciada a poucos dias do referendo, foi claramente influenciada por Brown, que, bem a propósito, publicou este Verão o livro My Scotland, Our Britain, que apresentava muitas dessas ideias.

O contributo de Brown para a vitória do “Não”, dizia o Guardian, terá conferido ao antigo primeiro-ministro “um tipo de respeito que raramente granjeou nos seus tempos no número 10”.

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