Narcisismo: personalidade ou doença mental?

Há especialistas que garantem que o narcisismo é mais do que uma fase de crescimento, uma adaptação às regras sociais ou um traço de personalidade. Dizem que é doença e preferiam que a sociedade tratasse estes “imbecis egoístas” em vez de os estigmatizar.

Os distúrbios de personalidade são mais subtis do que a esquizofrenia, a depressão ou outras doenças psiquiátricas clássicas. Talvez não seja suficiente perguntar simplesmente: “É um narcisista?”, quando vivemos rodeados pelas nossas contas no Instagram, os nossos posts no Facebook ou os nossos tweets.

Queria dedicar este artigo acerca do narcisismo a uma pessoa que me é muito especial: eu própria. Dedicar uma peça acerca do narcisismo a si própria é uma ideia muito inteligente. Não fui eu que tive essa ideia. Foi Jeffrey Kluger, no seu mais recente livro, The Narcissist Next Door: Understanding the Monster in Your Family, in Your Office, in Your Bed — in Your World [tradução livre — “O Narcisista ao Nosso Lado: Como Perceber o Monstro Que Há na Sua Família, no Seu Escritório, na Sua Cama — no Seu Mundo”).  

O estudo de Kluger, muito interessante e bem pesquisado, sobre a síndrome que está na moda refere nomes de figuras tão diversas como Lance Armstrong, Kim Kardashian, Jayson Blair e Steve Jobs. Também indica expressões como “aproveitamento” e “ter direito absoluto” como duas das principais características de um narcisista.

Kluger está longe de ser o primeiro a observar que vivemos numa cultura inundada pelo narcisismo mais rasteiro. As nossas contas no Instagram, as páginas do Facebook, feeds no Twitter e as nossas páginas pessoais na Internet reflectem as nossas vidas num espectáculo de luzes e cores a que todos têm acesso. Chegamos a casa depois de termos passado o dia a construir as nossas marcas profissionais, ligamo-nos a mais um stream de reality TV através do Netflix e abanamos a cabeça ao som de Feeling myself de Will.i.am (“Look up in the mirror, the mirror look at” — Olho para o espelho / O espelho olha para mim). 

Um estudo de 2008 efectuado pelo investigador Jean Twenge concluiu que os estudantes universitários têm agora resultados superiores no Registo de Personalidade Narcisista do que tinham em 1979 e que mais deles se consideram como estando “acima da média”. Uma sondagem do Instituto Nacional de Saúde norte-americano determinou que 9,4% dos inquiridos com idades entre os 20 e os 29 anos apresentam um narcisismo extremado, enquanto nos que ultrapassam os 65 anos representam apenas 3,2%.

Para alguns especialistas, o narcisismo é mais do que uma falha no carácter, uma fase do crescimento ou uma adaptação às regras sociais. É uma patologia, inscrita na quinta edição do Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais (sigla em inglês, DSM). O distúrbio de personalidade narcisista pertence a uma categoria de distúrbios de personalidade que foi pela primeira vez definida em 1980. Estas categorias criaram controvérsia logo desde o início, e os psiquiatras continuam a debater acerca de como as definir e se elas deveriam sequer estar incluídas no DSM. Os distúrbios de personalidade são mais subtis do que a esquizofrenia, a depressão ou outras doenças psiquiátricas clássicas, e à medida que foram sendo construídas, assim se espalharam: cerca de 9,1% dos norte-americanos sofrem de um distúrbio de personalidade. As síndromes borderline (personalidade limítrofe), obsessiva-compulsiva e anti-social, estão entre as mais comuns; estima-se que o distúrbio de personalidade narcisista afecte 1% da população.  

Pacientes com distúrbio narcisista apresentam traços “patológicos”, tais como a “mania das grandezas”, o serem centrados sobre eles próprios e uma necessidade constante de atenção e admiração (as guloseimas que enchem o ego conhecidas como “alimentação narcisista”). Os seus relacionamentos são afectados devido a uma empatia desequilibrada, mesmo dependendo fortemente dos outros para a “regulação da autodefinição e da auto-estima”. Outras frases-chave nos critérios do DSM incluem “excessivamente ligados às reacções dos outros”, “a definição de objectivos é baseada na aprovação dos outros” e “agarrando-se firmemente à convicção de que se é melhor do que os outros”. 

Podemos responder a um questionário de 40 perguntas para determinar a nossa egomania. Mas, dado que os nossos resultados são mais elevados sempre que concordamos com uma afirmação como “sou um bom líder” ou “gosto de receber elogios”, há quem considere que este estudo, elaborado pelos psiquiatras Robert Raskin e Howard Terry em 1988, é mais eficaz a reflectir a auto-estima — ou a natureza humana — do que o narcisismo. Muito recentemente, investigadores apresentaram um método mais simples para determinar se alguém é narcisista. Basta perguntar-lhe “Você é um narcisista?” “As pessoas que estão dispostas a admitir que são mais narcisistas do que as outras provavelmente são efectivamente mais narcisistas”, explicou o psicólogo Brad Bushman, da Ohio State University. “Acreditam que são superiores às outras pessoas e não têm problemas em dizê-lo publicamente.”  

Para serem qualificadas como patológicas, as tendências narcisistas devem prejudicar o funcionamento da pessoa, de um modo efectivo e doloroso. A absorção em si mesmo não deve ser explicada pela idade (as crianças pequenas são uns verdadeiros tiranos) ou pelo ambiente sociocultural (as estrelas de futebol são encorajadas a comportar-se como imperadores romanos). Um verdadeiro narcisista é somente ego, sem restrições e desajeitado — ele apenas se consegue ver a si próprio, mas é uma visão opaca. Talvez ele adore ser o primeiro sem sentir quaisquer complicações, ou talvez também exista uma mistura de relutância. No seu artigo para a revista Harper’s intitulado “Me, Myself, and Id”, Laura Kipnis escreve que o narcisista “vive como se estivesse rodeado de espelhos, mas não gosta do que vê”.

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Narcissus, Caravaggio, 1596. Galleria Nazionale d’Arte Antica, Palazzo Barberini, Rome Leemage/Corbis

Esta descrição pode parecer familiar mas contém também uma característica mais esquiva e mais generalizada. A vagueza dos sintomas avançados pelo DSM (“os padrões pessoais são desmesuradamente altos, de forma a ver-se a si próprio como excepcional, ou demasiado baixos e baseados no sentimento de direito absoluto”, “sobrevalorização ou subvalorização do seu próprio efeito sobre os outros”) e a proliferação de subcategorias (“frágil”, “amoroso”, “recompensador”, “paranóico”, “fálico”) fazem com que tudo pareça desconfortavelmente vasto e etéreo. Mas, apesar da sua ubiquidade cultural, os narcisistas são figuras esquivas. Estão no conjunto total, por vezes no outro, mas nunca em mim. Kipnis destaca que o narcisista vampírico e que concentra as luzes da ribalta tem historicamente sido apresentado para explicar por que razão nós, as pessoas normais, não estamos a receber a atenção que merecemos. O rebuscadamente convencido Christopher Lasch não conseguia perceber como é que o seu companheiro de quarto na Universidade de Harvard, John Updike, parecia caminhar sem qualquer esforço para a notoriedade. Por isso escreveu A Cultura do Narcisismo. Actualmente, os narcisistas estão em todo o lado, no nosso local de trabalho, são os nossos conhecidos e namorados, com egos turbulentos que pisam e esmagam as nossas pobres aspirações. 

E se bem que Kipnis constrói uma teoria apelativa, ficamos com a sensação de que ela subestima os narcisistas. “Os traços de personalidade existem num contínuo”, diz John Oldham, director da Clínica Menninger (Houston) e um dos maiores defensores da inclusão do narcisismo no DSM. “Alguém com o distúrbio de personalidade narcisista está num ponto extremo desse contínuo, um ponto que leva a uma incrível deterioração no trabalho, dentro de si mesmo, e socialmente.” Em pacientes em que ainda não foi detectada, a autoconfiança (o isótopo saudável do narcisismo) pode transformar-se em arrogância, mas não em material altamente radioactivo ao nível de Donald Trump. O distúrbio de personalidade narcisista na sua forma pura, afirma Oldham, “destrói o mundo dessas pessoas”. 

Para os psiquiatras, a questão não é realmente “os narcisistas existem?” ou “são os narcisistas diferentes de nós?”. É: “São os narcisistas mentalmente doentes?” Por trás desta pergunta esconde-se outra: o que é que ganhamos e perdemos, quando pegamos num fenómeno psíquico e o declaramos “doença”? Estaremos a estigmatizar um comportamento normal? A absolver idiotas da responsabilidade após terem ultrapassado os limites? Ou, pelo contrário, e dado o nosso mais avançado conhecimento acerca das doenças mentais como tendo base biológica — uma complicada mistura de factores genéticos, adquiridos ao longo do crescimento e ambientais —, estaremos a ser mais compreensivos? A fazer com que seja mais fácil que as pessoas que estão a sofrer consigam obter tratamento?

“Todos temos tendência — maior ou menor — para ser egoístas e não vejo que seja útil discutir ‘narcisismo’ e ‘narcisistas’ em termos de patologias”, escreve o psicólogo Peter Kinderman no site The Conversation. E explica as suas reservas face ao rótulo de “doença mental”: é impreciso, uma categoria inventada para um impulso humano difuso. A nossa tendência comum para o narcisismo surge em maior ou menor grau, afirma Kinderman, e deveríamos concentrar-nos em como “todos nós, eu incluído, podemos ficar centrados em nós próprios, sem compaixão, sem empatia”.

Os psicólogos sabem muito pouco acerca do que causa o distúrbio de personalidade narcisista. Um estudo centrado em 175 pares de gémeos (90 idênticos, 85 fraternos) sugere que o narcisismo é um traço eminentemente de herança genética, mas poucos laboratórios se debruçaram sobre o que faz com que o distúrbio de personalidade surja em toda a sua força. 

Estudos sobre o distúrbio de personalidade anti-social em adoptados apoiam a tese de que o ambiente tem um papel significativo neste tipo de doenças. Alguns especialistas postulam que o distúrbio de personalidade narcisista, que tende a manifestar-se nos primeiros anos da idade adulta, provém de “mimos excessivos” por parte dos pais ou de uma interesseira “necessidade de que os seus filhos sejam talentosos e especiais”. No entanto, o modelo causal mais comum inter-relaciona factores biológicos, sociais e psicológicos, a que se alia uma predisposição “escondida” no ADN que pode desabrochar em força com a combinação certa de determinadas experiências de infância, comportamentos adquiridos e peculiaridades que se foram cultivando ao longo do tempo.  

Uma das razões pelas quais os distúrbios de personalidade são tão desafiantes poderá ser o facto de características como o narcisismo parecerem demasiado próximas, demasiado inatas, para se encaixarem na categoria de doenças mentais. A nossa depressão ou a nossa ansiedade não têm obrigatoriamente de nos definir, mas a nossa personalidade pode fazê-lo. Tradicionalmente, a perspectiva biológica acerca dos distúrbios mentais é considerada como mais bondosa do que as outras alternativas, mas também implica uma espécie de pena de prisão perpétua, uma irreversibilidade. Sujeitar a nossa personalidade a apreciações de doença ou sanidade contém o potencial para marcar a patologia bem no âmago da nossa identidade. 

Os médicos estão a combater essa sensação de inevitabilidade, desespero e estigmatização. “Uma das definições de ‘doença’ é ‘algo que nós podemos tratar’”, diz Andrew Skodol, professor de Psiquiatria na Universidade do Arizona e especialista em distúrbio de personalidade narcisista. Sim, continua ele, o narcisismo tem tratamento. A psicoterapia, especialmente em conjugação com medicamentos, pode aliviar o garrote do distúrbio e empurrar com suavidade os doentes para mais perto do centro seguro do espectro.

De facto, a capacidade de resposta do narcisismo ao tratamento poderá ser o melhor argumento para o incluir no DSM. Quando alguém sofre de algo que não consegue controlar e para que existem profissionais com conhecimentos para a gerir, então a melhor coisa a fazer é procurar ajuda. Poucas pessoas tentarão lidar com o seu narcisismo se não o considerarem um distúrbio. O argumento prático de Skodol para definir como doença o estar centrado sobre si mesmo baseia-se em dois factos. Primeiro, os traços de personalidade parecem ser em parte inatos, apesar de maleáveis — ou seja, são mais condições do que escolhas. Segundo, os terapeutas podem orientar os narcisistas através do árduo processo de conterem os seus egos e construírem as suas vidas.

Para Skodol e Oldham, reconhecer o distúrbio de personalidade narcisista como um “condição” não significa ilibar os narcisistas da responsabilidade pelos seus actos. “Mesmo se alguém tem uma doença mental, tem de dar o seu melhor”, declara Oldham. 
No estado em que estamos, muitos médicos continuam insatisfeitos com o retrato que o DSM faz do narcisismo. Um artigo recente revela que a descrição, com a sua curta e generalizada lista de sintomas, negligencia a natureza da síndrome, bem como a sua estrutura, apresentação e expressão (o seu narcisismo está exposto ou é mantido escondido?). Mas manter esta condição no manual norte-americano de referência para os distúrbios mentais é uma coisa positiva. Quer sejam atacados por serem imbecis egoístas ou considerados doentes mentais, é provável que os narcisistas enfrentem alguma estigmatização. Seria bom que também conseguissem receber alguma ajuda. 

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post