Toni Blay/ Flickr
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Megafone

Ramones, a marca de roupa

A leitura da presente crónica deve ser acompanhada pela canção “Ignorance is Bliss” a tocar em loop

Confesso que nunca pensei que se ouvisse tão boa música em Portugal. Tendo por base as rádios, os programas de televisão e as partilhas dos meus “amigos” do facebook, julguei que os gostos musicais hodiernos se ficavam pelo sertanejo brasileiro e uma ou outra canção em que o refrão repete umas duzentas e setenta e quatro vezes. Mas é mentira. Contra todas as previsões, a banda favorita da malta são os Ramones. Os americanos cessaram funções há quase vinte anos, mas só agora é que o hype do punk se está a fazer sentir um pouco por todos os guarda-fatos. Há uns tempos ouvi dizer que eramos todos Meireles, eu acho que somos todos Ramones.

Seja como for, esta é uma história que não pode ficar na gaveta. Tudo começou há cerca de quarenta anos atrás, em 1974, quando quatro estilistas juntaram agulhas, tecidos e tesouras e criaram uma inovadora linha de roupa a que chamaram “Ramones”. O sucesso foi imediato, ao ponto de influenciarem, nos anos seguintes, indústrias do calçado como o grunge ou o heavy metal, que era uma tendência mais Outono-Inverno. A indústria têxtil nunca mais seria a mesma. Seguiram-se anos dourados para a marca americana, com a produção de vestuário a massificar-se um pouco por todo o mundo. O legado construiu-se por si só, como uma borbulha na pele de um adolescente, até que a Ramones foi considerada marca de confiança em 2002, graças a arrojadas técnicas de fabrico e a uma clientela altamente fidelizada. Recentemente assinaram contrato com a cadeia de lojas Pull & Bear, a fim de difundir ainda mais um clothing jovial e cheio de… ignorância. Unanimemente, a Ramones partilha o poleiro da alta-costura ao lado da Chanel, Dior e Versace. Ok, esta parte já sou eu a inventar.

Por si só, já é engraçado o número de t-shirts e derivados dos Ramones que se vêem actualmente na rua, mas o fim da picada são mesmo os comentários de alguns dos detentores do referido artefacto: “ah, mas isto é de uma banda?”; “não são aqueles que morreram todos num acidente de avião?”; “já estive para os ir ver ao Alive.”; “são portugueses? Acho que já vi este nome em qualquer lado”. Talvez tenha sido na RTP Memória, num programa apresentado pelos Turbonegro e pelo Júlio Isidro. Sem interesse acérrimo por aquilo que as pessoas vestem, preocupa-me a ignorância e a profecia de Aldous Huxley a cumprir-se todos os dias à frente dos nossos olhos. A produção em massa de gostos e valores é hoje uma constante, até na roupa, e com isso ocorre também a banalização de tudo o que importa, desde ideais, princípios e valores, passando pelo talento ou pelos ídolos. Tudo é plástico e tudo é marca. Até a magia e engenhosidade dos Ramones se resume a isso, a uma marca. E, por isso, não estará, por certo, longe o dia em que a genialidade dos Pink Floyd se irá vender em frascos de shampoo ou em que nas notícias alguém morra atropelado por um autocarro Nirvana. Uma questão de tempo e de ignorância.

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