Para vencer jihadistas é preciso atacar as suas bases na Síria

Pentágono diz que Estado Islâmico "é mais do que um grupo terrorista" e insiste na necessidade de uma aliança para o derrotar militarmente.

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Mlitantes do Estado Islâmico numa parada em Raqqa, na Síria, a cidade que transformaram na sua capital REUTERS

Os dois mais altos responsáveis do Pentágono usaram palavras fortes para demonstrar até que ponto os jihadistas instalados entre a Síria e o Iraque são uma ameaça para o mundo. O Estado Islâmico (EI) “é mais do que apenas um grupo terrorista”, é uma organização com uma visão “apocalíptica” e uma estratégia territorial capazes de fazer explodir o Médio Oriente. Para derrotar os radicais, Washington admite que é preciso atacar também as suas bases na Síria, mas sublinha que antes é necessário reunir parceiros e potências regionais numa aliança comum.

As palavras do secretário da Defesa, Chuck Hagel, e do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Martin Dempsey, aumentaram a confusão sobre qual o caminho que a Administração norte-americana pretende seguir para evitar que se concretizem os vaticínios de um colapso do Iraque e do enraizamento de um Estado terrorista no coração da instável região.

Quarta-feira, depois da execução do jornalista norte-americano James Foley, o Presidente Barack Obama comparou o EI a um “cancro” que precisa de ser extraído e, um dia depois, o secretário de Estado, John Kerry, defendeu que o grupo “deve ser destruído”. Mas responsáveis políticos e militares asseguraram que os ataques aéreos autorizados por Obama no início deste mês mantêm um alcance limitado: “O objectivo militar nunca foi enfraquecer o EI, mas proteger os funcionários americanos” e impedir o massacre de civis, disse à Reuters uma fonte da Administração.

Na conferência de imprensa no Pentágono, quinta-feira à noite, Hagel foi menos categórico. “Estamos a estudar todas as opções”, disse o secretário da Defesa que, em resposta a uma pergunta sobre se o Estado Islâmico representa uma ameaça maior para os EUA do que a Al-Qaeda em 2001, não poupou nas palavras. “Eles combinam ideologia com uma sofisticação estratégica e táctica de poderio militar. Estão tremendamente bem financiados. Isto vai mais longe do que tudo o que já tenhamos visto”, afirmou Hagel, sublinhando que o grupo representa “uma ameaça iminente” para os interesses americanos.

Shashank Joshi, analista militar britânico, escreveu na BBC que nem a execução de Foley nem o risco de jihadistas treinados no Iraque virem um dia a atacar em solo americano podem ser comparados com a capacidade que a organização fundada por Bin Laden teve para atingir os EUA. No entanto, o território que os jihadistas conquistaram em pouco mais de dois meses, os milhares de combatentes que integram as suas fileiras, o dinheiro e as armas que angariaram na Síria e no Iraque levam o analista a afirmar que “o EI não deve ser visto como um simples grupo terrorista, mas como um movimento híbrido que aspira a ser uma nação com forças armadas convencionais” e, nesse sentido, “não tem precedentes”.

O almirante Dempsey assegurou, no entanto, que “é possível contê-los”, como prova a reconquista da barragem de Mossul, uma das infra-estruturas vitais do Iraque, que os jihadistas não conseguiram manter quando as forças curdas avançaram sobre a zona, apoiadas pelo fogo da aviação americana. Erbil, a capital do Curdistão iraquiano, está hoje também mais longe da mira do EI, ocupado agora a repelir contra-ofensivas a Tikrit, cidade natal de Saddam Hussein, e na estratégica cidade de Jalawla, junto à fronteira com o Irão.

“Eles podem ser contidos, mas não indefinidamente. Uma organização que tem uma visão apocalíptica terá de um dia ser derrotada”, avisou o responsável militar que não quis deixar dúvidas sobre o que isso implica: o EI “tem de ser visado dos dois lados do que é hoje uma fronteira inexistente” e os “ataques aéreos são apenas uma pequena parte”. Mas esse momento “só chegará quando houver na região uma coligação que assuma a missão de derrotar” os jihadistas.

Pressão sobre europeus

As palavras do almirante – na linha dos apelos já feitos por Obama a uma aliança internacional contra os jihadistas – colocam sob pressão os parceiros europeus, até agora resistentes a uma intervenção militar directa no Iraque. Implicam também convencer as potências regionais a cooperar apesar dos seus interesses divergentes. De Teerão surgiram notícias, entretanto desmentidas, de que o país estaria disposto a participar no combate aos jihadistas em troca do levantamento das sanções internacionais contra o seu programa nuclear – uma associação de dossiers que os EUA até agora recusaram.

Mais incómoda, mas talvez mais decisiva, pode ser uma revisão da política americana e europeia em relação à guerra na Síria. Há muito que os comentadores dizem que Washington concluiu que não quer a queda de Bashar al-Assad, já que isso poderia deixar caminho livre para os jihadistas.

Mas a ideia de estar do mesmo lado da barricada é ainda inaceitável para os ocidentais. “Podemos descobrir que temos um inimigo comum, mas isso não significa que confiemos neles ou que trabalhemos com eles”, afirmou o ministro da Defesa britânico, Philip Hammond. Vários peritos militares afirmam, no entanto, que para derrotar o EI não bastariam ataques aéreos pelo que, num determinado momento, seria preciso alinhar estratégias com Assad.