Combates e propaganda na fronteira cada vez mais quente da Rússia com a Ucrânia

Kiev diz que disparou sobre veículos militares russos que entraram no seu território. Europeus pedem fim imediato das hostilidades de Moscovo

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Muitos dos camiões russos com ajuda humanitária estão meio vazios Maxim Shemetov/reuters

A Rússia foi alvo de uma séria advertência da comunidade internacional por causa o seu alegado envolvimento no conflito em curso no Leste da Ucrânia, com os aliados ocidentais a avisarem Moscovo para as graves consequências da manutenção do impasse ou — pior — da escalada da situação.

Esta sexta-feira voltou a ficar marcada por grande actividade militar — e confusão — junto à fronteira da Ucrânia e da Rússia. Enquanto no lado russo arrancava a inspecção à caravana humanitária enviada por Moscovo para socorrer as populações cercadas das cidades de Lugansk e Donetsk, no lado ucraniano as forças de defesa nacional confirmavam a destruição parcial de uma coluna militar da Rússia que teria invadido o território vizinho a coberto da noite, num ataque de artilharia.

Num telefonema com o primeiro-ministro britânico, David Cameron, o Presidente Petro Poroshenko, disse que “uma parte significativa” da coluna de tanques e blindados russos tinha sido destruída pela artilharia ucraniana. A informação foi repetida pelo porta-voz do Exército nacional, Andri Lisenko, em Kiev. Segundo disse aos jornalistas, as forças ucranianas detectaram a presença de um comboio militar russo no seu território, e “tomaram acções apropriadas”, que resultaram na destruição parcial da caravana.

A movimentação dos militares russos foi denunciada logo pela manhã por jornalistas estrangeiros, que reportaram a presença de dezenas de viaturas blindadas no sul da Rússia, próximo do local onde estacionaram os camiões com a ajuda humanitária. Repórteres dos jornais britânicos The Guardian e The Telegraph escreveram que 23 viaturas blindadas de transportes de tropas, camiões e outros veículos logísticos com matrícula russa foram vistos a atravessar a fronteira, ainda na noite de quinta-feira. A AFP também deu conta do avanço de uma coluna de dezenas de blindados russos, que circulava em direcção ao posto fronteiriço de Donetsk.

Em Bruxelas, onde se reuniram para discutir a situação da Ucrânia (e também do Iraque e de Gaza), os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia soaram imediatamente o alarme. As informações vindas da região configuravam “uma violação grave do direito internacional”, apontou o sueco Carl Bildt. A Rússia deverá retirar as suas forças da zona da fronteira e “parar imediatamente as hostilidades”, aconselhavam os parceiros europeus — “e ter consciência que tanto a UE como os Estados Unidos responderão a qualquer agressão russa”, sublinhou o ministro dinamarquês, Martin Lidegaard.

O Reino Unido convocou o embaixador da Rússia em Londres para esclarecimentos sobre a incursão de soldados russos em território ucraniano. Reforçando a pressão sobre Moscovo, o Presidente francês, François Hollande, lembrou que a Rússia tem a obrigação de “respeitar a integridade territorial da Ucrânia”. Ao fim do dia, Paris confirmou a realização de uma nova reunião entre os representantes dos governos da Rússia e da Ucrânia, sob mediação da França e Alemanha, amanhã em Berlim.

O ministério da Defesa russo recusou comentar o caso, mas uma fonte da divisão de fronteiras dos serviços de segurança, citada sob anonimato pela agência RIA Novosti, garantia que as forças destacadas pelo Exército russo para a região de Rostov permaneceram no local, em exercícios militares. Segundo a Nato, esses exercícios envolvem cerca de 40 mil tropas.

Para o secretário-geral da aliança atlântica, Anders Fogh Rasmussen, os desenvolvimentos desta sexta-feira são “uma clara demonstração do envolvimento da Rússia no conflito em curso no Leste da Ucrânia”. A Reuters escrevia que se Kiev conseguisse apresentar provas credíveis da destruição do material militar russo visto pelos jornalistas estrangeiros em território ucraniano, Moscovo ficaria sem argumentos para evitar uma nova ronda de sanções da comunidade internacional.

A guerra humanitária

Entretanto na Rússia, onde foi recebido por Vladimir Putin, o Presidente da Finlândia, Sauli Niinisto, disse às agências internacionais que a entrada da coluna de ajuda humanitária de Moscovo em território ucraniano já tinha sido autorizada pelo Governo de Kiev. “Soubemos hoje que a missão humanitária vai chegar até às populações necessitadas depois de ter sido fechado um acordo entre a Ucrânia, a Rússia e a Cruz Vermelha”, informou.

Segundo o líder finlandês, esse acordo deveria ainda incluir a assinatura de um cessar-fogo entre as forças governamentais e as milícias rebeldes independentistas, tal como sugerido pelo Presidente Vladimir Putin. Mas Kiev rejeitou a hipótese de uma trégua que não contemple o estabelecimento do controlo das fronteiras.

Os 280 camiões carregados em Moscovo perfilaram-se na localidade russa de Kamensk-Shakhtinsky, para uma inspecção da carga pelas autoridades alfandegárias e representantes da Cruz Vermelha Internacional e da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).

Num comunicado assinado pelo director de operações da Cruz Vermelha para a Europa, Laurent Corbaz, a organização avisou que o processo de certificação e distribuição da ajuda poderá demorar algum tempo. “Ainda não obtivemos garantias de todas as partes em conflito de que esta missão poderá prosseguir com total respeito pelos princípios humanitários. Tendo em conta a complexidade logística e os desafios em termos de segurança que esta operação envolve, pedimos a colaboração das autoridades dos dois países para que os problemas possam ser resolvidos rapidamente”, lê-se no comunicado.

Os funcionários da alfândega — e jornalistas estrangeiros convidados pela Rússia para observar a vistoria — confirmaram que o carregamento russo continha água, leite, farinha, material médico, geradores eléctricos e outros mantimentos. Mas também constataram que vários camiões que integravam a caravana seguiam praticamente vazios, levantando a questão: qual o interesse da Rússia em mobilizar dezenas de camiões vazios para entrar na Ucrânia?

O Governo de Moscovo tem repetidamente negado que a sua acção humanitária seja um “cavalo de Tróia” e desmentido qualquer intenção de intervir militarmente no conflito que dura há mais de quatro meses no país vizinho. Mais de 2000 pessoas morreram desde o início da rebelião separatista no Leste da Ucrânia, e centenas de milhares abandonaram as suas casas para procurar refúgio da guerra, do outro lado da fronteira e noutras cidades da Ucrânia.

As autoridades de Kiev também enviaram na quinta-feira uma coluna de 75 camiões com 800 toneladas de produtos de primeira necessidade destinados às populações civis de Donetsk e Lugansk. Mas sem um cessar-fogo, dificilmente estes camiões irão entrar nos territórios controlados pelos separatistas.