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Com os Punhos Cerrados, um filme Mídia NINJA em Locarno

Com os Punhos Cerrados, entrada brasileira fora de concurso, é um filme-panfleto contra o sistema, formalmente notável

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"Este filme é a forma de a gente participar dessa luta", diz o brasileiro Pedro Diógenes (ou será Ricardo Pretti, ou Luiz Pretti?), perante a plateia cheia do PalaVideo de Locarno.

A luta a que um dos três realizadores de Com os Punhos Cerrados se refere é a actual agitação social no "país irmão" que atingiu o ponto alto com o Mundial de Futebol; talvez pela sua dimensão completamente activista, passa fora dos concursos principais (na secção paralela Signs of Life, dedicada a novas formas de trabalhar o cinema narrativo). E é também mais uma prova de que o cinema brasileiro que se está a mexer, e que interessa, está a ser feito fora dos centros do Rio e de São Paulo.

No caso, Com os Punhos Cerrados vem de Fortaleza, no Ceará, e partilha com cineastas como Kleber Mendonça Filho, Esmir Filho ou Renata Pinheiro uma enorme sofisticação formal e narrativa desenrascada com uma equipa de amigos e conhecidos e a ajuda do crowdfunding, aqui articulada com uma postura anti-sistema que podia vir da Mídia NINJA. Ou não contasse a história de uma estação de rádio pirata, a Sintonia Anarquista, que transmite para Fortaleza mensagens de resistência e revolta ao conformismo da sociedade moderna intercalada com os chansonniers interventivos franceses e o free-jazz. Porque este é, verdadeiramente, um filme ninja, panfleto abstracto em favor da liberdade e da criação, do artista e do questionamento, que alia a um trabalho formal extraordinário um idealismo talvez ingénuo, certamente canhestro mas nem por isso menos sincero. 

Com os Punhos Cerrados reflecte a vontade de fazer um filme "do seu momento", que ressoe agora com o Brasil de hoje. É inevitável querer fazer pontes com Ventos de Agosto, de Gabriel Mascaro, que está no concurso principal (Ricardo Pretti, um dos três realizadores/argumentistas/actores, é montador do filme de Mascaro). São filmes diferentes, mas em comum têm uma criatividade, uma inventividade muito brasileira; algo de melting-pot de imagens e sons onde o cosmopolitismo e a ruralidade se cruzam alegremente, a vanguarda e o classicismo se casam e têm filhos (juramos que, a certa altura, nos veio à cabeça o THX-1138 de George Lucas ou o Alphaville de Godard no modo como os irmãos Pretti e Diógenes filmam a Fortaleza de hoje como uma distopia Orwelliana de futuro próximo). 

 Nesse aspecto, estamos a falar de um cinema ao mesmo tempo tropicalista e pós-tropicalista, onde é inevitável ver as marcas desse movimento que agitou a cultura brasileira mas que não se limita a repisá-las ou repetí-las, antes procura reinventá-las para um novo tempo que parece quase exigir uma nova ideia do que é ser brasileiro. 

Com os Punhos Cerrados não é, atenção, um grande filme; o seu idealismo (mesmo que sincero) tem qualquer coisa de slogan empacotado em modo Manu Chao para partilhar no Facebook, articulando lugares-comuns anti-sistema com enorme convicção - mas é essa convicção e essa sinceridade que o distinguem da maioria dos filmes-panfletos, porque é necessária para reapropriar os lugares comuns para que voltem a fazer sentido. Sobretudo, a narrativa demasiado esquelética e a inexpressividade dos seus actores tornam a experiência pontualmente embaraçosa, e quase garantem que este é um filme que não envelhecerá bem. Mas isso não importa perante a vibração enérgica e entusiasmante das suas imagens ou a coragem das suas convicções. E isso chega para prestar-lhe a atenção que merece. 

Notícia corrigida às 17h52: Fortaleza é no Ceará e não no Recife