Opinião

O precog lusitano

Folheio as páginas dos jornais, leio os comentários, ouço certos políticos e opinion-makers, e tenho de concluir que o país está cheio de fervorosos fãs de Philip K. Dick – para muito boa e indignadíssima gente, nós vivemos no mundo de Relatório Minoritário, onde existem uns “adivinhos mutantes” chamados precogs que vêem o futuro e permitem que os crimes sejam impedidos ainda antes de serem cometidos.

As paisagens de Portugal e as páginas dos jornais estão adornadas com vastos rebanhos desses precogs, agraciados com o maravilhoso dom da presciência. Infelizmente, porque não se pode ter tudo, são precogs com delay: só depois de as coisas acontecerem é que eles ficam absolutamente convencidos de que já as conheciam por antecipação. E então dizem: “Ora, ora, não se estava mesmo a ver que isto do BES ia acabar como acabou? Como é possível que ninguém tenha percebido no que isto ia dar? Os sinais não estavam já todos aí?”

E claro está: sendo o precog lusitano portador de tão magníficas qualidades, ele não as quer guardar só para si. Ou melhor: está convencido que os outros também as possuem. Tão convencido, aliás, que se alguém tem o azar de admitir não ter visto chegar a tragédia a léguas de distância, então é porque fechou os olhos de propósito. Segundo a teoria precogógica mais recente, foi precisamente isso que aconteceu ao governador do Banco de Portugal.

No mundo Relatório Luso-Minoritário, o governador do Banco de Portugal desempenha o papel que Steven Spielberg atribuiu a Tom Cruise na adaptação do conto ao cinema: ele é o chefe da Divisão Pré-Crime. Ou seja, é suposto Costa agarrar todos os ladrões antes de roubarem, todos os banqueiros antes de afundarem os bancos. E não vale a pena ele argumentar que não é precog nem tem precogs na Rua do Comércio – se resmas de precogs tugas vêem a ruindade chegar a léguas de distância, por que raio é que Costa se mostrou incapaz de caçar Ricardo Salgado antes de ele empurrar o BES pela varanda abaixo?

O precog lusitano vê cair o BES e pergunta: “Onde estava o regulador?”. Vê cair o BPN e questiona: “Onde estava o regulador?” Vê cair o BPP e inquere: “Onde estava o regulador?” Vê cair a Dona Branca e interroga: “Onde estava o regulador?” Vê cair o Lehman Brothers e demanda: “Onde estava o regulador?” Vê cair o Northern Rock e indaga: “Onde estava o regulador?” Vê cair Bernard Madoff e interpela: “Onde estava o regulador?” Vê cair Alves dos Reis e perquire: “Onde estava o regulador?”

Caros leitores, mas, sobretudo, caros precogs: ninguém tem dúvidas de que o sistema financeiro actual é de uma tremenda complexidade e de uma terrível opacidade. Nenhuma pessoa decente aprecia offshores, sedes no Luxemburgo ou falhas de regulação. Mas ficarmos por sistema a queixar-nos do sistema é uma estupidez, sobretudo quando uma parte essencial do sistema mudou para melhor. Esse é o problema do precog lusitano: está preso no passado a fingir que olha para o futuro e esquecendo-se de verificar o presente. E o presente é este: accionistas responsabilizados, sistema financeiro chamado a pagar a conta, e pais, filhos e netos Espírito Santo com o seu dinheiro congelado. Esta é uma mudança radical, que milhares de precogs parecem não querer ver, preferindo antes alimentar a sua 3897ª teoria da conspiração. É preciso uma certa paciência para aturar tanto visionário.