Opinião

Uma agenda para a década

É preciso romper com a visão do curto prazo.

A criação do euro, o alargamento da União Europeia a leste, a entrada da China nos mecanismos internacionais do Comércio Livre constituíram, no início deste século, um triplo choque, brutal para as debilidades estruturais da economia portuguesa.

Desde essa altura, a nossa economia estagnou, alternando anos de recessão com anos de fraco crescimento, ameaçando em consequência a estabilidade das finanças públicas e interrompendo a convergência com a UE.

Estávamos ainda especialmente vulneráveis quando em 2008 se desencadeou a maior crise mundial dos últimos 80 anos e a Europa falhou, primeiro por hesitação, depois pela sucessão de estratégias contraditórias e, finalmente, por dogmatismo ideológico, na resposta à crise.

O erro do diagnóstico conduziu ao erro na terapia, com o resultado que conhecemos e a insistência na austeridade só irá continuar a agravar.

Há que recuperar o tempo perdido e concentrarmo-nos, de vez, com persistência e continuidade, no que é essencial: superar o atraso estrutural que limita a competitividade, compromete o crescimento e impede a consolidação sustentável das finanças públicas.

É claro que parte importante da solução dos nossos problemas exige uma mudança na Europa. É necessário corrigir as deficiências que a crise evidenciou da união monetária, compensar os efeitos assimétricos que o euro tem nas diferentes economias, recuperar os danos sociais e económicos provocados pelo ajustamento, encontrar um novo equilíbrio na gestão dos nossos compromissos que favoreça o crescimento sustentável, a criação de emprego, o controlo do défice e a redução da dívida.

É preciso romper com a visão do curto prazo, com o ciclo vicioso e precário em que o Governo se bloqueou e bloqueou o país, subindo impostos para aumentar a receita ou cortando salários e pensões para baixar a despesa. Portugal precisa de reunir vontades, construir compromissos, mobilizar energias, em torno de uma nova agenda mobilizadora, que garanta consistência, durabilidade e estabilidade.

Uma nova agenda para a década.

Concentremo-nos na valorização dos nossos melhores recursos, os portugueses, o território, a língua.

Não podemos desperdiçar a geração mais qualificada que Portugal formou, vendo-a partir ou mantendo-a no desemprego e temos de saber mobilizar esse extraordinário recurso que é a rede da diáspora das comunidades portuguesas no Mundo.

Não podemos desistir das mulheres e homens da minha geração, brutalmente atingida pelo desemprego que ameaça ser de longa duração.

Quem abriu novos mundos ao Mundo, é tempo de valorizar os 97% de território nacional que a profundidade atlântica dos Açores e da Madeira nos oferecem em recursos e posicionamento estratégico nas novas rotas globais, assim como é tempo de um novo olhar sobre o território continental, percebendo que, no mercado único europeu, as regiões de fronteira deixaram de ser interior e passaram a ser as regiões mais centrais num mercado ibérico com 60 milhões de consumidores, seis milhões dos quais estão na imediata vizinhança.

O português é uma língua comum a 250 milhões de pessoas, de quatro continentes, base de uma comunidade global que temos de consolidar numa carta de cidadania de igualdade direitos, liberdade de residência e trabalho, reconhecimento muito de qualificações, portabilidade de direitos.

Temos de voltar a investir na Cultura, na Ciência e na Educação, bases da sociedade do conhecimento, condição de uma sociedade de iniciativa, criativa, inovadora, capaz de vencer, tanto na sofisticação do software de última geração como na revalorização dos produtos tradicionais, produzidos nos territórios de baixa densidade, ou em novas indústrias internacionalmente competitivas.

Precisamos de modernizar o tecido empresarial e o Estado, fomentando o empreendedorismo, a inovação, na agricultura, nos sectores tradicionais, nos serviços, fortalecendo as empresas e apoiar a sua internacionalização, num ambiente institucional favorável, de uma administração ágil, próxima, descentralizada, eficiente.

Só a coesão social reforça Portugal e mobiliza os portugueses, exigindo-nos que o combate à pobreza, a valorização do trabalho e o combate às desigualdades sejam a prioridade que dê sentido a uma comunidade centrada nas pessoas.

É, pois, uma agenda de valorização, conhecimento, modernização e coesão. Romper o horizonte para além do curto prazo é condição necessária para construir uma alternativa que não aceite o impasse de que não há mais vida para além do défice e da dívida, e que assuma que a consolidação só é sustentável com crescimento e emprego e estes só resultarão da superação das causas estruturais da estagnação.

É esta estratégia que deve enformar a atitude negocial na Europa, um programa de recuperação económica e, por fim, um programa de governo.

Candidato às primárias do PS