Ricardo Salgado fica em liberdade sujeito a caução de três milhões

Ex-presidente do BES ouvido esta quinta-feira em tribunal prestou declarações e o seu advogado garantiu que continuará a colaborar com a justiça.

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Ricardo Salgado foi constituído arguido no processo Monte Branco enric vives-rubio
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Rui Gaudêncio

O ex-presidente executivo do Banco Espírito Santo (BES), Ricardo Salgado, ficará em liberdade e sujeito à prestação de uma caução de três milhões de euros. O banqueiro foi inquirido no Tribunal Central de Instrução Criminal, onde prestou declarações no âmbito do processo Monte Branco, que investiga a maior rede de branqueamento de capitais descoberta em Portugal.

Ao final do dia, um porta-voz do banqueiro emitiu um comunicado referindo que Ricardo Salgado — que foi interrogado pelo juiz Carlos Alexandre entre as 10h30 e as 18h, com intervalo para almoço — "acredita que a verdade e a justiça acabarão por prevalecer". Segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), Salgado está indiciado por crimes de burla, abuso de confiança, falsificação e branqueamento de capitais. De acordo com o que foi defendido pelo procurador do Ministério Público após o interrogatório e ordenado pelo juiz Carlos Alexandre, o banqueiro ficou ainda proibido de se ausentar do território nacional e de efectuar contactos com determinadas pessoas que estão relacionadas com o processo.

“Ricardo Salgado veio aqui colaborar com a justiça e prestar a sua visão sobre os factos. Seguirá agora normalmente para sua casa. Continuará a colaborar com a justiça”, disse à saída o advogado Francisco Proença de Carvalho. O comunicado emitido ao final do dia dá também conta dessa "total disponibilidade para colaborar com a justiça no apuramento da verdade, como já o fez, no âmbito do processo, há cerca de dois anos", deixando, ainda, um recado à comunicação social: o banqueiro "confia na objectividade da informação pública divulgada" pelos órgãos de informação sonre o caso.

De testemunha a arguido
Salgado já tinha sido ouvido como testemunha no âmbito do mesmo processo, em Janeiro do ano passado, como, aliás, recorda a PGR. No processo, foram identificados movimentos financeiros que tinham levado à inquirição de Salgado como testemunha. Então, a PGR garantiu que não recaiam sobre o banqueiro quaisquer suspeitas de ter estado envolvido em “qualquer ilícito fiscal”. Agora, porém, o ex-homem forte do BES entrou e saiu como arguido.

operação Monte Branco teve início em Junho de 2011 como uma investigação sobre as transferências de dinheiro entre gestores de fortunas suíços e os seus clientes portugueses. 

A investigação que se seguiu no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), com a colaboração de inspectores da Autoridade Tributária e Aduaneira, permitiu depois a “obtenção de elementos de prova por via da cooperação judiciária internacional, tendo sido recolhidos novos indícios que justificaram um conjunto de diligências” levadas a cabo quarta-feira, aponta a PGR.

Na quarta-feira, tal com o PÚBLICO avançou em primeira mão, o DCIAP já tinha feito buscas na sede do Grupo Espírito Santo (GES), na Rua de São Bernardo, em Lisboa, e esteve noutras empresas fora do grupo, mas que têm, ou tiveram, relações com o GES. As buscas aconteceram horas depois de as autoridades do Luxemburgo terem aprovado o pedido de gestão controlada apresentado pela Espírito Santo International, que afirmou não pode pagar as dívidas que tem.

Dessas buscas resultaram indícios que comprometiam Salgado, o que justificou a sua detenção e o seu interrogatório pelo juiz Carlos Alexandre. A PGR sublinha que o banqueiro “manifestou o propósito de prestar declarações e de colaborar com a justiça para o esclarecimento dos factos”.   

Sandes ao almoço
No dia em que Ricardo Salgado foi interrogado, o PÚBLICO apurou que na mira das autoridades está também a advogada luso-angolana Ana Almeida Bruno, que se encontrava fora do país quando, nesta quarta-feira, as autoridades entraram nas instalações do seu escritório nas Torres das Amoreiras, em Lisboa.

As autoridades procuram saber detalhes sobre o papel desempenhado (e os conhecimentos dos factos) por Ana Bruno quando, em 2011, a Rioforte, holding para a área não financeira do Grupo Espírito Santo (GES), vendeu 67% da Escom à empresa angolana Newbrook, de que a advogada era administradora. O negócio de 500 milhões de euros foi conduzido por Ricardo Salgado.

No intervalo de cerca de uma hora que teve para almoçar antes de voltar a ser inquirido pelo juiz Carlos Alexandre, o banqueiro não comeu a refeição que a PSP serve às pessoas detidas para interrogatório no Tribunal Central de Instrução Criminal, e que é confeccionada por uma empresa de catering. Ao contrário de Vale e Azevedo ou de Carlos Cruz, que passaram por circunstâncias idênticas, Ricardo Salgado nem sequer desceu à cela para almoçar, como é hábito nestes casos, e mandou vir comida de fora, que lhe foi levada pelos homens que o acompanhavam. Comeu na sala usada pelos advogados para falar com os seus clientes. Segundo fonte próxima do banqueiro, almoçou apenas "umas sandes".