Porto: uma cidade cada vez mais acolhedora e hospitaleira

Falar de hospitalidade na cidade significa, pois, falar de lugares vividos e convividos, remetendo para os comportamentos cívicos, para os estilos de sociabilidade, para a organização dos espaços comuns e, de uma forma geral, para as políticas urbanas.

Num artigo anterior, tive já oportunidade de sublinhar a importância da hospitalidade na forma como nos fazemos cidade. Na altura, tentando sublinhar os desafios de inclusão ligados à capacidade de acolhimento das pessoas mais vulneráveis, como as pessoas sem-abrigo. Desta vez, interessa-me realçar o fenómeno do turismo, inscrevendo assim a hospitalidade entre as razões que fizeram destacar o Porto enquanto “melhor destino europeu 2014”.

Concebendo a hospitalidade como uma qualidade da experiência relacional positiva, entende-se que é possível encontrar uma ligação fundamental entre os rituais de hospitalidade doméstica e as diversas formas de hospitalidade pública, o que nos permite alinhar as lógicas comerciais, subjacentes à hospitalidade turística, com as lógicas de dádiva tradicionalmente associadas às dinâmicas de acolhimento social. A partir daqui, podemos perguntar sobre os indicadores de hospitalidade da nossa cidade. Mas até que ponto a cidade do Porto é uma cidade, realmente, hospitaleira?

A avaliar pelos resultados evidenciados no âmbito do estudo “Porto Solidário-Diagnóstico Social” (CMP/UCP; 2009), a cidade do Porto é considerada pelos seus habitantes como uma cidade acolhedora e hospitaleira, tanto em relação a residentes como a visitantes, tal como consta das múltiplas mensagens de divulgação turística. Mas independentemente da opinião que possamos ter a este respeito, talvez o mais importante seja evitar tomar a hospitalidade da cidade como um dado adquirido, considerando-a antes como um valor, isto é, como algo que é preciso cuidar e desenvolver incessantemente.

Neste sentido, julgamos que valerá a pena investir em dinâmicas de pedagogia social suficientemente diversificadas, potenciadoras, por um lado, da apropriação subjetiva e cívica dos lugares habitados e, por outro, da emergência de novos lugares de hospitalidade. Os espaços transformam-se em “lugares” justamente quando passam a ser “lugares de alguém” e de tal modo que dizemos com frequência que a verdadeira riqueza dos lugares está nas pessoas e não nas suas potencialidades materiais. Ou seja, a forma como são vividos, percebidos, desfrutados e partilhados faz toda a diferença.

Em suma, os lugares de hospitalidade são lugares de pertença e de afirmação identitária. Mas são também, por isso mesmo, lugares que convidam à entrada dos outros numa oferta de acolhimento, refúgio, alimento, ajuda ou conforto. Assim sendo, apostar no desenvolvimento das condições de hospitalidade de uma cidade como o Porto, significa promover a imagem de uma cidade cada vez mais aberta, mais solidária e mais cosmopolita.

Docente da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, no Porto. A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico