Corrente criada por Miguel Portas desvincula-se do Bloco de Esquerda

Fórum Manifesto quer trabalhar para "influenciar a governação do país" e diz que o BE está hoje "fechado sobre si próprio". Ana Drago poderá estar de saída do partido.

Ana Drago queria que as famílias fossem envolvidas na detecção das dificuldades
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Ana Drago queria que as famílias fossem envolvidas na detecção das dificuldades Pedro Cunha

A corrente do Bloco de Esquerda Fórum Manifesto, fundada por Miguel Portas e originalmente designada Política XXI, decidiu este sábado desvincular-se do partido e trabalhar desde já para as próximas legislativas no sentido de “contribuir para a formação de convergências fortes e credíveis à esquerda do PS, com claros objectivos de influenciar a governação do país”.

Ana Drago, o rosto mais conhecido do Fórum Manifesto e que já se tinha demitido da comissão política, está a preparar a sua saída do partido, avançaram ao PÚBLICO duas fontes da actual direcção. Os outros dirigentes historicamente ligados a esta corrente – Marisa Matias, José Manuel Pureza e José Gusmão – deverão permanecer no BE, pois já anteriormente tinham aderido à tendência Socialismo, criada recentemente pelos coordenadores Catarina Martins e João Semedo com o objectivo de chegar à convenção de Novembro com uma só moção.

A decisão da Fórum Manifesto foi tomada em assembleia geral realizada este sábado à tarde em Lisboa e é justificada sobretudo por aquilo que é considerado o afastamento do BE da sua matriz e do seu eleitorado. "As derrotas consecutivas que o Bloco de Esquerda acumulou nos últimos anos, e que o conduziram à magra expressão eleitoral obtida nas últimas eleições europeias, não são um reflexo de factores externos", mas resultado "da acumulação de erros não corrigidos, inscritos numa orientação política que divorciou crescentemente o BE do seu potencial eleitorado", lê-se na resolução política agora aprovada.

E explica-se porquê: “Perante a opinião pública, o Bloco vincou, ao longo dos últimos anos, a imagem de um partido cada vez mais virado sobre si próprio, indisponível para o diálogo e para a convergência com outras forças políticas à esquerda; centrado no protesto, e por isso indisponível para estabelecer compromissos efectivos de governação; revelando uma insuficiente, inconsistente e até, por vezes, contraditória construção programática.”

Depois de lembrar que, na sua génese, o BE tinha “como compromisso matricial o papel da construção de pontes e do fomento do diálogo entre as esquerdas”, a Manifesto entende que esse compromisso não foi cumprido, mas ainda pode ser. Para tal, vai promover, ao longo dos próximos meses, iniciativas concretas para a “formação de convergências forte e credíveis à esquerda do PS”, tendo como horizonte imediato as próximas eleições legislativas, previstas para 2015.

O PÚBLICO está a tentar falar com Ana Drago, mas até ao momento não foi possível. Já João Semedo foi peremptório: “Não vou reagir, não tenho nenhum comentário a fazer.”

O BE divulgou entretanto uma nota de imprensa em que afirma que "anteriores posições de alguns membros do Fórum Manifesto já anunciavam a decisão hoje tomada". E acrescenta: "O Bloco continuará empenhado em juntar forças, convicto que o impulso para dividir não reforça a esquerda."