Entrevista

“As sociedades sempre precisaram de pessoas impiedosas, charmosas e que mentem”

Um psicopata puro não vê o outro como uma pessoa, mas como uma peça no seu tabuleiro de necessidades. Todos nós podíamos usar uma dose q.b. de características dos psicopatas, defende o psicólogo britânico Kevin Dutton.

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Kevin Dutton diz que James Bond é "um exemplo de um psicopata funcional" Rui Gaudêncio

O empresário Steve Jobs, o astronauta Neil Armstrong ou o apóstolo São Paulo são apresentados por Kevin Dutton, psicólogo e investigador da Universidade de Oxford, no Reino Unido, como exemplos de pessoas famosas com características associadas à psicopatia. O Que Podemos Aprender com Os Psicopatas, livro editado agora pela Lua de Papel em que o investigador defende que alguns traços da personalidade dos psicopatas, podem ser uma mais-valia para todos nós.

Implacabilidade, charme, concentração, resistência mental, ausência de medo, atenção plena e capacidade de agir são traços dos psicopatas, mas que também nos tornariam heróis na mesa de cirurgia ou numa acção militar de resgate. É só preciso não deixar para trás a empatia.

Por que é que começou a estudar os psicopatas?
Há uma razão pessoal e uma científica. O meu pai era psicopata. Não era um homem violento, era um comerciante, extremamente sedutor e carismático, calmo, nunca perdia a cabeça, não tinha medo de nada. Eu teria cerca de nove ou dez anos quando, num sábado, o ajudei no mercado. Fomos depois jantar a um restaurante indiano barato em Londres. Quando foi pagar a conta, agarrou numa colher e bateu várias vezes no copo. Todo o restaurante ficou silencioso e o meu pai levantou-se e começou a fazer um discurso. “Só queria agradecer a toda a gente por ter vindo. Sei que alguns de vocês vieram de longe e outros de perto. São todos bem-vindos aqui. E, ia-me esquecendo, do lado de lá da rua há um bar, depois de terminarmos haverá uma pequena festa e ia ser óptimo vê-los por lá.” Nesse momento, o meu pai começou a bater palmas e, às tantas, todos estavam a bater palmas. Lembro-me de dizer ao meu pai: “Pai, não vamos realmente ao bar, pois não?” E ele disse: “Claro que não filho, mas estas pessoas no restaurante vão ao bar e o meu amigo John, que se tornou dono do bar há pouco tempo, vai fazer bastante dinheiro.” Ele fez isto sem pestanejar, sem medo das consequências.

Há também uma razão científica: quando comecei a fazer investigação na psicopatia queria acabar com o mito de que ser um psicopata é uma coisa puramente má. Se um marciano chegar à Terra e for trabalhar para um hospital onde só trata das pessoas com problemas relacionados com o Sol, cancro de pele, escaldões, vai pensar que o Sol é mau e que é preciso tapar o Sol. Mas sabemos que o Sol não é mau, excepto se ficarmos expostos a grandes doses, mas em pequenas doses fazem-nos bem. O meu argumento é o mesmo. Se ficarmos completamente expostos à psicopatia, apanharemos um cancro da personalidade, mas em menores doses pode ser benéfico, a personalidade fica bronzeada.

E por que é que há um fascínio pelos psicopatas?
Quando pergunto às pessoas “se o pudesse transformar num psicopata durante meia hora, e ao fim desse tempo tudo ficasse outra vez normal, não haveria nem repercussões morais ou legais, o que faria?”, há duas resposta. Um grupo diz que encontraria as pessoas que andaram a fazer mal ao longo de anos, e vingava-se delas. O outro diz que procuraria a pessoa que tinha amado a quem nunca tinha tido tomates para dizer isso e, finalmente, dizia-lho.

A chave da questão é não haver consequências. Os psicopatas são assim. Pense no meu pai, ele levantou-se e disse aquilo, estava-se nas tintas para o que acontecia depois. Os psicopatas estão-se nas tintas sobre o que as outras pessoas pensam deles. E nos dias de hoje, quando em Inglaterra há nas ruas uma câmara por 14 pessoas, quando há 2000 milhões de pessoas no Facebook e no Twitter, e vivemos num ambiente contínuo de escrutínio, há um desejo profundo de se estar nas tintas. Isto torna os psicopatas fascinantes. Por um lado, são muito perigosos, e temos um fascínio pelo perigo e pela morte. Os psicopatas assassínios em série, são a morte na sua forma mais implacável, têm aqueles olhos desprovidos de emoção, aquela lógica inexorável. Mas acho que, secretamente, também queremos ser assim, mas não temos coragem. Temos medo das consequências.   

O que podemos aprender com eles?
Os psicopatas não procrastinam. Se querem fazer uma coisa, fazem-na logo. Um dos maiores problemas no negócio e em qualquer aspecto da vida é que muitas vezes adiamos as coisas. Os psicopatas nunca adiam. Estão muito virados para a recompensa. Se querem alguma coisa, vão atrás dela. Muitos de nós têm medo da rejeição, de falhar. Se há um preço a pagar por algo, os psicopatas não vêm o lado negativo, atiram-se ao positivo.

Quando se vai tomar banho ao mar, há pessoas que mergulham de uma vez, há outras que vão aos poucos. Qual o grupo que sofre mais? É o segundo, são as pessoas que tentam minimizar a dor e acabam por sofrer mais. Isto funciona no quotidiano. Imagine que vai fazer um telefonema para dar uma má notícia. Os estudos mostraram que a ideia do telefonema causa mais sofrimento do que dar a notícia em si. Um psicopata faz imediatamente o que tem de fazer.

Termina-se o seu livro e não há uma resposta que diga o que faz com que um psicopata mate pessoas. Qual a razão de haver um pequeno grupo de pessoas psicopatas que saem para a rua e disparam contra outros?
Há duas outras características que devem entrar na mistura da psicopatia: a inteligência e a agressividade. Um psicopata com um mau início de vida em termos sociais, pouco inteligente e naturalmente violento não é uma boa combinação. É provável que acabe por ser um bandido de baixo nível ou pertencer a um gangue criminoso. Em ambos os casos vai acabar na prisão. Se retirar a violência da equação, poderá ser um ladrão, um vigarista menor, um traficante de droga ou um proxeneta. De qualquer maneira, vai acabar também na prisão. Mas se não é naturalmente violento, tem um bom início de vida e é inteligente, então é mais provável que venha a ser o melhor nos mercados financeira. O mais interessante é que se for um psicopata inteligente e violento, então pode acabar nas forças especiais ou ser o cabecilha de uma rede criminosa.

Há também a impulsividade, a incapacidade de adiar a gratificação, que se correlaciona com a inteligência. Quanto mais inteligente for, menos impulsivo tenderá a ser.

Então a violência é outro campeonato?
Sim. A violência não vem necessariamente com a psicopatia. Lidei com muitos psicopatas vigaristas que não eram violentos, mas seriam impiedosos a tirar todo o seu dinheiro e deixá-lo sem nada, destruiriam a sua vida sem um lampejo de consciência.

E em relação à empatia: Desmond Tutu, o activista sul-africano, disse que “uma pessoa só é uma pessoa se reconhecer os outros como pessoas”. Os psicopatas reconhecem os outros como pessoas?
Os psicopatas puros, não. Não teriam nenhuma empatia. E as outras pessoas são apenas peças de xadrez que eles jogam. Mas é aqui que as coisas complicam. Entrevistei neurocirurgiões de topo e um deles disse-me: “Imagine que tem os meios para ser um cirurgião de topo. Tem a visualização do espaço necessária para isso, tem a mão, a destreza, o conhecimento médico. Mas falta-lhe a capacidade para se desligar emocionalmente da pessoa que está a operar, então não vai conseguir operá-la.” A empatia, como Desmond Tutu disse, é muito importante, mas não é sempre importante.

No livro entrevista um cirurgião que diz ter aprendido a deixar de parte a empatia na sala de cirurgia. Mas isso é um treino, não é aprender a ser psicopata.
Sim, chama-se regulação emocional. O argumento do livro é que se pensarmos em traços psicopatas — como ser-se impiedoso, não se ter medo, ter concentração, calma quando se está sob pressão, carisma, charme, e claro a falta de empatia e a falta de consciência —, estes traços não são preto ou branco. Estão dentro de um espectro e não há uma mistura certa destes traços que seja definitiva e correcta. Depende do contexto, da combinação e do grau de cada traço. Algumas profissões vão exigir que alguns botões estejam mais acima da média: a cirurgia, a advocacia, ser-se militar ou empresário. Não estou a dizer a toda a gente para se tornar psicopata, senão a sociedade desintegrar-se-ia. O que digo é que às vezes estas características são boas.

No livro, os psicopatas aparecem como uma invenção tardia da natureza, quando nos tornámos gregários e começámos a viver em comunidade.
Nalgum momento da evolução, um número de características de personalidade associadas à psicopatia manifestou-se numa pessoa. Essa pessoa viveu o suficiente para propagar os seus genes. Mas houve sempre uma necessidade nas sociedades para pessoas impiedosas e sem medo, como os caçadores. Ou pessoas que são charmosas e carismáticas. Ou que são boas a dizerem mentiras, como os espiões. O representante de tudo isto é James Bond, ele é um exemplo brilhante de um psicopata funcional: impiedoso, não tem problemas em matar, em trair pessoas, não tem medo, é calmo sobre pressão. Conheço pessoas que são uma cópia do James Bond.

Um entrevistado seu diz que a sociedade estar a tornar-se mais psicopata. Concorda?
Sim. Há um estudo que diz que os cérebros das pessoas que vivem hoje nas cidades recebem tanta informação durante 24 horas como as que viviam no campo, durante a Idade Média em Inglaterra, ao longo de toda a sua vida. Esta é uma conclusão assustadora. Hoje em dia está tudo a tornar-se mais rápido, mais superficial. Não podemos dar-nos ao luxo de processar emocionalmente tudo o que vemos. Temos de ser mais descartáveis em relação às coisas, mais transitórios. Por outro lado, os exemplos da sociedade mudaram muito, tínhamos os professores, os familiares, às vezes membros da Igreja. Hoje esses exemplos são os jogadores de futebol, os músicos, os inventores, as celebridades. Há um movimento transitório de se querer ser famoso agora, sem esperar. A Internet também é um exemplo interessante: a ideia no Facebook de que se pode “desamigar” alguém foi adaptada para a vida real nas escolas. Os miúdos acham que podem dizer ao outro “vou desamigar-te”.

Então, as pessoas estão mesmo a tornar-se mais psicopatas?
A teoria dos jogos mostra que uma sociedade só com psicopatas vai desmoronar-se, porque eles vão matar-se uns aos outros. Quando se chega a um rácio crítico, as pessoas que não são psicopatas começam a prosperar, porque interagem entre si e isolam os psicopatas. Nessa altura, deixa de ser vantajoso ser um psicopata criminoso. Por isso, nunca iremos ter uma sociedade de psicopatas. Mas sempre que temos uma sociedade apoiada em pessoas boas e de confiança haverá alguns que funcionam contra o sistema.