Lura: “O grande motor da minha carreira é o regresso às origens”

Esta quinta-feira no CCB e sábado na Casa da Música a cantora cabo-verdiana assinala o regresso aos palcos com um espectáculo onde estreará algumas canções do seu próximo disco e revisitará “o melhor” dos anteriores.

Foto
Paulo Pimenta

Esta é a história de um filho que ainda não nasceu. Já tem nome, mas ela não o diz, porque ainda pode mudar. Primeiro, vêm os palcos: esta quinta-feira em Lisboa, no CCB, às 21h, sábado no Porto, na Casa da Música, às 21h30. Num e noutro trata-se do reencontro de Lura com o seu público num aguardado regresso aos palcos.

Eclipse, o seu último registo de estúdio, já data de 2009. Antes, regredindo no tempo, lançara M’Bem Di Fora (2006) e Di Korpu Ku Alma (2005), depois de In Love (2002) e Nha Vida (1996), onde ainda não acertara na sonoridade que veio a fixar-se como sua marca.

O facto de já terem passado cinco anos sobre a sua última ida a estúdio explica-o ela assim: “Não tem a ver com a crise. Depois do Eclipse lancei também um Best Of, que foi como que um espaço de transição, um balanço do que aconteceu até essa altura. Tenho andado pelos palcos, mas com menor frequência, porque resolvi mudar a equipa de trabalho. Não renovei o contrato com a Lusáfrica e isso acabou por afastar-me um pouco da parte mais prática dos espectáculos. Agora estou a criar uma nova equipa e esta é uma fase de recomeço e de retorno à actividade artística. E estou a preparar o novo disco com mais calma, com o meu ritmo, com as coisas mais pensadas. Às vezes vale a pena parar.”

Não havia nenhuma pressão para Lura lançar discos, mas “de certa forma havia ali uma correria porque as coisas estavam a acontecer muito bem, havia muitos concertos”. E ela não quis deixar-se consumir nessa voragem sem reflectir. “Às vezes há desencontros de mentalidades entre editoras e artistas. Foi o que aconteceu. Os artistas devem ter abertura para perceber a forma de funcionar das ‘máquinas’, mas as ‘máquinas’ também devem perceber e respeitar os artistas.” A mudança, diz, não trará dela uma imagem diferente. “Vou continuar igual a mim própria, porque sou incapaz de me desrespeitar. Isso é o ponto número um para que qualquer coisa na minha vida corra bem.” Mas desta vez arriscou mais na composição. “O próximo disco tem três temas meus, para já.” E haverá um tema em português, mas não da sua autoria. Lura fala em Paulo Abreu Lima, embora ainda não esteja fechada a escolha: “Estou a fazer questão de gravar em português, já que foi a primeira língua que aprendi a falar, faz parte da minha história” (embora filha de cabo-verdianos, Lura nasceu em Lisboa, na Maternidade Alfredo da Costa, a 31 de Julho de 1975, com o nome de Lurdes Assunção).

O que caracterizará, então, o seu novo disco, a lançar no último trimestre deste ano? “Vou revisitar alguns clássicos da música de Cabo Verde e isso é uma linha que une todos os meus discos. Durante a minha carreira tenho tido essa necessidade de voltar atrás, porque o grande motor da minha carreira é o regresso às origens, ou seja, revisitar Bulimundo e os grupos que me marcaram.” E vai voltar às composições de Mário Lúcio, o fundador dos Simentera. “Haverá um tema dele”, diz Lura. As mudanças sentir-se-ão mais no som. “Penso que a grande diferença do disco há-de ser ao nível da produção. Uma sonoridade nova, mas não completamente diferente daquilo a que as pessoas estão habituadas. Tem a ver com músicos, com a minha nova banda: o João Frade, no acordeão (é um acordeonista fantástico); o Vaiss, como sempre, na guitarra, que é o instrumento-base do meu projecto; o Cau Paris na bateria; e o Humberto Ramos no piano. E vão estar vozes também. Normalmente não tenho vozes em palco para além da minha, mas desta vez vão estar a Orlanda Guilande e a Débora Gonçalves.”

Nos espectáculos do CCB e da Casa da Música já haverá estreias: “Vou cantar duas ou três canções do disco novo, uma delas escrita por mim e inspirada no Salif Keita, uma das grandes referências da música africana no mundo. Escrevi-a em crioulo e é muito inspirada na sonoridade dele. Outra é o tema Somada, dos Bulimundo, numa versão minha. Sinto-me cada vez mais inclinada para assumir o funaná como o meu ritmo de eleição. O funaná e o batuco, mas cada vez mais o funaná: pelo ritmo, pela alegria, pela felicidade que este ritmo proporciona às pessoas. É contagiante, é ele que está no auge do espectáculo. Comigo, acontece o contrário do que as pessoas estão à espera quando entram numa sala de espectáculos: sentados, no silêncio, que há artistas a apresentar uma obra… Comigo, as pessoas põem-se em pé, dançam, saem para os corredores. Saindo um pouco das regras mas com respeito, descontracção e alegria.”

E haverá revisitações dos discos: “Vou tentar fazer o melhor de todos, indo ao encontro dos temas que as pessoas gostam mais de ouvir. Com o tempo, vamos percebendo qual é a nossa imagem, qual é a nossa cara, no nosso trabalho. O público vai-nos dizendo isso.”