Proíbam o Inglês!

Faço um apelo a todos os serviçais de Malaca Casteleiro: sejam coerentes e proíbam o Inglês!

Esta (aparente) apatia para com algo concebido por pervertidos e obedecido por iludidos é ainda mais espantosa em grupos profissionais que têm na língua a sua ferramenta principal de trabalho e que não se “poupam”, habitualmente, nos protestos quando sentem as suas prerrogativas ameaçadas: efectivamente, professores, jornalistas e juristas (advogados, procuradores, juízes) surgem, apesar de várias excepções honrosas, como classes… sem classe, sem carácter, traindo a população que deveriam defender intransigentemente e não só a espaços, intermitentemente. Este contágio de cobardia, esta epidemia de estupidez, esta infecção de imbecilidade alastra-se não só no Estado mas também na sociedade civil; no primeiro compreende-se que a prepotência burocrática, apesar de ilegítima, force as pessoas a comportamentos desviantes… do bom Português; mas na segunda não se compreende o fenómeno a não ser por mania de imitar, por uma bacoca crença de que mudar… apenas por mudar é bom, é sinal, prova, de “modernidade”.

Em plena histeria de aplicação do AO90, à revelia da lógica e da lei, da identidade cultural e da dignidade nacional, a paralela e crescente (mas que já vem de longe) “anglicização” da comunicação, da cultura, da sociedade e da economia em Portugal ilustra bem, por contraposição, as contradições, as hipocrisias, enfim, a idiotice deste processo de suposta “evolução” da língua. Veja-se, por exemplo, mais uma vez, o que se passa nas três principais estações de televisão nacionais. Cada uma delas criou em 2013 um programa com um título… em Inglês: a RTP o Chef’s Academy (culinária); a SIC o Off-Side (desporto); e a TVI o I Love It (telenovela). Todas, evidentemente, continuam a aplicar obedientemente o AO90, e por vezes com um entusiasmo… desnecessário: em legendas de serviços noticiosos a SIC já retirou o “c” de Octávio Teixeira e a TVI o “c” dos One Direction… sim, puseram “Diretion”! Entretanto, e mais inacreditável ainda, em filiais nacionais de multinacionais estrangeiras, e concretamente anglófonas, também se verifica o assalto ao bom senso ortográfico; como na Johnson & Johnson, que informa nos rótulos do Listerine que este produto é uma “proteção” com flúor contra as “afeções” das gengivas. E até – aqui já se está no campo do puro e simples delírio – no British Council de Portugal se decidiu, segundo mensagem que recebi, “adotar o novo acordo ortográfico, daí termos escrito 'respetivo' e não 'respectivo'.” Eu respondi que, nesse caso, deveriam ser “coerentes” e comunicar para a sede da instituição, em Londres, que a língua que têm por missão promover é “ultrapassada”, “decadente”, “arcaica” (tal como a francesa)… dada a profusão de palavras com vogais e consoantes repetidas e “mudas”, e até – que “horror”! – com “ph”.

Ainda no campo do ensino, e decididos a alcançar nota máxima no paradoxo, tanto o ministro Nuno Crato como o Conselho Nacional da Educação anunciaram, no final de 2013, que queriam que o Inglês fosse uma disciplina curricular obrigatória no primeiro ciclo, isto é, no ensino básico. Que confusão não acontecerá – aliás, já acontece – nas cabeças dos mais jovens ao verem numa língua “c’s”, “p’s” e até “ph’s” em excesso que na outra são – ou se tenta que sejam – eliminados. Depois disso, e como que em consonância com mais uma “lógica” inovação pedagógica estatal, RTP e TVI iniciaram a transmissão de “versões infantis” de dois dos seus programas, respectivamente Chef’s Academy - Kids e A Tua Cara não me é Estranha - Kids – porque, “evidentemente”, não ficaria bem colocar “crianças” ou “miúdos” no título. Porém, e quanto a “ironia ortográfica luso-britânica”, nada nem ninguém supera o governo regional dos Açores: o seu sítio na Internet, que, evidentemente, exibe um bem comportado, conformado, “acordismo”, tem como “e-ndereço”… azores.gov.pt!

Faço pois um apelo a todos os serviçais de Malaca Casteleiro: sejam também coerentes e proíbam o Inglês! Que há a aprender da “pérfida Albion” neste âmbito? “Apenas” isto: os britânicos sabem há séculos (tal como, aliás, os seus “vizinhos” do outro lado do canal da Mancha) que não é a “simplicidade” ortográfica – indutora de analfabetismo e de iliteracia – que deve ser estimulada mas sim a estabilidade ortográfica; esta, sim, é a que mais favorece a expansão de uma língua e de uma cultura… porque garante aos estrangeiros – indivíduos e/ou instituições – que querem, ou pensam, em aprendê-la, que os materiais, lições, livros, dicionários, que têm de ser adquiridos e utilizados não serão substituídos passados poucos anos (e outra vez, e outra, e outra…) e, desse modo, tornados obsoletos.

Eu pensava que George Byron havia insultado exagerada e injustamente os portugueses ao classificá-los de “escravos” e de “os mais baixos entre os baixos”. Agora já não tanto.

Jornalista e escritor