Opinião

O princípio do fim

Desde o princípio do século XIX, quando perdeu o Brasil, o país tem vivido do Estado e da terra. Para a classe média, a que a terra faltava ou não chegava, a perfeição estava mesmo em viver ao mesmo tempo de um emprego oficial em Lisboa ou numa cidade de província e de uma propriedade (geralmente modesta), herdada da família.

Os rendimentos combinados de uma parte e da outra permitiam pagar um estatuto “decente” e “respeitável” e até abriam a possibilidade de uma ligeira promoção social. Mas sem um lado deste arranjo, ninguém conseguia subir muito na política ou na administração. De qualquer maneira, a grande ambição da massa de bacharéis que anualmente Coimbra despejava sobre o Portugal urbano estava em arranjar um lugarzinho numa repartição, ser aceite pela máquina da “justiça” ou entrar no Exército.

À medida que os rendimentos da terra foram descendo, apesar da rede de transportes que a monarquia liberal construiu, o emprego no Estado acabou por se tornar a única saída para a classe média letrada ou, se quiserem, “educada”. A única solução era o emprego no Estado, conseguido a troco de influência ou de serviços políticos. E o Estado, como lhe competia, deu o número suficiente de empregos para garantir o sossego e a mansidão da gente que lhe vinha bater à porta. Claro que a dívida, sempre crescente, pagava esta prudência, e que pouco a pouco o mercado se recusou a emprestar dinheiro a Portugal, abrindo uma crise que durou quarenta anos e que só a ditadura conseguiu suprimir, com o Exército, a polícia secreta e a censura. Mas ficou a tradição.

Num país pobre, sem uma economia privada desenvolvida, o sentimento que prevalece na escolha de profissão é a necessidade de segurança. Ora o Estado, se não falir, coisa que nunca se imagina, oferece confiança aos seus funcionários. E como seria de esperar, depois do “25 de Abril” literalmente milhões de portugueses arranjaram o seu cantinho no Estado ou nas suas várias ramificações. A dívida e o défice obrigam agora a mudar este modo de vida. Mas não se pode contar que uma classe social – no caso, a nossa muito velha classe média de Estado – se deixe estrangular passivamente. Abandonará os partidos do regime, provocará uma instabilidade permanente (que mais tarde ou mais cedo se arrisca a degenerar numa forma de autoritarismo) e resistirá em cada trincheira. O Tribunal Constitucional é hoje a trincheira principal, que a esquerda – fatalmente estatista – aplaude e apoia. Não custa compreender isto. O pináculo do funcionalismo partilha e defende a cultura e o ethos dos funcionários. Para ele, o resto do mundo não existe.