Líderes distritais marcam reunião à revelia da direcção do PS

Dirigente nacional convocou lideres federativos para reunião na quinta-feira. Mas tudo indica que estes preferem reunir-se primeiro entre si, já quarta-feira.

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As federações vão reunir-se quinta-feira com a direcção do PS Miguel Manso

A direcção do PS queria ontem falar de outros temas. Quando Eurico Brilhante Dias chegou à sala da música na sede do PS, estava o secretariado nacional a terminar, a intenção era lembrar o “8º chumbo do TC” ao Governo, cuja “incompetência” este tentava “esconder atrás do Tribunal Constitucional”. Mas a conferência de imprensa foi antes dominada sobre as consequências da derrota de Seguro nas primárias que propusera no Vimeiro.

Sem querer dizer preto no branco, Eurico Dias lá afirmou que as primárias aconteceriam “o mais cedo possível” e que “todos deverão tirar as suas ilações, quem perder e quem ganhar”. Não se falou mais nos 135% do PIB da dívida pública ou da “incompetência” de Passos Coelho.

E da mesma forma que a conferência não correu como Dias pretendia, o dia também não correu exactamente como a direcção do PS esperava. Culpa dos dirigentes distritais.

“Carne para canhão”. Foi assim que alguns dos líderes distritais que têm apoiado Seguro nos últimos dias classificam a sua situação depois da carta jogada pelo secretário-geral no passado sábado, ao convocar eleições distritais no PS, ao mesmo tempo que propôs primárias para o candidato a primeiro-ministro.

Ao que o PÚBLICO apurou, um número significativo de presidentes das federações distritais socialistas ficou desagradado com o anúncio feito no Vimeiro por não terem sido avisados antes dessa mesma Comissão Nacional., no sábado. E o sentimento impera, sobretudo, entre dirigentes que apoiaram e assumiram na última semana a defesa do secretário-geral perante o desafio feito pelo presidente da câmara de Lisboa, António Costa. A leitura feita é a de que Seguro colocou sua sobrevivência política à frente das dos dirigentes distritais.

O resultado prático foi a proposta de uma reunião entre líderes distritais à revelia da direcção nacional. “A marcação de congressos federativos vem levantar uma nova realidade em cada distrito. Nesse sentido, parece-me conveniente reunirmos todos para conversarmos e trocarmos opiniões como acontecia com maior regularidade no passado”, escreveu o dirigente algarvio António Eusébio aos restantes presidentes das distritais. Avançou mesmo com um local – Leiria e com uma data – já amanhã.

Eusébio evitou alongar-se ao PÚBLICO. “Eu já estava preocupado com o que se passou na semana passada, No Vimeiro essa preocupação aumentou. Vou aguardar pela comissão política”, disse o líder da distrital de Faro.

Quase em simultâneo, após a proposta de Eusébio, chegava aos contactos daqueles dirigentes uma proposta da direcção do PS – através de secretário nacional Miguel Laranjeiro - para uma reunião na sede do partido para quinta-feira, dia 5 de Junho, às 18 horas.

A intenção dessa demárche ficou a perceber-se poucas horas depois. Rui Prudêncio, líder da distrital do Oeste, defendia perante os outros presidentes que a proposta do membro do secretariado nacional fazia cair por terra a oportunidade do encontro em Leiria.

O debate instalou-se entre estes socialistas. A dado momento, um número significativo – pelo menos oito dos 21 presidentes das federações – considerava pertinente fazer ambas as reuniões. Entre os mais acérrimos defensores do encontro de amanhã estavam dirigentes apoiantes de Seguro. A iniciativa levou ao empenho da direcção para tentar conter o foco de descontentamento. Miguel Laranjeiro contactou muitos dos dirigentes para que a única reunião a realizar-se fosse a que havia proposto para o Largo do Rato.

Durante a tarde, Eusébio propôs mesmo que ficasse sem efeito a sua proposta, uma vez que não tinha sido sua intenção gerar confusão.

Nenhum dos dirigentes socialistas em causa quis assumir em público o seu desagrado com a situação criada. “Não querem passar a imagem que estão com receio de perder as eleições”, explicou um socialista ao PÚBLICO. Além da questão de não terem sido informados de um assunto que lhes dizia directamente respeito, há ainda outro problema. É que alguns, com a antecipação das eleições, vêm encurtados os seus mandatos. Isto num momento em que existia a expectativa de que os seus mandatos chegassem até 2015, apesar de estatutariamente, o prazo destes estar prestes a esgotar-se este mês.

Essa expectativa resultava da última revisão dos estatutos do PS. As alterações aprovadas ligaram, não só mandato do secretário-geral, mas também os dos líderes distritais às legislativas. No entanto, o problema que se colocou foi o de que, à data da eleição dos actuais presidentes, os estatutos definiam mandatos de dois anos, terminando agora.