Reportagem

Não foi memorável? Foram os Rolling Stones!

A surpresa chegou à quarta canção, quando Bruce Springsteen subiu a palco para cantar Tumbling dice. Encontro de gigantes no Parque da Bela Vista, em Lisboa, no dia em que todos esperavam os Rolling Stones. Tudo o resto pareceu existir enquanto preparação para o grande momento – que chegou às 23h58. “Ladies and gentlemen... The Rolling Stones.”

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Miguel Manso
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Aquela linha de guitarra podia continuar para sempre, propagar-se até ao infinito. Nunca nos cansaríamos dela. A linha de guitarra, tão simples mas tão justa, a pandeireta a marcar o final do compasso (três vezes: “tcha-tcha-tcha”) e a voz que canta e que repete (“I can't get no”) antes de concluir (“satisfaction”). A canção prolonga-se, os Rolling Stones estão entusiasmados, o público igualmente. A canção que podia propagar-se no infinito chega mesmo ao fim. A banda agradece às dezenas de milhares perante si. É lançado o fogo-de-artifício.

No Parque da Bela Vista, no Rock in Rio Lisboa, chegava ao fim o sexto concerto em Portugal dos Rolling Stones. (I can't get no) satisfaction. Não escapamos à nossa natureza e os Stones sabem-no há muito. Representam-no, na verdade. Septuagenários (com excepção do novato Ron Wood, mero sexagenário), mostraram-no novamente – se a insatisfação é garantida, insistem, prosseguem, recusam-se a parar.

Uma hora e meia antes, Mick Jagger anunciava a presença de um convidado especial, um amigo de longa data. Dois anos depois, Bruce Springsteen regressava ao Rock in Rio Lisboa. De passagem pela cidade para visitar a filha, subiu ao palco com os Stones. Guitarra tocada, guitarra atirada para trás das costas. A sua voz grave a responder à liderança de Mick Jagger: Tumbling dice, desse maravilhoso álbum maldito chamado Exile On Main St., foi a canção protagonista da grande surpresa da noite. Aconteceu hora e meia antes do fim do concerto que se prolongou por duas. Era por aquele concerto, por aquelas 20 canções nele interpretadas, que 90 mil esgotaram a segunda data do Rock in Rio Lisboa. Melhor, estavam ali para ver o mito, para confirmar que sim, que eles ainda existem, que os Rolling Stones continuam os Rolling Stones e que, enquanto assim for, exageremos, o rock'n'roll estará salvo.

Milhares de línguas
Línguas, só línguas, milhares de línguas. Entrávamos no recinto a meio da tarde, quando a enchente ainda não era uma realidade, e víamo-las em vários tamanhos, estampadas nas t-shirts do público que passeava entre os palcos, os stands e as diversões com carimbos das marcas patrocinadoras do festival. T-shirts oficiais da digressão 14 on Fire, t-shirts de digressões anteriores, t-shirts com a língua pintada com as cores da bandeira britânica ou com o escudo português estampado. T-shirts com o Keith Richards rei do cool da década de 1970 e com o Mick Jagger ícone da revolução sexual dos anos 1960. O Rock in Rio Lisboa contaminado: em cada esquina um rockeiro (além dos predominantes Stones, o logótipo dos Led Zeppelin, dos The Who, dos Iron Maiden ou dos Xutos & Pontapés a decorar o torso) e, aqui e ali, coisa rara neste festival familiar, o odor a marijuana.

Pelas 17h30, enquanto as nuvens pairavam ameaçadoras no céu (felizmente, os pingos fugidios nunca se transformaram em dilúvio), uma das bandas residentes da Rock Street fazia o aquecimento do público com uma versão de Jumping Jack Flash. Meia hora depois, Frankie Chavez, que editou recentemente o seu novo álbum, Heart & Spine, subia ao palco Vodafone e, slide sobre as cordas da guitarra distorcida, entregou-se a um blues-rock tanto mais interessante quanto mais despido de subtilezas. Em modo power trio, com João Correia (Tape Junk, Julie & The Carjackers) como âncora, Chavez foi homem de duas faces: incendiário quando a sua música vivia na intersecção entre zumbido Jack White e blues de garagem Black Keys, inofensivo quando pegava na guitarra acústica para cantar baladas à volta de fogueira de Jack Johnson. Na memória, porém, gravou-se Fight, serpeante e prenhe de electricidade.

O blues regressaria a espaços, já no palco principal, no concerto partilhado entre Rui Veloso, Lenine e Angélique Kidjo (ouviu-se Chico Fininho ou Lado lunar, ouviram-se versões de Redemption song, de Bob Marley, uma Sodade partilhada por Veloso e Kidjo ou a Voodoo chile de Jimi Hendrix). O blues marcaria presença a tempo inteiro com Gary Clark Jr., isto após os Xutos & Pontapés fazerem o que fazem sempre bem (uma festa para gargantas que não se cansam de cantar os clássicos todos, como Contentores, Dia de São Receber, À minha maneira ou Maria) e já depois de os americanos Triptides, no palco Vodafone, se terem mostrado perante algumas dezenas de curiosos um nome interessante da nova vaga psicadélica, trazendo as lições aprendidas na fundadora Rain, dos Beatles, para um mundo que conheceu entretanto os outrora hiperactivos Brian Jonestown Massacre ou a luminosidade dos órgãos vintage dos Inspiral Carpets.

Clark Jr. é um texano de 30 anos, bluesman virtuoso. Ouvi-lo imediatamente antes dos Rolling Stones foi mergulhar nas raízes em que a veterana banda londrina se fundou. Sabe carregar no pedal de fuzz para que a electricidade respire livremente, mas é guitarrista modelado nos clássicos.

O blues eléctrico de Chicago e os mistérios do Mississípi, o rock'n'roll fundador de Chuck Berry, o Jimi Hendrix mais purista do que psicadélico. Tudo isso é vertido para o concerto de um músico indeciso entre a fidelidade às raízes e a subversão das lições aprendidas, forma de chegar a algo novo – se seguir o rumo de uns seus célebres admiradores, eles que o convidariam a juntar-se-lhes em palco pouco depois, saberá exactamente o que fazer.

Jagger dança palco fora
Quando o texano se despediu, já toda e qualquer zona com vista minimamente razoável para o palco estava ocupada. Um mar de gente aguardando. Às 23h58, uma curta apresentação vídeo anunciou a chegada. A voz que se seguiu confirmou-o: “Ladies and gentlemen, would you please welcome... THE ROLLING STONES.” O mar de gente é então um mar de luz branca, o dos telemóveis erguidos para registar o momento.

Keith Richards surge e toca tropegamente o riff de Jumpin' Jack Flash. Mick Jagger já dança palco fora, batendo palmas no tempo marcado pelo sempre elegante Charlie Watts. Ron Wood é Ron Wood, o irmão mais novo de Keith Richards (o pormenor de não partilharem pai ou mãe é insignificante para a filiação). O arranque estava dado. Os Rolling Stones, “a maior banda rock'n'roll do mundo”, estava perante nós. Parecem constantemente no fio da navalha. Parece que, a qualquer momento, tudo pode entrar em descalabro e o equilíbrio perder-se irremediavelmente. Tal, porém, nunca chega a acontecer. Há um qualquer equilíbrio, uma sabedoria do palco e uma naturalidade nos gestos de cada um deles que o impede.

It's only rock'n'roll (and I like it) cantam de seguida, enquanto os ecrãs mostram imagens de arquivo de público em histeria, de hippies dançando, das gerações que se foram sucedendo com os Stones como banda sonora – é só rock'n'roll e isso, neste caso, é muito e é tudo.

Mick Jagger, como habitualmente mestre-de-cerimónias exemplar, faz mais do que arranhar o português. “É bom estar de volta”, dirá da primeira vez que se dirige ao público – mais à frente, diplomata, agradecerá às outras bandas da noite (“Obrigado, Xutos & Pontapés e Gary Clark Jr.”). Bem- humorado, dispará para Ron Wood, aquando da apresentação da banda: “Onde compraste esses sapatos?”) Keith Richards, fita de colorido jamaicano na cabeça, sempre imprevisível, sempre desarmante, dirigir-se-á ao público de outra forma. Em bom inglês: “É bom estar aqui. (pausa) É bom estar em qualquer lado.” Keith não mente. Dêem-lhe um palco e ele estará bem.

Bill Clinton entre o público
Sem grande aparato e sem adereços cenográficos de relevo, além do corredor que se estendia da frente do palco (os ecrãs gigantes, por exemplo, limitaram-se a exibir alguns vídeos), ficou o essencial. Os Rolling Stones e as canções dos Rolling Stones. Num concerto prejudicado pelo vento intenso (muitas vezes o som parecia “fugir” dos espectadores), ouviu-se o rock'n'roll de Live with me e viveu-se o momento especial do encontro com Bruce Springsteen em Tumbling dice (Bill Clinton, em Portugal para uma conferência, terá estado entre o público, mas não tirou o saxofone da mala).

Serenou-se o ritmo para Wild horses e, nesse momento, o titubear inicial já dera lugar à segurança, ainda que a inspiração, aquela faúlha que transforma um bom concerto em algo mais do que isso, tenha estado ausente. Não foi de facto um concerto memorável – o público, de resto, esteve pouco efusivo a maior parte do tempo, excepção feita a canções como Start me up, hino dos Stones enquanto banda de estádio, Miss you, single de eleição da fase do flirt com o disco sound, ou às duas canções do encore, a folk celestial de You can't always get what you want (coro incluído), e a inevitável (I can't get no) satisfaction. Mas foi um concerto com momentos memoráveis, como esse do blues insaciável de Midnight rambler, todo ele pecado glorioso nas suas quebras de ritmo e aceleração final – magnífico ouvir a harmónica de Mick Jagger em diálogo com a guitarra de Mick Taylor, Rolling Stone entre 1969 e 1974. Momento memorável foi também Gimme shelter, com a voz de Lisa Fischer a soar imponente sobre todas as outras, ou essa dupla deliciosamente profana formada por Sympathy for the devil e pela Brown sugar em que brilhou o saxofone de Bobby Keys, Rolling Stone honorário, companheiro de décadas de música e de boémia.

Depois delas, a primeira despedida. Seguiu-se o encore. You can't always get what you want, primeiro. A obrigatória (I can't get no) satisfaction depois. Ouvimos aquela melodia que podia prolongar-se até ao infinito. Ouvimos e ouvimos sem nos cansarmos. Não foi memorável? Quem disse que não foi memorável?

O Rock in Rio Lisboa prossegue esta sexta-feira. Os Linkin Park e os Queens of the Stone Age são os cabeças de cartaz. Sábado esse estatuto pertence aos Arcade Fire. Domingo, a Justin Timberlake.