Opinião

Um elefante na cama de José Eduardo dos Santos: os crimes da ditadura de Agostinho Neto

A herança despótica de Agostinho Neto é uma realidade asfixiante que perdura até aos nossos dias.

De modo nenhum me agrada ser antipático. Mas o que tenho para dizer e sempre o disse em todos estes anos obriga-me agora a repetir o gesto: o da necessidade de soltar um grito enérgico de protesto contra a classe política do partido-Estado em Angola que, em mais de três décadas, se tem recusado a enfrentar a verdade sobre os fatídicos acontecimentos do 27 de Maio de 1977.

Essa classe continua a socorrer-se de artifícios astuciosos para obscurecer os grandes crimes cometidos por Agostinho Neto. Pois, ao ver o país levantado sobre uma montanha de cadáveres; ao ver os seus altos responsáveis refugiados no silêncio e o bureau político apenas preocupado em emitir comunicados ameaçadores através dos quais se amordaça qualquer intento de debate ou esclarecimento, é caso para dizer que a insistência no protesto por parte de toda a sociedade está plenamente justificada.

No fundo, reconheço estar a fazer o papel de mensageiro. Dou voz a milhares de cidadãos sem voz, os chamados sobreviventes do 27 de Maio; mas, acima de tudo, dou voz a dezenas de milhares de desaparecidos forçados, cujas sombras continuam soterradas nos alçapões do esquecimento. Como fazia notar alguém que se salvou dos horrores do campo de concentração de Mauthausen: "Ninguém diz nada. Ninguém se recorda de nada. Mas eu estive lá e sei o que foi aquilo".

Também eu vivi sepultado e espezinhado nas piores grutas do despotismo netista; sei o que foram as prisões e as chacinas orquestradas pelo MPLA e por Agostinho Neto; vi desfilar diante dos meus olhos os demónios mais brutais que nenhuma imaginação é capaz de recriar; vi o tamanho da desumanidade dos então pseudo-socialistas e democratas que haviam acabado de emancipar Angola do colonialismo. Vi o diabo na pele de carrascos que se conduziam como celerados e que eram tão ou mais perversos que os agentes da Gestapo nos campos de morte da Alemanha nazi. Vi, em resumo, aplicarem-se as piores torturas e vi crianças flageladas pela humilhação e as suas vidas exterminadas à bala.

Como mensageiro não estou aqui para prevenir os dirigentes da eventualidade de qualquer perigo que os cerca. O meu dever é outro. É um dever de cidadania, de indignação social. Não me interessa discutir a figura de Nito Alves e muito menos seu hipotético golpe de Estado; tal como não me interessa analisar se ele se perdeu na revolução por orgulho ou falta de juízo. O que me interessa desde a primeira hora é a dimensão da repressão desencadeada pelo regime de Neto, do mesmo modo que os abusos cometidos pelo Estado contra cidadãos indefesos. Foi algo de disparatado, de uma sanguinolência infernal, própria de mentes cruéis. Isto, sim, é que precisa de ser discutido, o papel das Forças Armadas e dos Serviços de Inteligência, porém os corifeus do partido, como se sabe, com as suas vozes vociferantes, opõem-se a qualquer agenda de abertura.

Com esta política de amnésia os donos do poder político em Angola talvez não saibam quanto sofrimento estão a causar a inúmeras famílias e aos descendentes dos desaparecidos; talvez não se dêem conta de como estão a condenar Angola a um futuro de vileza. Seja como for, há uma coisa de que podem ter a certeza: "Não há na cabeça dos [descendentes] um só cabelo – parafraseando uma personagem de Shakespeare na peça Coriolano – que não se torne um látego para [eles]". Assim, por mais que insistam em quebrar os espelhos da memória e em infundir medo aos cidadãos, isso não impedirá que um dia aconteça o que vem acontecendo em todas as épocas da história e em todas as geografias nacionais: outros espelhos perdidos acabarão por ressuscitar das sombras do passado. Como diz um autor cujo nome não me lembro, "a cada novo dia [esses novos espelhos] trarão mais recordações e gritarão o nome dos desaparecidos".

O mandarinato em Angola é terrivelmente obstinado, não quer ouvir a sociedade e nega-se a debater questões-chave desse trágico passado. Prefere o território do vazio e do segredo. Contudo, para lá desta suprema fatuidade, essa mesma classe privilegiada adopta gestos de autocontemplação e adorna-se com o capricho autoritário de querer ser maior do que o corpo social que governa. Um erro crasso que fere de morte, ano após ano, a possibilidade de um verdadeiro processo de democratização nacional.

A herança despótica de Agostinho Neto com as suas perseguições e crimes de lesa-humanidade é uma realidade asfixiante que perdura até aos nossos dias. Prolonga o conflito entre duas concepções de justiça. Uma dogmática, a do poder, e outra de conciliação. O Presidente José Eduardo dos Santos, pelos vistos, também permanece dividido entre estes dois campos opostos, embora sem dúvida mais refém da herança ditatorial e sem capacidade para remover os seus sulcos e promover a redenção de Angola pela via do diálogo e da concórdia nacional. Esta situação de rigidez causa-me calafrios, por ser incompatível com o bem comum. É uma espécie de elefante com o qual o Presidente se deita e se levanta todos os dias. Será ele um dia capaz de superar este ambiente de polaridade e impor a necessária vontade política para se esclarecer o porquê de tanta repressão e tantos massacres?

Historiador angolano

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