Opinião

Na Itália foi simples: a esquerda reaprendeu a vencer

1. As eleições europeias na Itália começaram por ser as eleições de Beppe Grillo e acabaram a ser as de Matteo Renzi. O Partido Democrático (PD), do primeiro-ministro Renzi, obteve um “triunfo histórico” com 40,8% dos votos

O Movimento 5 Estrelas (M5S), de Grillo, recuou para 21 e a Força Itália, de Silvio Berlusconi, caiu para 16,8. Para encontrar uma vitória desta dimensão é preciso recuar a 1958, em que a Democracia Cristã obteve o mesmo score. Na Europa, foi a única grande vitória do centro-esquerda numas eleições marcadas pelo populismo. Houve também eleições regionais: o PD ficou à frente em 107 das 110 províncias.

O grande derrotado foi Grillo que via nas europeias o seu terreno ideal. “Renzi ganhou e ganhou em grande, demolindo a noção de que a vaga anti-sistema de Bepe Grillo era imparável”, resumiu o Financial Times. Disse alguém que “para curar o populismo é preciso curar a nossa democracia”. É o que Renzi se propôs fazer: “reformar a política”. A Itália volta a ser olhada como um laboratório.

2. Há um ano, o PD, então dirigido por Pierluigi Bersani, estava destroçado. Nas legislativas de 2013 cometeu a proeza de “não ganhar” apesar de Berlusconi ter perdido. Fugiram-lhe votos para a abstenção e para os populistas de Grillo. A politóloga Elisabetta Gualmini fez o diagnóstico: “É um partido que renunciou a elaborar um programa e uma estratégia para vencer eleições, preferindo defender a identidade interna e os grupos dirigentes, velhos e novos, que lhe são fiéis.”

Nas eleições primárias do PD em Novembro de 2012, Bersani fora desafiado por um outsider, Matteo Renzi, jovem presidente de Florença que o forçou a uma segunda volta. Renzi era considerado um “alien” dentro do partido, dominado pela cultura da esquerda do século XX. Era um dos raros político populares na Itália da “antipolítica”. Em Dezembro de 2013, foi eleito secretário nacional pela maioria absoluta dos militantes e dos eleitores do PD. Em Fevereiro passado, afastou o primeiro-ministro Enrico Letta e assumiu a chefia do governo. Anunciou uma lista impressionante de reformas políticas e económicas para reabilitar as instituições, criar empregos e recuperar a competitividade italiana.

Defendeu o euro e a UE contra os eurocépticos, não fez demagogia anti-Merkel mas exigiu que Bruxelas altere as políticas que bloqueiam o crescimento e adopte uma política comum de imigração. Declarou em Maio após mais um naufrágio no Mediterrâneo: “A UE salva os bancos mas deixa morrer as crianças.” Soou bem.

3. A primeira ruptura de Renzi foi a do estilo de fazer política. “Renzi é o homem dos tempos velozes. Dos factos velozes. Aos italianos agrada esta atitude. Não é por acaso que Renzi é, de longe, o mais apreciado entre os líderes”, escreveu o politólogo Ilvo Diamanti. É aquele que decide, contra a cultura política dos “consensos”. É um homem dos tempos da política mediatizada e personalizada.

A segunda ruptura foi a linguagem. “Com Renzi — anotou o politólogo Luca Ricolfi — a esquerda reapropriou-se da linguagem natural e com esta simples mudança eliminou um formidável handicap que sempre a condicionou no confronto com a direita. Todo o establishment de esquerda sempre falou em código, usando conceitos abstractos, fórmulas vazias, alusões perfeitamente compreensíveis para os iniciados mas dramaticamente longe da vida e da sensibilidade das pessoas comuns. Para os perceber era preciso um intérprete.”

Por fim, Renzi começou a demolir os fetiches ideológicos que dominam a esquerda italiana e a levam a negar a realidade quando esta não coincide com a ideologia. Não tinha experiência de governo mas tinha uma aguda consciência da natureza da crise económica. Avisou: “Perante as mutações da sociedade, a esquerda tem medo. (...) Parece que não se dá conta de que o novo mundo em que vivemos é também fruto do sucesso das suas próprias políticas, das mudanças ocorridas no século XX graças à sua iniciativa. (...) Mudarmos nós mesmos é a mais grave responsabilidade de todas.”

A esquerda tem o dever de salvar o welfare state mas para isso tem de o racionalizar. A prioridade é o emprego: mas criar empregos para os jovens significa destruir o apartheid entre os que estão dentro e são protegidos e os que estão de fora e não têm direitos. Quer um modelo de flexi-segurança por muito que alguns sindicatos se oponham.

4. Como ganhou as eleições? Responde o jornalista Massimo Gramellini: “O teorema de Renzi, que subverteu as leis da física política italiana, reza o seguinte: para transformar uma minoria em maioria é preciso ir buscar votos aos adversários.” Dirigiu-se tanto à esquerda como aos eleitores do M5S e da Força Itália.

A ortodoxia da esquerda italiana mandava assegurar os votos dos militantes fiéis, com um discurso de defesa da sua identidade e, depois, fazer as alianças inevitáveis. Renzi adoptou a máxima de Walter Veltroni, fundador do PD: “Não devemos aliar-nos com o centro-direita mas com os seus eleitores.”

É fácil resumir os resultados de domingo. Votaram 59% dos recenseados contra 75% nas legislativas de 2013. O PD de Renzi conquistou 11 milhões de votos contra os 8,5 de Bersani no ano passado. Ou seja, com uma maior abstenção ganhou 2,5 milhões de votos. Grillo desceu de 8,7 para 5,8 milhões. Renzi recuperou abstencionistas de esquerda, atraiu os eleitores centristas e reconquistou votos a Grillo.

Efeitos? Mudou o quadro político. A direita terá de se reorganizar rapidamente sob pena de bancarrota em eleições legislativas. Renzi consolidou o governo. Aguarda-se a nova táctica de Grillo que, com 21% dos votos, é de facto o “chefe da oposição”. O politólogo Roberto D’Alimonte acredita que o PD e Renzi estão a criar um bloco social estável, mas previne: “Os votos vão e vêm. A incerteza, a volubilidade das opiniões e comportamentos são o traço marcante da política italiana.”

Finalmente legitimado nas urnas, Renzi emerge como o mais forte dirigente do centro-esquerda na Europa. O novo teste vem agora: a presidência italiana da UE, no dia 1 de Julho. Com Hollande fora de jogo, Renzi ganha protagonismo. Diz: “A Itália não se demite e está à altura de pesar nas opções europeias.”