Nova vacina para o vírus de Ébola funciona em chimpanzés

Concebida para humanos, vacina revelou-se eficaz em chimpanzés. Cientistas receiam que fim de centros nos EUA onde se fazem testes biomédicos em chimpanzés impossibilite vacinas para estes animais.

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Muitas doenças humanas infectam e matam os grandes símios Museu de Ciência de Minnesota

Um artigo científico de 2006 na revista da Science mostra a dimensão de um problema pouco conhecido na conservação dos grandes símios: “Surto de Ébola matou 5000 gorilas.” Há muitas doenças que saltam entre espécies. As novas doenças que aparecem nos humanos podem provir das aves, dos porcos ou dos morcegos. Mas o inverso também acontece. Os humanos são um reservatório de doenças que podem saltar para outros animais e contribuir para a extinção dos chimpanzés ou gorilas, como é o caso do vírus do Ébola. Agora, uma equipa de cientistas demonstrou a eficácia de uma vacina contra este vírus nos chimpanzés.

A vacina foi desenvolvida primeiro para humanos, mas não obteve autorização para ser testada em pessoas. E foi aproveitada por uma equipa de cientistas liderados por Peter Walsh, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, que a testou com sucesso em seis chimpanzés. Os resultados foram publicados nesta segunda-feira na revista Proceedings of the National Academy of Sciences dos Estados Unidos (PNAS). A equipa defende ainda a necessidade de manter centros de investigação com chimpanzés para se desenvolverem vacinas que protejam os animais de outras doenças.

“Metade das mortes dos chimpanzés e dos gorilas que vivem em proximidade com os humanos é causada pelos nossos vírus respiratórios”, explica Peter Walsh, num comunicado da Universidade de Cambridge. “Para nós, estes vírus traduzem-se apenas numa garganta dorida — para os chimpanzés e os gorilas significam a morte.”

Tanto o vírus que causa o sarampo, o metapneumovírus humano ou as bactérias fecais como a Escherichia coli causam doenças nos símios, mas há outras infecções. “O vírus sincicial respiratório não é muito conhecido mas é a mais comum fonte de infecções respiratórias sérias pelo mundo fora. Muitas vezes parece ser uma ‘constipação’ que ataca as crianças. É um grande assassino de chimpanzés”, explicou o investigador ao PÚBLICO.

No caso dos humanos, ainda não há uma vacina preventiva nem um tratamento eficaz para o vírus do Ébola. A doença começa por se parecer com uma gripe. De seguida, surgem sintomas mais graves, como vómitos, erupções cutâneas, diarreia hemorrágica. Estas hemorragias internas tornam-se incontroláveis e os doentes perdem sangue pelos ouvidos e olhos. O vírus vai dissolvendo os órgãos internos dos doentes, até os levar à morte.

Desde Fevereiro deste ano que a Guiné-Conacri vive um surto desta doença, que já afectou 258 pessoas, matando 174, e que se espalhou depois para a Libéria e a Serra Leoa.     

O Ébola e outras doenças podem pôr em risco os grandes símios, juntando-se aos grandes problemas da conservação como a perda do habitat natural e a caça. Em 2007, a mortandade de gorilas devido ao vírus do Ébola, pôs o gorila-ocidental em perigo crítico, a categoria mais próxima da extinção segundo o Livro Vermelho das Espécies Ameaçadas. Além das comunidades africanas, que estão próximas das populações de grandes símios, os turistas e os investigadores que vão para o campo são outras fontes potenciais de doenças.

Até 60% de eficácia
A equipa de Peter Walsh escolheu uma abordagem diferente para tentar resolver o problema. Os investigadores deram uma nova utilidade a uma vacina contra o Ébola concebida para os humanos mas que ainda não recebeu financiamento para poder ter autorização para testes em pessoas. “É um processo extremamente caro”, explica Peter Walsh.

“Decidimos testar uma vacina experimental contra o Ébola, tanto para enfrentar a ameaça desta importante doença como para avaliar a possibilidade de se fazer testes de vacinas em animais em cativeiro, usando os orçamentos magros que normalmente estão disponíveis para os conservacionistas”, escreveram os autores no artigo da PNAS.

A equipa diz que não tem conhecimento de outra experiência igual: em que se tenha testado em chimpanzés em cativeiro vacinas originalmente destinadas a humanos.

Os cientistas usaram na vacina apenas proteínas do invólucro do vírus do Ébola, sem o material genético que o torna capaz de provocar a doença. A vacina já tinha sido testada em 80 macacos, agora a equipa testou-a em seis chimpanzés no Centro de Investigação New Iberia da Universidade do Luisiana, nos Estados Unidos. Este trabalho de investigação foi barato, dizem os autores.

A vacinação levou os chimpanzés a produzir anticorpos contra o vírus do Ébola. Esses anticorpos foram testados em ratinhos, depois de terem sido infectados com o vírus do Ébola. Os cientistas verificaram que os anticorpos conseguiram evitar a morte de 30 a 60% dos ratinhos.

Este tipo de vacinas, que só usa partes proteicas dos invólucros do vírus e não causa a doença — o que poderia ser fatal para os animais selvagens que muitas vezes estão debilitados —, “são muito valiosas para as espécies que estão em perigo crítico ou frágeis do ponto de vista imunitário e que são fáceis de vacinar”, concluem os investigadores.

“Há uma vacina contra o vírus da imunodeficiência símia [o equivalente ao vírus da sida nos primatas] que já foi testada noutros macacos. Pode vir a ser usada em chimpanzés selvagens, mas para isso terá de ser testada em chimpanzés em cativeiro para termos a certeza de que é segura”, diz-nos Peter Walsh. Segundo o cientista, houve outras vacinas concebidas para humanos, mas que só foram testadas em macacos. Não continuaram os passos normais para serem usadas em pessoas. 

Neste momento, é proibido testar vacinas directamente em chimpanzés selvagens. O problema, segundo o cientista, é que os Estados Unidos estão a considerar fechar todos os centros com chimpanzés onde se fazem experiências biomédicas, seguindo a mesma linha do resto dos países que baniram o uso de chimpanzés para a investigação biomédica. Além dos Estados Unidos, só o Gabão tem actualmente um centro destes.

“Precisamos de algum tipo de instalações para fazer ensaios de vacinas e medicamentos com objectivo de conservação [da natureza]”, defende o investigador, que considera ser necessário uma mudança de paradigma na política de conservação dos grandes símios que estão no limiar do desaparecimento. Para Peter Walsh, as vacinas podem salvar “centenas de chimpanzés a curto prazo e milhares a longo prazo”.

No artigo, os autores argumentam que é um dever moral dos Estados Unidos estabelecerem um centro deste género para a conservação: “O Governo dos Estados Unidos está a preparar-se para renegar a uma dívida que tem para com os chimpanzés selvagens: devido aos incontáveis chimpanzés que originalmente foram para os laboratórios norte-americanos e morreram lá, e devido aos chimpanzés selvagens que vão morrer pelos vírus transmitidos pelos turistas norte-americanos e pelos investigadores, muitos com bolsas do Governo americano.”