Frente Nacional conquista França com sentimento eurocéptico

O partido de Marine Le Pen teve 26%, e esmagou PS de François Hollande, que teve apenas 14%.

A Frente Nacional está em primeiro com quase um quarto dos votos segundo as sondagens à boca das urnas
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A Frente Nacional está em primeiro com quase um quarto dos votos segundo as sondagens à boca das urnas Jean-Paul Pelissier/Reuters
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A Frente Nacional está em primeiro PIERRE ANDRIEU/AFP

O Partido Socialista francês recebeu a segunda bofetada dos eleitores em dois meses, e desta vez a UMP, o partido que agrupa a sensibilidade de centro-direita, não foi poupada na punição colectiva feita com a vitória dada pelos eleitores à Frente Nacional de Marine Le Pen, que obteve 26% e deixou o PS com uns meros 14%, um resultado tão baixo que faz história.

Quem deu este resultado ao partido eurocéptico de Le Pen, que defende a saída de França da moeda única e da União Europeia, foram os franceses fartos das exigências de cortes e austeridade para cumprir o défice e dos sucessivos anúncios falhados do Presidente François Hollande de que a taxa de desemprego, que ronda os 10%, iria começar a descer. São eleitores que se deixam tentar por palavras de ordem como “sim à França, não a Bruxelas”.

Como de costume, foi entre os jovens e os mais carenciados que a Frente Nacional (FN) teve melhores resultados: 30% dos votos de Marine Le Pen foram obtidos entre eleitores com menos de 35 anos. Pelo contrário, é a UMP, o partido de Nicolas Sarkozy, que teve 20,6%, que atrai mais os eleitores com mais de 60 anos. Estes, aliás, fugiram de votar no PS. Só 15% lhe deram o seu voto, diz o Le Monde.

A vitória de Marine Le Pen – que lhe deve permitir ter entre 23 e 25 eurodeputados – não se deve a um fenómeno localizado, mas a um crescimento eleitoral a nível nacional. Na região Noroeste, no entanto, o crescimento foi mais espectacular.

O primeiro-ministro socialista, Manuel Valls, usou as palavras “sismo” e “choque” para descrever para falar sobre a vitória da FN – expressões que remetem para a noite eleitoral de 21 de Abril de 2002, que atormenta os socialistas como um pesadelo: aquela que o ex-primeiro-ministro Lionel Jospin não conseguiu passar à segunda volta com Jacques Chirac, ultrapassado pela votação em Jean-Marie Le Pen, pai de Marine Le Pen.

Jean-Marie Le Pen, fundador da FN, não perdeu tempo em fazer uma exigência que o partido anti-imigração faz sempre que tem uma vitória eleitoral: "A Assembleia Nacional deve ser dissolvida", afirmou, e o primeiro-ministro "deve demitir-se".

A sua filha, que hoje lidera o partido, ecoou-o. “Não se pode trair o povo impunemente, se não o nosso sistema não tem nada de democrático.”

Além disso, Marine Le Pen sublinhou o quanto os franceses estão fartos da Europa: “Senti o imenso desejo de liberdade do povo francês", declarou na televisão, recordando o “não” francês no referendo de 2005 sobre a Constituição europeia.

Os jornais usam palavras como “tsunami”, “big bang”, ou “sismo” para falarem da vitória de Marine le Pen. No entanto, ela adivinhava-se, pelas sondagens, pela insatisfação dos franceses, e pela fraqueza não só dos socialistas do Governo como da UMP na oposição.

Aliás, a fraqueza da UMP foi agravada pelo caso Bygmalion, em que o líder do partido, Jean-François Copé, é suspeito de ter favorecido a empresa de um amigo na atribuição de contratos pela UMP. Vários barões partido de centro-direita, que disputam a liderança, numa paz pobre, enviaram mensagens de aviso claro a Copé

Quanto ao Presidente Hollande, reconheceu que estes resultados "são um aviso importante, que não deve ser ignorado". Mas o que fazer, não disse.