Soares recusa convite de Seguro para descer o Chiado

Fundador do PS não gostou de receber convite já perto do final da campanha.

Soiares com Seguro na sede do rato no ano passado
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Soiares com Seguro na sede do rato no ano passado Adriano Miranda

Mário Soares foi convidado por António José Seguro na terça-feira para participar numa das últimas iniciativas de campanha para as Europeias do PS, a tradicional descida do Chiado, na baixa lisboeta, marcada para a tarde de sexta-feira, mas recusou o convite do secretário-geral do PS.

Segundo fontes próximas do fundador do PS, Soares não gostou de receber o convite num momento em que a campanha já está próxima do fim e em que a polémica sobre a sua eventual ausência já está instalada. Um socialista do sector soarista e muito próximo do antigo Presidente da República confirmou ao PÚBLICO as razões porque o ex-Presidente recusou o convite: foi feito em cima da hora e “sem o respeito que é devido a um fundador do PS”.

Ainda que Soares tenha já afirmado que tenciona votar no PS, a verdade é que o histórico socialista não ficou satisfeito com recentes sinais que registou nas últimas semanas. Dois momentos foram particularmente relevantes para o fundador do partido. No discurso do 25 de Abril, feito pelo actual secretário-geral, não houve uma palavra sobre ele. E no jantar dos 40 anos do PS, “se não fossem as palavras simpáticas do presidente do SPD, Sigmar Gabriel, também não se teria falado de Mário Soares”, acrescenta a mesma fonte.

Na terça-feira, o cabeça de lista do PS, Francisco Assis, questionado sobre a eventual ausência de Soares desta campanha para as eleições europeias, afirmou não saber se o histórico socialista teria uma presença física, mas realçou que é uma personalidade que “está sempre” com o PS nas campanhas. Assis afirmou também que quem estava a tratar do assunto era a direcção do partido.

Confrontada pelo PÚBLICO com as informações recolhidas, a direcção de António José Seguro optou por não fazer comentários. O caso incomodou os socialistas, tanto mais porque surgiu num dia em que o líder do PS tinha trazido para a campanha a ideia de “censura” ao Governo (ver texto ao lado).

A ausência do fundador do PS tem sido aproveitada pela coligação PSD-CDS como arma política. Nesta quarta-feira, Paulo Rangel e Nuno Melo, questionados sobre o facto de Marcelo Rebelo de Sousa ter participado na campanha da Aliança Portugal com elogios a Jean-Claude Juncker e de ter tido poucas palavras para os candidatos, desvalorizaram o assunto, preferindo acentuar a ausência de Soares entre os socialistas. “Marcelo Rebelo de Sousa está connosco, Mário Soares parece que não está com o PS”, afirmou Paulo Rangel.

Quem vai estar com a caravana da Aliança Portugal hoje na sua própria descida do Chiado é o ex-líder do CDS Ribeiro e Castro, depois de um almoço com mulheres na cervejaria Trindade. Uma acção muito semelhante àquela com que os socialistas encerram todas as suas campanhas eleitorais. Mas que o PSD diz que também “é tradicional” no partido e que “já estava marcada há algum tempo”.     

Passos critica mutualização
Num jantar com apoiantes em Ourém, Passos Coelho fez um discurso de cerca de meia hora em que não referiu o PS ou António José Seguro uma só vez. Mas criticou a proposta da mutualização da dívida e considerou que as promessas apresentadas (pelo PS) acabam por ser um “elogio ao Governo” por se sustentarem no crescimento económico.

Sem nunca se referir ao programa de 80 medidas apresentado na passada sexta-feira pelo PS, Passos Coelho disse rejeitar vender “promessas a pataco” e considerou que elas representam um aplauso ao Governo. “Fazem-nos hoje o maior elogio, quando nos dizem que podem concretizar variadíssimas medidas, que custam dinheiro, que não têm impacto no défice, porque a economia vai crescer. É verdade. A economia está a crescer e vai continuar a crescer, mas não é graças às medidas deles, que o Governo tomou sem as medidas deles”, afirmou. Na mesma linha de raciocínio, o líder do PSD avisou a Europa: “Continuaremos cá a lutar sem pressão eleitoral”.

A chuva intensa que caiu na manhã desta quarta-feira em Peniche trocou as voltas à campanha da Aliança Portugal, que foi obrigada a substituir uma acção na rua, de “contacto com a população”, por uma visita a uma fábrica, marcada à última hora.

Um dia depois de visitarem uma fábrica de transformação de bacalhau, os candidatos voltaram a vestir batas e toucas de plástico para percorrer as instalações de uma empresa de transformação de peixe. Rangel e Melo foram ouvindo as explicações dos responsáveis da companhia familiar, que exporta mais de metade do seu produto. E até gracejaram. “Vamos dar uma voltinha de empilhadora?” desafiou o candidato centrista. O parceiro social-democrata depois de uma pequena hesitação respondeu: “Corremos o risco de ser embalados”. E exportados? perguntou uma jornalista. “Queremos que sim para Bruxelas”, responderam.

Vai uma ginginha?
Já na paragem seguinte, em Óbidos, a caravana conseguiu percorrer algumas ruas do centro histórico, como estava previsto, mas cruzaram-se com muito poucas pessoas e atraíram mais o olhar curioso de alguns turistas. “Vamos à ginginha?” perguntava alguém da comitiva. E guiou Paulo Rangel para um dos bares onde é servida num copo de chocolate. O número um da lista confessava-se momentos depois “mais revigorado” na batalha contra o frio.

Um tónico que disse também ter sentido quando foi questionado se o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa da noite anterior foi um balde de água fria. “Não, foi uma sauna altamente retemperadora”, respondeu o número um da lista, recusando qualquer incómodo pelo discurso em que o ex-líder do PSD foi parco em elogios aos candidatos e apelou ao voto na coligação só para eleger Jean-Claude Juncker.

Questionado sobre se as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa foram inesperadas, Rangel não escondeu que o comentador “é sempre surpreendente”. Apesar de os candidatos terem tentado minimizar o impacto da intervenção do ex-líder do PSD, o incómodo na campanha era indisfarçável entre sociais-democratas e centristas.

Sempre que possível o discurso derrapa para o PS. Ou para a mensagem da agenda do crescimento e do emprego. Foi o que aconteceu à tarde, no final de uma visita a uma fábrica de equipamento industrial. Rodeados de frigoríficos e arcas embalados, Paulo Rangel e Nuno Melo falaram da importância da reindustrialização e da agricultura (respectivamente) no quadro europeu. Foi um dos raros momentos da campanha em que a visita a uma empresa deu o mote para sublinhar as propostas europeias dos candidatos. Mas também aqui para vincar a ausência destas questões na campanha socialista.