Rebeldes pró-russos invadem quartel de Odessa e libertam activistas detidos

Numa passagem pela cidade, o primeiro-ministro ucraniano censurou a actuação da polícia e voltou a acusar a Rússia de estar a fomentar a instabilidade no país.

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Confrontos entre a polícia ucraniana e activistas pró-russos repetiram-se na cidade de Odessa Gleb Garanich/Reuters

Cerca de 30 militantes separatistas que estavam detidos no quartel-general da polícia de Odessa, sob suspeita de envolvimento nos violentos confrontos de sexta-feira que fizeram mais de 40 mortos, foram libertados na sequência de um ataque surpresa de activistas pró-russos, que tomou de assalto o edifício perante a passividade – e até cooperação – das forças de segurança ucranianas.

Os prisioneiros, que abandonaram a esquadra em pequenos grupos, foram recebidos na rua por uma multidão efusiva, que gritava “Odessa é uma cidade russa, Odessa é uma cidade russa”, num claro desafio às autoridades. Os militantes pró-russos concentraram-se durante a manhã para marchar pela cidade, a terceira maior do país, localizada na ponta Sul da Ucrânia, junto ao mar Negro. O seu protesto rapidamente se tornou violento: de cara tapada e agitando barras de ferro, bastões e outras armas improvisadas, os manifestantes partiram vidros e danificaram mobiliário urbano, antes de investir contra o quartel da polícia – com o apoio de um veículo pesado, usado para forçar a entrada no complexo.

Horas antes, numa passagem por Odessa para cumprir o primeiro de dois dias de luto nacional pelas vítimas dos confrontos, o primeiro-ministro, Arseni Iatseniuk, prometeu uma investigação apurada dos factos e das responsabilidades pelo massacre de sexta-feira. O chefe do governo interino voltou a censurar a actuação das autoridades, que segundo frisou foram “ineficientes” e “violaram a lei”. Numa demonstração do pulso de Kiev, Iatseniuk fez saber que o chefe da polícia de Odessa fora demitido e toda a estrutura dirigente seria substituída.

“O que aconteceu aqui foi uma tragédia não só para Odessa mas para toda a Ucrânia”, disse Iatseniuk. “Mas a justiça não deixará de encontrar todos os instigadores, todos os organizadores e todos os executantes, que debaixo da liderança da Rússia conduziram este ataque mortal”, prometeu. Em comunicado, a alta representante da União Europeia para a política externa, Catherine Ashton, apoiou a abertura de um inquérito aos acontecimentos em Odessa e apelou à calma. “Peço a todos para usar o bom senso e não explorar esta tragédia para fomentar o ódio, a divisão e a violência gratuita”, escreveu.

Referindo-se às informações transmitidas na véspera pelos serviços de segurança do país, que garantiram ter provas irrefutáveis do envolvimento de altas figuras do executivo deposto em Janeiro na contratação de mercenários da região vizinha da Transnístria, na Moldávia, o primeiro-ministro detectou novamente a mão da Rússia por detrás da confusão em Odessa. “Isto faz tudo parte do plano da Rússia. O objectivo era replicar em Odessa o cenário da região Leste do país”, com a ocupação de edifícios governamentais e a construção de barricadas.

A imprensa norte-americana notava este domingo que os serviços secretos dos Estados Unidos já tinham advertido há um mês para a “possibilidade” de manobras pró-russas em Odessa, tendo em conta a sua localização geográfica estratégica: além de ser um importante centro económico, em temros militares, o controlo da cidade portuária permitiria traçar uma linha desde a fronteira Oeste com a Moldávia, passando pela Crimeia e seguindo pela região de Donetsk até à Rússia.

A Rússia reagiu à tragédia de Odessa dizendo que a expansão do movimento de revolta das populações que falam russo contra o Governo de Kiev era uma prova da incapacidade do executivo em controlar a insurreição, garantir a segurança e governar o país. Na região Leste, que faz fronteira com a Rússia, prossegue a operação militar contra as forças separatistas acantonadas nas cidades de Slaviansk e Karamatorsk. Vários analistas dizem que o calendário eleitoral torna essa ofensiva uma verdadeira corrida de contra-relógio: sem garantir o controlo do território e a normalidade da votação, será difícil para Kiev defender a legitimidade dos resultados.

Em declarações à estação de televisão Rússia-24, o vice ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Grigori Karasin, confirmou a disponibilidade de Moscovo para “estabelecer um diálogo com os activistas pró-russos” na Ucrânia, numa tentativa de acalmar a tensão em que vive o país. “Parece que sem a ajuda externa, as autoridades de Kiev não são capazes de estabelecer diálogo nenhum”, criticou Karasin, que informou que “nos próximos dias” o Kremlin faria “um novo esforço para sentar à mesa das negociações as autoridades de Kiev e os representantes do [movimento separatista] do Sul e do Leste do país”.