Vasco Lourenço: “Presidente da República continua a ser conivente”

Militar recordou as presidências "de boa memória" de Eanes, Soares e Sampaio.

“O Presidente da República continua a ser conivente, tardando em fazer uma leitura consequente da situação que se vive em Portugal”, disse na manhã desta sexta-feira o coronel Vasco Lourenço na homenagem ao capitão Salgueiro Maia, no Largo do Carmo.

 A referência a Cavaco Silva do presidente da Associação 25 de Abril suscitou um enorme apupo dos milhares que enchiam o recinto e as ruas adjacentes, numa cerimónia que foi marcada por aplausos e cânticos ao 25 de Abril.

“Chegou o momento de, com toda a força, a população dizer basta e, em nome da Pátria, apontar a solução, ou se muda urgentemente de política e inverte o caminho de submissão, austeridade e empobrecimento do país, ou este governo tem de ser apeado sem hesitação”, disse entre aplausos da assistência. “De preferência por iniciativa do Presidente da República que continua a ser um mero assistente passivo ou mesmo conivente, tardando em fazer uma leitura consequente da situação que se vive em Portugal, desviando-o do plano inclinado em que se encontra rumo ao precipício”, acusou. E não se eximiu a comparações: “Temos de ser capazes de retomar as presidências de boa memória de Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio.”

Vasco Lourenço enumerou o que o preocupa. Referiu o regresso da emigração em massa, o desemprego avassalador e a fome a alastrar. Criticou a desvalorização do trabalho, a destruição do Estado Social e o aumento da corrupção. Destacou o não funcionamento da justiça, o aumento da corrupção e a impunidade que campeia entre os poderosos. Denunciou o regresso do medo e o desrespeito da dignidade humana. Uma análise crítica que suscitou aplausos da assistência, entre a qual estavam Mário Soares, Maria Barroso, Manuel Alegre, João Semedo, Marisa Matias, Arnaldo Matos, Júlio Isidro e muitos militares de Abril.

 Vasco Lourenço avisara de início que ia falar sem constrangimentos de protocolo que, caso tivesse discursado na Assembleia da República, marcariam as suas palavras. A sua intervenção a céu aberto correspondeu às expectativas. Foi a resposta aos que querem “calar a voz dos militares de Abril”.

“A voz de quem, hoje como há 40 anos, continua livre, de mãos limpas ao serviço de um povo ao qual pertence e jamais trairá”, destacou. A escassos quilómetros do Parlamento, o militar não esqueceu o veto  à intervenção da Associação 25 de Abril naquele acto: “E se a nossa presença é tão desejada na Assembleia da República, tão imprescindível e tão insubstituível, não compreendemos o medo, sim o medo, de nos olharem para além da “cereja em cima do bolo”.

Subindo o tom, foi claro: “Que fique claro que não nos fecham a boca nem amarram os braços com os slogans de que pretendemos um estatuto especial”. A partir de então, Vasco Lourenço respondeu às críticas dos que consideram que os militares desejam um protagonismo indevido: “O certo é que o 25 de Abril é da exclusiva responsabilidade desses militares que surpreenderam o mundo pela sua generosidade”. E destacou: “Pela primeira vez na história de Portugal e do Mundo, as Forças Armadas tomaram a iniciativa de devolver o poder aos cidadãos logo que foram criadas as condições para tal." Pelo que recordou que “terminada a guerra colonial, aprovada a Constituição da República e estabilizadas as instituições democráticas, os militares regressaram aos quartéis”. Sintetizando: “Tudo fizeram pelo seu País, nada quiseram para si.”

Este percurso pela história dos 40 anos da democracia teve na acção do actual Governo um contraponto. “Neste local simbólico, que tão gratas recordações nos traz, podemos e queremos dizer sem qualquer hesitação que quem nos desgoverna subiu ao poder fazendo promessas que não cumpriu, deslegitimando-se ética, moral e politicamente.”

“Não podemos ficar de braços cruzados perante um Portugal de joelhos face ao poder estrangeiro, o País está vendido, em grande parte e a pataco, ao estrangeiro”, alertou. “O País está a ser destruído e temos que nos mobilizar a fundo para pormos cobro a uma situação que seria impensável há meia dúzia de anos”, disse. “Quem nos desgoverna tem que prestar contas de cada um dos seus actos que mexe com a vida de todos nós”, salientou. E anunciou: “estamos a incentivar as acções da sociedade civil que vêm despertando, vêm assumindo a contestação e vêm dando sinais inequívocos ao poder, os quais a não serem entendidos, provocarão fortes convulsões sociais com a violência em pano de fundo.”

Pelo que deixou um alerta: “As desigualdades, consumadas no enriquecimento dos que já têm tudo e no cada vez maior empobrecimento dos mais desfavorecidos, transforma a nossa sociedade num barril de pólvora que apenas será sustentável numa nova ditadura opressiva, com o desaparecimento das mais elementares liberdades.”

Por fim, Vasco Lourenço, que afirmara “que a democracia não se limita a eleições de quatro em quatro anos”, destacou que no regime democrático tudo se pode discutir: “Não existem assuntos tabus, por isso não devemos ter receio de discutir a nossa pertença à União Europeia e ao euro.” E justificou: “Pertencemos à Europa (…) mas não queremos, não aceitamos ser o lumpen proletariado da Europa.”