Opinião

A Europa e o refascismo

Quando se pensa no fascismo, os países que vêm normalmente à cabeça são a Itália, em certo sentido a Alemanha, também Portugal e a Espanha. A certa altura dos anos 30 e 40, regimes aparentados ao fascismo dominavam no continente europeu, em particular no Leste, onde estavam na Polónia e na Eslováquia, na Hungria e na Roménia. Em 1936, apenas, a Frente Popular deteve a chegada do fascismo à França e é talvez por isso que não pensamos muito na França quando pensamos no fascismo.

E, no entanto, foi na França que durante o meio século anterior foram germinando as sementes de ideias que depois ganhariam esse nome. O anti-semitismo moderno, com a eclosão do caso Dreyfus no fim do século XIX e a imprensa mais raivosamente anti-judaica da Europa no início do século XX; o anti-parlamentarismo de Sorel, que depois de passar da esquerda para a direita se tornou num precursor do nacional-socialismo; o revanchismo dos monárquicos e defensores do “organicismo” da nação; o pétainismo e o culto do salvador da pátria; e, muito, em particular, o integralismo de Charles Maurass, tido por ser uma das principais influências de Salazar. Tudo isso nasceu em França, muito disso ficou em estado larvar.

Saltemos de século. Desde 2001 que temos tido a infelicidade de ver todos os partidos estabelecidos da Vª República Francesa, da esquerda à direita, estenderem a passadeira à Frente Nacional. Desde logo quando toda a esquerda se dividiu para deixar passar Jean-Marie Le Pen à segunda volta das presidenciais. Depois, quando a direita de Sarkozy adotou todos os grandes temas da extrema-direita. E agora, com esse completo vazio de ideias — sobre a França, sobre a Europa ou sobre a democracia — que se chama François Hollande.

O resultado viu-se ontem, nas eleições municipais francesas. A Frente Nacional voltou a ganhar uma cidade, no Norte que já foi bastião comunista e socialista. Em Avignon e Fréjus vai para a segunda volta à frente. E em Marselha, o segundo município mais populoso do país, está à frente da esquerda e disputando a cidade com a direita.

Isto é uma primeira volta; quando os franceses voltarem às urnas a história será um tanto diferente. Mas isso importa pouco, porque a tendência é clara. Hoje, a filha do pai, Marine Le Pen, é presença permanente em todos os media franceses. As suas ideias tornaram-se plausíveis e pseudorrespeitáveis; concordam com ela entre um quarto e um terço dos franceses. O voto popular passou da esquerda para a Frente Nacional. Para todos os efeitos, há hoje em dia três pólos: a esquerda, a direita, e a Frente Nacional. Começa-se a desconfiar que esta caminhada só vai parar no Palácio do Eliseu. Com ela acabará a Vª República Francesa, e não só: acabará definitivamente uma certa ideia da Europa do pós-guerra.

Isto não se passa só em França. Gente defendendo as mesmas ideias estão no governo da Áustria ou da Letónia e apoiam os governos da Holanda ou da Suécia. Na Itália, a anti-política de Grillo sobe nas sondagens.

Chamem-se fascistas ou não, o que esta gente tem de comum é uma insinceridade e deslealdade de base em relação à democracia. A democracia só lhes interessa para manipular até chegar ao poder. E uma democracia sem ideias abre-lhes o caminho. Uma democracia que não acredite no futuro pode bem acabar por não o ter.

Historiador e eurodeputado