Reportagem

“Ganhámos. A Crimeia é parte da Rússia”

Com 95% de votos no “sim”, muitos milhares vieram para a praça celebrar a Rússia. Na noite dos bairros tártaros, o silêncio. Famílias ucranianas começavam a planear o êxodo.

Fotogaleria
Pró-russos celebram em Sevastopol, na Crimeia VIKTOR DRACHEV/AFP
Fotogaleria
Na capital da Crimeia, Simferopol a festa faz-se com luzes e pirotecnia Sergei Karpukhin/Reuters
Fotogaleria
A felicidade ocupou a praça Lenine, em Simferopol DIMITAR DILKOFF/AFP
Fotogaleria
As bandeiras com as cores russas são inúmeras DIMITAR DILKOFF/AFP
Fotogaleria
Saudação ao "sim" em Sevastopol VIKTOR DRACHEV/AFP
Fotogaleria
O resultado foi, como se esperava, inequivocamente a favor dos russófonos DIMITAR DILKOFF/AFP
Fotogaleria
Muitos milhares de pessoas foram para a rua celebrar a Rússia VIKTOR DRACHEV/AFP
Fotogaleria
As canções do tempo da União Soviética voltaram a ouvir-se na Crimeia DIMITAR DILKOFF/AFP

As urnas fecharam às oito horas da noite, mas às sete e cinco minutos o resultado foi anunciado oficialmente no palco em frente à estátua de Lenine, por uma deputada que acabara de cantar uma velha canção soviética: “Ganhámos. A Crimeia é parte da Rússia.” O número exacto seria anunciado depois: 95% de votos a favor da integração da Crimeia na Rússia.

Aplausos. Gritos. “Rússia! Rússia!” Um raio lazer projectado no edifício do Ministério do Interior e no peito de pedra de Lenine: “Primavera da Crimeia.” Mais canções. Já não os hinos patrióticos das manifestações das últimas semanas, mas cantigas populares, ligeiras, até infantis, dos tempos da União Soviética. As letras falam de amor, de flores, ou são lengalengas para adormecer. A muitos fazem lembrar a infância.

O dia do referendo da Crimeia decorreu sem incidentes. As estações de voto abriram a horas, não houve violência, nem queixas de maior. Aleksander, um homem de 68 anos, boné e muletas, ex-combatente no Exército Vermelho, reformado dos caminhos-de-ferro e tocador de acordeão nos tempos livres, saiu da cabine de voto a chorar. “O Governo de Kiev não é legítimo”, disse ele. “Podiam ter deixado Ianukovich terminar o mandato, e depois votavam noutro presidente, nas eleições. Agora o poder está na rua. Os fascistas do Sector Direito têm armas e preparavam-se para atacar as bases militares, e depois mandar em nós… Por isso tivemos de pedir ajuda à Rússia.” Aleksander vê toda esta informação nos canais de televisão russos. Os ucranianos foram fechados, mas ele não se importa. Nunca os via. “Não gosto das canções que eles passam. Ainda bem que os fecharam. Tínhamos de estar sempre a ouvir aquela música…”

Às 11 horas da manhã, na Escola número 7, já tinham votado um quarto dos eleitores registados. Havia muita gente a chegar às mesas de voto, mas não faziam filas, empurravam-se até conseguir impor a sua vez. Exibiam o documento de identificação, viam o nome ser confirmado na lista. Numa cabine fechada, preenchiam o boletim, que introduziam, aberto, sem o dobrar, numa urna transparente.

“As pessoas que estão nas mesas de voto são activistas de organizações cívicas, aprovadas pela comissão do referendo”, explicou o presidente da assembleia de voto. Logo pela manhã, uma comissão da Duma de Moscovo veio verificar se tudo estava correcto. Fez isto em todas as assembleias de voto.

Não há observadores. Mas o momento da contagem dos votos será aberto aos jornalistas, prometeu o presidente. Regressámos pouco antes das oito, mas era mentira. As portas estavam fechadas.

Na Escola número 16, ao fim da manhã, registara-se apenas um problema, um eleitor cujo nome não constava da lista. Mas provou que vivia na zona, votou. Natasha Kalashnikova, 27 anos, economista, grávida de um rapaz, acha normal que a generalidade dos países do mundo não reconheça o referendo. “Não é do interesse dos EUA, da Europa, etc., que a Rússia se desenvolva.” Também não acha estranho que quem contesta a integração da Crimeia na Rússia não tenha tido direito a fazer qualquer campanha. “São uma minoria. Por isso nem quiseram fazer publicidade.” Natasha veio votar com o pai, Iuri Nichomaievich, 65 anos, que diz, muito excitado: “Só espero que Putin não esteja a fazer isto por razões geopolíticas, mas para defender o povo da Crimeia.” Acrescenta: “Desculpe estar tão eufórico. Pareço agressivo, mas não sou.”

Ali perto, o enorme edifício da ermbaixada da Rússia tinha um papel afixado na porta: “A embaixada fechará o serviço a partir de dia 16 de Março, para sempre.”

No bairro de Ak Meshet, um subúrbio de Sinferopol onde a população é quase exclusivamente tártara, ninguém sabia a morada da assembleia de voto. É uma zona de casas pobres e ruas de terra, esburacadas. O endereço na lista oficial das assembleias voto corresponde ao da mesquita do bairro. “Aqui não há votação nenhuma”, disseram três homens mal-humorados à porta da mesquita. Como as organizações tártaras decidiram boicotar o referendo, para este local nem sequer foi destacada nenhuma equipa da comissão eleitoral.

Também no bairro tártaro de Selim Garai a assembleia de voto, um barracão no meio de um descampado, perto de uma lixeira, estava fechada. Era possível ver no interior as mesas de voto e as urnas. Mas ninguém apareceu para abrir a porta, disse um homem que tem uma oficina num barracão ao lado. Também não veio ninguém para votar. À volta há edifícios destruídos, prédios de apartamentos de dez andares com as paredes rachadas, janelas partidas, a fazer pensar: que razões teriam os tártaros para lutarem pela Ucrânia?

A população do bairro Fantan é mista, e a assembleia de voto, a Escola número 11, funcionou normalmente. Sete activistas sentavam-se nas mesas de voto, das quais não vimos aproximar-se nenhum votante. Quantas pessoas já votaram? “No coment”, respondeu o presidente da mesa, Anatoli Venich. Quantas pessoas estão nas listas? “No coment.” Podemos assistir à contagem? “Não.” Na urna transparente viam-se apenas algumas dezenas de boletins. Um dos activistas da mesa gritou lá do fundo: “Portugal? Gosto mais de Figo do que Cristiano Ronaldo. Se quiser falar de futebol, falamos o tempo que quiser.”

A cidade esteve tranquila, tudo correu bem. No centro, perto da Rua Pushkin, várias cantoras em trajes tradicionais sucediam-se ao microfone, numa esquina onde haviam improvisado uma instalação sonora. Enquanto uma rapariga de calças muito justas interpretava, meneando as ancas, uma cançoneta popular, uma mulher caiu no passeio, e ficou ali, ferida, sem que ninguém a socorresse. Tudo isto num espaço exíguo. A cantora a uns cinco metros da audiência, constituída por não mais de 20 pessoas. A mulher no chão parecia ter perdido os sentidos. Alguns juntaram-se à sua volta. Chamaram uma ambulância. Uma fotógrafa ergueu a câmara e de imediato saltaram de todos os lados “vigilantes” e “seguranças”, que se lançaram sobre ela com agressividade. A ambulância chegou. A mulher ferida foi arrastada aos gritos. E, enquanto tudo isto aconteceu, a cantora não interrompeu a sua cançoneta ridícula.

Durante todo o dia, a cidade representou nervosamente uma farsa. A tensão era extrema, sob a fina película de normalidade. O canal oficial de televisão CrimTV, onde os jornalistas estão obrigados a ler notícias previamente escritas no parlamento, emitiu todo o dia documentários sobre a Segunda Guerra Mundial e os nazis. No palco do Lenine, a meio da tarde, enquanto decorria a votação, soldados russos realizaram cerimónias de condecoração dos “valorosos voluntários” que ajudaram na ocupação. A audiência gritava: “Obrigado! Obrigado!”

“Agora a nossa vida vai ser muito melhor. Os salários vão aumentar. Vai haver riqueza na Crimeia, porque a Rússia é um país muito rico”, disse Katia, 23 anos.

“Nós vivemos a guerra na Crimeia. Ninguém aqui quer de novo o fascismo”, disse Vladimir, um homem de 69 anos cheio de emblemas comunistas na lapela. De blusão de couro, ao lado da sua Honda Africa Twin, Piotr Nikitin, membro do clube de motociclistas Night Wolves, disse estar feliz porque “a Rússia está a reconquistar o seu império". "O século XIX foi a idade de ouro da Rússia. Hoje, tem muitos inimigos, como os EUA, a Europa e a China. Mas vai vencê-los, e repor o seu império. Esse novo destino começa hoje.”

Kristina Panich, 18 anos, disse que adora Putin. “Na Ucrânia, os jovens, como eu, não tinham direito a sonhar. Agora podemos finalmente imaginar um futuro.” Irina Pavlankova, 45 anos, explicou que sempre se considerou ucraniana e acreditou na revolução da Maidan. “Mas agora fomos atirados para uma situação em que não temos escolha. Só nos resta a Rússia, ou o caos. Apoio esta solução, mas de coração destruído.” Olga, 32 anos, fotógrafa, teve de repente um ataque de choro. “O que fizemos a nós próprios? O que fizemos a nós próprios?”

A praça encheu-se de gente. Muitos milhares de pessoas vieram celebrar a Rússia. O fogo-de-artifício parecia interminável. As canções de paz e amor dominaram o palco. Na noite dos bairros tártaros, o silêncio. Famílias ucranianas começavam a planear o êxodo.