Com o fim de Ianukovich, vem aí a nova estratégia do Kremlin

Moscovo está ainda na expectativa em virtude das mudanças no poder na Ucrânia. Discurso é severo mas ainda não houve qualquer acção concreta.

Medvedev expressou dúvidas quanto à legitimidade do novo poder na Ucrânia
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Medvedev expressou dúvidas quanto à legitimidade do novo poder na Ucrânia Dmitry Astakhov/RIA Novosti/Reuters

A Rússia condenou esta segunda-feira o novo poder na Ucrânia, que considera ilegítimo e violador dos interesses russos. Depois de dias de muitas mudanças, Moscovo está a recalibrar a sua nova estratégia para o país.

Bastou um fim-de-semana para a Ucrânia dar uma volta de 180 graus a todos os níveis. De Presidente todo-poderoso, Ianukovich passou a figurar na lista dos mais procurados, depois do lançamento de um mandado de captura sob acusação de “homicídio em massa”. O Partido das Regiões, que o apoiava, passou a apelidá-lo de “cobarde” e poucos são os que se mantêm do seu lado. A ex-primeira-ministra, Iulia Timochenko, foi libertada e pode ser uma forte concorrente às eleições presidenciais antecipadas (ver caixa).

Os desenvolvimentos foram, como seria expectável, mal recebidos por Moscovo, que vê agora mais longe a oportunidade de integrar a Ucrânia na sua Parceria Oriental. Logo no primeiro dia após o encerramento dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, o primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev, apontou críticas aos novos detentores do poder no país, cuja legitimidade levanta “sérias dúvidas”. “Estritamente falando, hoje não temos ninguém com quem falar. Se se considerar que as pessoas que se passeiam por Kiev com máscaras negras e kalashnikovs são o governo, então será difícil trabalhar com um governo assim”, afirmou Medvedev.

Moscovo já tinha convocado o seu embaixador em Kiev “para consultas”, pouco depois de o Presidente interino da Ucrânia, Oleksander Turchinov, ter anunciado na televisão que as novas autoridades querem retomar o caminho de aproximação à União Europeia.

Também o chefe da diplomacia do Kremlin se insurgiu contra a tomada de decisões que "visam sobretudo lesar os direitos humanitários dos russos". Serguei Lavrov fazia referência à anulação pelo Parlamento ucraniano de uma lei que concedia ao russo o estatuto de segunda língua oficial das regiões do país, cuja população de origem russa é superior a 10%.

Finalmente, o Kremlin, através do ministro da Economia, Alexei Ouliukaev, deixou em aberto a possibilidade de subir as taxas aduaneiras para os produtos ucranianos, caso os novos responsáveis avancem com a assinatura do acordo comercial com a União Europeia, que já estava previsto em Novembro. Uma medida deste género seria mais um forte contratempo que iria agudizar ainda mais a já crítica situação económica da Ucrânia.

Apesar das fortes críticas da Rússia às autoridades ucranianas, Moscovo está “na expectativa”, segundo Alexandre Konovalov, do Instituto de Estudos Estratégicos, citado pela AFP. “A Rússia está desamparada porque não esperava um abandono tão rápido de Ianukovich”, observa.

As declarações de Medvedev parecem indiciar que, para já, a estratégia da Rússia será a descredibilização dos novos detentores do poder na Ucrânia, enquanto aguarda novos desenvolvimentos. A margem de manobra de Moscovo vai depender muito da resposta que for dada pelo Ocidente e, sobretudo, da sua rapidez. Por outro lado, a favor da Rússia há o crescente receio e descontentamento das populações do Sul e Leste da Ucrânia, que resistem a reconhecer legitimidade daqueles que operaram aquilo que é visto como um “golpe de Estado”.

Os medos de que uma secessão dos territórios pró-russos possa acontecer têm tido cada vez mais eco. A acontecer, esse seria muito provavelmente o primeiro passo para um conflito armado, um cenário que todos dizem querer evitar.

À Rússia é mais conveniente um cenário de meio-termo, entre a perda total da Ucrânia para o Ocidente e a desagregação do seu vizinho. Trata-se da federalização do país, um cenário que vai ao encontro dos anseios divergentes das duas grandes populações que corporizam a clivagem por trás dos protestos, entre os ucranianos e os russos étnicos. “Com maior autonomia financeira e cultural, as diversas regiões do país podiam viver e deixar viver mais facilmente, e escrutinar-se umas às outras”, observa o director do Centro Carnegie de Moscovo, Dmitri Trenin, num artigo de opinião no New York Times. No entanto, uma passagem mal gerida para a federalização pode tornar-se num “passo na direcção da divisão”, alerta Trenin.

Campanha para as presidenciais

É nesta terça-feira que tem início o processo eleitoral, com a abertura do prazo para a apresentação de candidatos presidenciais, de acordo com a Comissão Central de Eleições. Espera-se que nos próximos dias se comecem a perfilar os candidatos para uma eleição que, para já, parece ser de desfecho imprevisível.

Os três líderes dos partidos da oposição e que estiveram ao lado dos manifestantes nos últimos meses são, à partida, candidatos naturais, apesar de ainda não ter havido nenhum anúncio concreto. Vitali Klitschko, o ex-pugilista líder do Udar, que já tinha planeado candidatar-se às eleições de 2015, deverá ser um dos nomes mais fortes na corrida presidencial. Oleg Tiagnibok, líder do partido de extrema-direita Svoboda, deverá igualmente apresentar candidatura, gozando do apoio dos sectores mais extremistas, que consideram os outros políticos como parte do sistema que condenam.

Há mais incerteza para o lado de Iulia Timochenko e do seu partido Pátria, o segundo maior do país. A aparição pública da ex-primeira-ministra na Praça da Independência, logo após a sua libertação, foi lida por vários analistas como um retorno à política. No entanto, o partido afirmou que Timochenko não pretende voltar ao seu antigo posto e o seu advogado negou que a “musa da Revolução Laranja” tenha manifestado vontade em ser candidata presidencial. Uma possível candidatura de Timochenko poderia causar algum mal-estar no seio do próprio Pátria, uma vez que foi Arseni Iatseniuk que se manteve à frente do partido durante os últimos meses e é visto como um dos nomes mais credíveis da classe política ucraniana. No entanto, o ex-ministro da Economia nunca logrou aproximar-se sequer da popularidade que Timochenko ainda granjeia.

Quanto ao Partido das Regiões, entrou definitivamente no processo de afastamento em relação a Viktor Ianukovich, responsabilizando-o pela repressão e pela instabilidade em que o país se encontra. O partido, até agora no poder, anunciou que não vai integrar o próximo governo, contrariando a ideia inicial de um executivo de “unidade nacional”. O governador de Kharkov, Mikhailo Dobkin, anunciou na segunda-feira que se vai candidatar à presidência, mas não esclareceu se vai apresentar como independente ou com o apoio do Partido das Regiões. Dobkin justificou a sua decisão com a “supressão” dos direitos dos falantes de russo.