Bebés com grande apetite podem correr risco de obesidade

Dois estudos revelam que ter muito apetite resulta num crescimento infantil mais rápido e que existe uma predisposição genética para a obesidade.

A vontade de comer e a capacidade de responder à saciedade foram analisadas num dos estudos
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A vontade de comer e a capacidade de responder à saciedade foram analisadas num dos estudos Daniel Rocha

O bebé não é esquisito com a comida, come muito bem, e é sempre um entusiasmo quando chega a hora da refeição. Esta costuma ser uma das melhores notícias para os pais mas um estudo revela agora que bebés com um maior apetite crescem mais depressa mas ficam expostos a um maior risco de obesidade. Uma outra investigação relacionada com o apetite revela ainda que o desejo de querer comer mais, e asim arriscar um aumento de peso, pode ser genético.

Os dois estudos foram publicados nesta terça-feira na edição online do JAMA, o Journal of the American Medical Association Pediatrics. Um deles, da University College London e do King's College, recorreu a 800 pares de gémeos, não-idênticos, do mesmo sexo, nascidos no Reino Unido, em 2007, para analisar a hipótese de as diferenças entre irmãos quanto ao apetite poderem levar a ganhos de peso desiguais durante a infância. As trajectórias de crescimento foram estudadas nos gémeos desde o seu nascimento até aos 15 meses. Os investigadores optaram pelos gémeos por ser mais fácil determinar se as possíveis diferenças de peso se deveram ao comportamento da criança e não tanto à forma como os pais os alimentaram e ao ambiente em que o fizeram.

No estudo foram analisados dois factores: a vontade ou não de comer do bebé após uma exposição a alimentos ou ao seu cheiro (capacidade de resposta à comida) e o parar ou não de comer quando fica saciado (capacidade de resposta a saciedade).

Dos pares de gémeos analisados, 172 revelaram dados diferentes quanto à saciedade e 121 outros quanto à resposta à exposição a comida. Os que se revelaram mais atraídos pela comida e menos reactivos à saciedade cresceram mais rápido do que o seu irmão. Assim, aos seis meses de idade, o gémeo que se mostrava mais entusiasmado com a comida era em média cerca de 1,4 quilos mas pesado que o irmão, enquanto que aos 15 meses, quando a média de peso é cerca de 10 quilos, essa diferença sobe para perto de 2,1 quilos. Quando aos pares de gémeos com níveis diferentes de resposta à saciedade, o bebé com menor capacidade de resposta era mais pesado que o irmão 1,4 quilos aos seis meses e dois quilos aos 15.

O estudo da equipa de investigadores da University College London e da King's College conclui que mesmo na primeira infância as preferências da criança quanto à comida podem afectar o seu peso, muito antes de esta conseguir dizer que quer mais alimento. 

A questão dos genes estarem na origem da obesidade também é foco dos estudos agora revelados, nomeadamente conseguir que as pessoas que são geneticamente propensas ao aumento de peso possam vir a ser ajudadas o mais cedo possível. Neste ponto, o editorial que acompanha o estudo publicado no JAMA, assinado pelo investigador de genética na Duke University Daniel Belsky, defende que “o ambiente obesogénico não afecta as crianças de forma igual”.

No segundo estudo sobre a questão da obesidade infantil publicado também no JAMA esta terça-feira é concluído que as crianças que partilham os mesmos marcadores genéticos associados à obesidade têm uma hipótese menor de se sentirem saciadas mais rapidamente e de pararem de comer, aquilo que a investigação chama de baixa capacidade de resposta a saciedade.

Neste trabalho foram analisadas 2258 crianças, com uma idade média de 10 anos, nascidas também no Reino Unido, entre 1994 e 1996. Mais uma vez, a capacidade de resposta à exposição à comida e à saciedade e o ganho de peso foram investigados. Foi concluído que existe um risco de a “capacidade de resposta mais baixa à saciedade ser um dos mecanismos através dos quais a predisposição genética conduz a um aumento de peso num ambiente rico em comida” com altos níveis calóricos.

Perante estes dados, os investigadores defenderam que fica aberta a possibilidade de gerir a capacidade de parar ou não de comer através de medicamentos ou de alterações de comportamento que previnam a obesidade. Neste último caso, os pais podem ajudar a criança a limitar a quantidade de comida que ingere ou controlar o nível calórico dos alimentos escolhidos, como doces ou salgados em excesso.