As tempestades que fazem cheias no Reino Unido têm origem no Pacífico

Relatório dos serviços meteorológicos britânico tenta explicar a estranha persistência do mau tempo que causou cheias recordes.

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Polícias em Egham, uma das zonas afectadas pela cheia do rio Tamisa Paul Hackett/REUTERS

Nunca choveu tanto em Dezembro e Janeiro em Inglaterra e no País de Gales nos últimos 248 anos – o que é dizer desde que se começaram a fazer registos metodicamente, diz um relatório publicado já este mês pelos serviços meteorológicos britânicos. A culpa é da corrente de jacto do Atlântico Norte, que está particularmente activa e que se está a ligar com o Pacífico Oriental.

Em resultado deste estranho padrão das correntes atmosféricas, as latitudes médias da Europa ficaram como que com um botão encravado na posição que diz “fabricar grandes tempestades”. A isto poderá juntar-se outro fenómeno: no Árctico, as temperaturas têm subido duas a três vezes mais do que no resto do planeta e isso poderá ajudar a mudar as correntes de jacto, tornando-as por exemplo mais lentas. Isso pode traduzir-se na persistência de uma tempestade, ou de condições de frio extremo ou grande precipitação sobre um determinado local durante bastante mais tempo do que o habitual.

As correntes de jacto são ventos que normalmente sopram de Ocidente para Oriente. Fazem percursos sinuosos, que podem mudar subitamente de direcção, parar ou dividir-se. Formam-se devido à combinação da rotação do planeta sobre o seu próprio eixo e o aquecimento da atmosfera, mas ficam perto das massas de ar com grandes diferenças de temperatura, como as da região polar e como o ar quente que segue em direcção ao equador.

O percurso tomado pelas correntes de jacto influencia fortemente a meteorologia, pois pode gerar depressões – como a mais recente tempestade de neve na costa leste dos Estados Unidos, na semana que passou, em que morreram pelo menos 20 pessoas. Ou as cheias históricas no Reino Unido, que ainda continuam: cálculos preliminares do Met Office [os serviços meteorológicos britânicos] apontam para que o fluxo do Tamisa e de outros rios do Sul de Inglaterra e de Gales foram os mais elevados desde 1947 – o ano em que se registaram as piores cheias na região durante o século XX. A Escócia teve o Dezembro mais húmido desde que se começou a fazer registos, em 1910.

O jacto do Atlântico Norte, diz o relatório Recent Storms and Floods in the UK do Centro de Ecologia e Hidrologia do Met Office, está neste Inverno 30% mais forte do que o habitual, o que provocou um padrão de tempestades excepcionalmente fortes a partir de Dezembro. Estranhamente, o tipo de tempo que se está a registar em virtude desta ligação entre as bacias oceânicas via correntes de jacto seria compatível com um ano de La Niña – um fenómeno climático em que a temperatura das águas do Pacífico oriental desce, e a do Pacífico ocidental sobe. É o contrário do mais conhecido El Niño.

Só que “as temperaturas actuais da superfície do Pacífico não sugerem que estejamos num período activo de La Niña ou El Niño”, lê-se no relatório do Met Office”. Mas “é razoável afirmar que o mau tempo que se vive no Reino Unido tem raízes nos trópicos”.

Por que é que a meteorologia está a ser tão inclemente, então? Para isso o Met Office não tem respostas, embora políticos e activistas britânicos estejam a aproveitar o momento para apontar a necessidade de investir na luta contra as alterações climáticas – que 51% dos cidadãos aponta como a origem das cheias e do mau tempo que afectam o Reino Unido.

Já dos Estados Unidos chega a contribuição de tentar compreender quais os efeitos sobre a meteorologia no aquecimento que se sente de forma acelerada no Árctico. Na conferência anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência, em Chicago, Jennifer Francis, da Universidade Rutgers (New Jersey), falou nos seus estudos que apontam para que a perda de gelo no Árctico – que desde 1980 é já equivale a 40% do território dos EUA – favoreça a formação de padrões meteorológicos persistentes em latitudes médias.

A entrada de grandes quantidades de calor e humidade na atmosfera no Outono e no Inverno reduziria as velocidades dos ventos das correntes de jacto, fazendo com que permaneçam mais tempo sobre um mesmo local, como se tem verificado em vários episódios de fenómenos climáticos extremos, explicou a cientista, baseando-se num estudo que publicou em 2012 na revista Geophysical Research Letters.