Morte por causas financeiras

Mas agora, a depressão dos mercados emergentes está de volta. A grande derrota que as moedas destes países sofreram quando a Reserva Federal dos EUA começou a apertar a política monetária é apenas o começo; para onde quer que olhemos, ao que parece, há problemas profundos.

A Argentina e a Venezuela ficaram sem truques políticos heterodoxos. O Brasil e a Índia precisam de novos modelos de crescimento. A Turquia e a Tailândia estão atolados em crises políticas que reflectem os conflitos internos que há muito fervem lentamente. Em África, a preocupação é a ascensão da falta de mudança estrutural e de industrialização. E a principal questão que preocupa a China é saber se o seu abrandamento económico irá ter uma aterragem suave ou violenta.

Esta não é a primeira vez que os países em desenvolvimento foram duramente atingidos por bruscas mudanças de humor nos mercados financeiros globais. A surpresa é o facto de estarmos surpreendidos. Os economistas, em particular, já deviam ter aprendido algumas lições fundamentais há muito tempo.

Em primeiro lugar, o entusiasmo dos mercados emergentes é só isso mesmo. Os milagres económicos raramente ocorrem, e por boas razões. Os governos que conseguem intervir massivamente para reestruturarem e diversificarem a economia, enquanto evitam que o Estado se torne num mecanismo de corrupção e de procura de rendas económicas, são a excepção. A China e a Coreia do Sul (no seu auge), Taiwan, Japão e alguns outros países tiveram tais governos; mas a rápida industrialização que construíram iludiu a maior parte da América Latina, Médio Oriente, África e Sul da Ásia.

Em vez disso, o crescimento dos mercados emergentes ao longo das duas últimas décadas foi baseado num conjunto fortuito (e temporário) de circunstâncias externas: matérias-primas com preços elevados, taxas de juros baixas e grandes quantidades, aparentemente intermináveis, de financiamento estrangeiro. A política macroeconómica e a governação global mais eficientes ajudaram, também, mas estes são activadores de crescimento e não estímulos para o crescimento.

Em segundo lugar, a globalização financeira tem sido muito inflacionada. A abertura para os fluxos de capitais deveria aumentar o investimento interno e reduzir a volatilidade macroeconómica. Em vez disso, produziu praticamente o oposto.

Há muito que sabemos que o afluxo de carteiras e de capitais a curto prazo estimulam o boom no consumo e bolhas imobiliárias, com consequências desastrosas quando a atitude do mercado azeda mais tarde ou mais cedo e as finanças secam. Os governos que desfrutam da subida na montanha-russa não deverão ficar surpreendidos com a queda que inevitavelmente se segue.

Em terceiro lugar, as taxas de câmbio flutuantes são amortecedores defeituosos. Em teoria, os valores monetários determinados pelo mercado devem isolar a economia interna dos caprichos das finanças internacionais, subindo quando o dinheiro surge em grande quantidade e caindo quando os movimentos são estornados. Na realidade, poucas economias conseguem suportar os alinhamentos cambiais necessários sem sofrerem.

As revalorizações cambiais agudas causam estragos na competitividade internacional de um país. E as depreciações rápidas são o pesadelo de um banco central, dadas as consequências inflacionárias. As taxas de câmbio flutuantes podem moderar as dificuldades de adaptação, mas não eliminá-las.

Em quarto lugar, a fé na coordenação global das políticas económicas está deslocada. As políticas orçamentais e monetárias dos Estados Unidos da América, por exemplo, serão sempre motivadas em primeiro lugar por considerações internas (e quem sabe até em segundo e em terceiro lugar). E os países europeus mal conseguem cuidar dos seus próprios interesses comuns, quanto mais do mundo. É ingénuo da parte dos governos de países emergentes esperarem que grandes centros financeiros ajustem as suas políticas em resposta às condições económicas de outros lugares.

Para a maioria, isso não é mau. As grandes compras mensais de activos a longo prazo por parte da Reserva Federal - a chamada "flexibilização quantitativa" - beneficiaram o mundo como um todo, ao sustentarem a procura e a actividade económica nos EUA. Sem esta flexibilização, que a Reserva Federal começou agora a diminuir gradualmente, o comércio mundial teria sofrido um golpe muito maior. Da mesma forma, o resto do mundo irá tirar partido quando os europeus forem capazes de exercer boas políticas e de impulsionar as suas economias.

O resto está nas mãos dos representantes no mundo em desenvolvimento. Têm de resistir à tentação de se "empanturrarem" de financiamento externo quando é barato e abundante. No meio de uma bonança de capital estrangeiro, os níveis de estagnação do investimento privado em bens transaccionáveis são um sinal de perigo particularmente poderoso que nenhuma quantidade de mitos elaborados pelos governos deveria estar autorizada a passar por cima. Os representantes enfrentam uma escolha simples: manter fortes controlos prudenciais sobre os fluxos de capitais ou estarem preparados para investir uma grande parte dos recursos em seguros próprios, acumulando grandes reservas estrangeiras.

O problema mais profundo encontra-se no financiamento excessivo da economia global que tem ocorrido desde a década de 1990. Os dilemas políticos que resultaram - aumento da desigualdade, uma maior volatilidade, redução de espaço de manobra para gerir a economia real - continuarão a preocupar os governantes nas próximas décadas.

É verdade, mas inútil, dizer que os governos só têm a si mesmos para culparem, por se terem precipitado imprudentemente nesta viagem descontrolada. Agora é hora de pensar em como o mundo pode criar um equilíbrio mais saudável entre as finanças e a economia real.

Professor de Ciências Sociais no Instituto de Estudos Avançados, Princeton, Nova Jérsia.

Copyright: Project Syndicate, 2014.