Estudantes venezuelanos prometem ficar na rua até Governo libertar colegas detidos

Governo reforçou operação de segurança e emitiu mandado de detenção de um dos líderes da oposição.

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Manifestantes prometem manter o protesto contra a violência AFP/JUAN BARRETO

A alta-representante para a política externa da União Europeia, Catherine Ashton, apelou ao “diálogo pacífico” entre o Governo do Presidente Nicolás Maduro e os representantes da oposição e líderes do movimento estudantil envolvidos nos protestos de rua que terminaram em violência – mas os sinais que vieram nesta sexta-feira de Caracas foram de uma intensificação do clima de confronto.

Depois da violência das manifestações anti-governamentais que assinalaram o Dia da Juventude na Venezuela, e que fizeram três mortos e dezenas de feridos, o Governo agiu rapidamente para assumir o controlo da situação, com o policiamento a ser reforçado com o destacamento de agentes das brigadas anti-motim, da Guarda Nacional e do Exército para a capital e outras cidades, e a adopção de uma série de medidas para suspender a emissão dos canais televisivos internacionais ou impedir a convocação de novos protestos.

Apesar do aparato, os manifestantes voltaram às ruas em Caracas – chegando mesmo a cortar a circulação numa das principais estradas de acesso ao centro da cidade – e garantiram que os protestos vão continuar até que sejam encontradas soluções que permitam controlar a inflação (a taxa de 56% é a mais alta do mundo), pôr fim aos apagões eléctricos e à crise de abastecimento alimentar e diminuir a criminalidade no país.

Segundo Marcos Matta, um estudante de 22 anos entrevistado pela Reuters na Plaza Altamira – o palco dos protestos na capital –, os motivos para sair à rua na sexta eram os mesmos de quinta e quarta-feira: “A inflação, a insegurança e um Estado repressivo que se recusa a libertar os nossos colegas”, enumerou.

Leopoldo López, o líder do partido de oposição Vontade Popular e que é objecto de um mandado de detenção por suspeita dos crimes de conspiração, intimidação, homicídio e terrorismo emitido na sequência das manifestações, garantiu numa mensagem publicada no Twitter que será um dos participantes nas novas marchas contra o Governo. “Obrigado a todos pela solidariedade. Estou bem, não fugi da Venezuela e vou continuar na rua”, garantiu, depois de um fac-simile do mandado contra ele ter feito a primeira página dos jornais do país.

Numa mensagem televisiva ao país, na quinta-feira à noite, o Presidente Nicolás Maduro identificou López como “o rosto do fascismo” e acusou-o de instigar um golpe de Estado. “Em breve estará na cadeia pelos seus crimes. Faça chuva, trovões e relâmpagos, o fascista vai preso”, asseverou, apelando depois à participação dos seus apoiantes numa marcha “pela paz e contra o fascismo” agendada para sábado. “Foi convocada uma grande marcha de todas as forças sociais e políticas da revolução bolivariana pela paz e contra o fascismo”, divulgou Maduro, que tenciona seguir à cabeça do cortejo.

O adversário presidencial de Maduro e líder da coligação de oposição Mesa da Unidade Democrática (MUD), Henrique Capriles, que se manteve à margem dos protestos, quebrou nesta sexta-feira o silêncio para exigir que “o Governo actue de forma séria e responsável” e “acabe com a manipulação da verdade”. “Para haver justiça, o Governo tem de aprender a falar com verdade e sem manipular os factos”, considerou o governador de Miranda – cujo distanciamento das iniciativas de Leopoldo López foi interpretado pelos analistas como um sinal das primeiras fissuras na unidade da oposição a Maduro. “O tempo é de fragmentação na Venezuela”, assinalava o correspondente do El País.

A única referência de Capriles aos protestos da passada quarta-feira foi para o movimento estudantil, e a sua recusa em pôr fim à contestação e dialogar com o Governo. “O problema não são os estudantes que se manifestam pacificamente, mas sim o caos em que vivemos”, disse.

Na véspera, o presidente da Federação de Centros Universitários, Juan Requesesens, dissera à Globovisión que os estudantes tencionavam manter-se na rua até que fossem libertados todos os manifestantes detidos no Dia da Juventude, rejeitando qualquer negociação com o ministro do Interior. “Como podemos sentar-nos a falar com o Governo enquanto os nossos irmãos estão detidos e os estudantes estão a ser atacados em todo o país?”, perguntou Requesesens. “Não nos sentamos à mesa com uma pistola apontada”, informou. "Enquanto não tivermos justiça continuamos na rua”, prometeu.

Em declarações à BBC Mundo, Gabriela Arellano, da Universidade dos Andes, notou que “se o Governo fizer as coisas bem, os estudantes voltarão a casa. Não somos fascistas nem golpistas, simplesmente queremos deixar de dizer adeus aos nossos colegas mortos na rua por balas perdidas”.

Além da União Europeia e dos Estados Unidos, várias organizações internacionais como a Organização dos Estados Americanos ou a Human Rights Watch exprimiram a sua preocupação com os últimos desenvolvimentos na Venezuela. “O problema é que o Governo não enveredou pelo caminho mais responsável, que seria abrir uma investigação para apurar a responsabilidade pelas mortes ocorridas nos protestos. Mas em vez disso, está a tentar inflamar os ânimos por motivos políticos”, disse o director político do think-tank Council of the Americas, Chris Sabatini, à Associated Press.