O novo testamento de Alain Resnais

Veterano francês estreia em Berlim um novo filme e relança as questões: será esta a sua derradeira obra?

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A. Borrell
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A. Borrel

A última vez que nos lembramos de ver tanta gente a sair de uma projecção de imprensa em Berlim foi com O Cavalo de Turim de Bela Tárr. Como Alain Resnais está longe de ser um cineasta tão "difícil" como o húngaro, será que Aimer, Boire et Chanter (Competição) é um mau filme? Ou apenas que a comunidade crítica decidiu "enterrar" já o venerando autor francês, de 92 anos?

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Parece-nos evidente que esta terceira adaptação de uma peça do dramaturgo inglês Alan Ayckbourn não atinge o patamar das anteriores, Fumar/Não Fumar e Corações. Mas nem por isso Aimer, Boire et Chanter deixa de ser mais uma deliciosa brincadeira formal do veterano francês.

A peça que Resnais adapta aqui é The Life of Riley, sobre três casais e o modo como o anúncio do cancro de um amigo comum os afecta. Os actores são uma mistura de regulares e estreantes da companhia do cineasta – Sabine Azéma e Hippolyte Girardot, Caroline Silhol e Michel Vuillermoz, Sandrine Kiberlain e André Dussollier. A artificalidade assumida dos cenários, a anglofilia das ilustrações BD que servem de separadores, a teatralidade evidente da encenação já nos são conhecidos. Mas Aimer, Boire et Chanter, mais do que reproduzir essa estética, ganha também foros de "segundo testamento", sobretudo vindo a seguir a Vous n'avez encore rien vu (Cannes 2012), cuja estrutura elegíaca sugeria um testamento fílmico de um cineasta que não se saberia se voltaria a rodar.

Mas voltou. E a morte volta a pairar sobre o novo filme e a motivar a sua peculiar celebração da vida, com George Riley, o amigo comum dos três casais, a tornar-se uma espécie de demiurgo invisível. Como um encenador teatral ou um realizador de cinema, George – que nunca é visto nem ouvido – manipula a seu bel-prazer as acções de todas as personagens para chegar a um resultado específico; este condenado a seis meses de vida torna-se o centro ausente de um filme sobre o palco como vida e a vida como palco (e não é por acaso: a acção decorre enquanto dois dos casais estão envolvidos numa produção teatral). Sem surpresas para quem conhece Resnais, com a estilização dos cenários do velho cúmplice Jacques Saulnier a sublinhar a máxima "esta vida são dois dias, vamos divertir-nos enquanto pudermos", Aimer, boire et chanter pode ser um filme de "velho", mas tem mais ideias do que uma mão-cheia de filmes de "novos".

Curiosamente, existem pontos de contacto entre Aimer, Boire et Chanter, e Superegos (Panorama). É uma experiência na comédia do alemão Benjamin Heisenberg, que descobrimos com agrado há alguns anos no concurso principal com O Assaltante, sobre o encontro fortuito entre um pequeno escroque oportunista que vive de vender livros roubados e um velho psicoterapeuta fragilizado e casmurro.

Começa como uma comédia de enganos com um toque de screwball comedy da Hollywood clássica, vai derrapando para um absurdo seco em câmara lenta onde se brinca com os lugares-comuns da psicologia com grande bonomia mas também algum desequilíbrio. A mão de Heisenberg não é suficientemente segura para controlar o tom do filme, mas os dois actores, o austríaco Georg Friedrich e o grande André Wilms, compensam largamente as fraquezas. Mas se Resnais lhe tivesse deitado a mão...