Objectivos de vacinação contra a gripe não estão a ser atingidos, alerta Comissão Europeia

No Inverno de 2011/2012 só a Holanda vacinou 75% das pessoas com mais de 65 anos. Portugal nesse ano conseguiu apenas 43%, mas desde há dois anos que começou a dar vacinas gratuitas a este grupo e melhorou a cobertura.

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Paulo Ricca

No próximo Inverno o objectivo é que 75% das pessoas com mais de 65 anos que vivam nos países da União Europeia sejam vacinadas contra a chamada gripe sazonal. Só que a Comissão Europeia está preocupada com a meta traçada, já que de acordo com os dados de um relatório que acaba de publicar ainda só a Holanda conseguiu atingir aquela percentagem e há muitos dos Estados-membros bastante distantes. Os números ainda dizem respeito à época de 2011/2012, mas na altura também Portugal estava bem longe, com uma cobertura de pouco mais de 43% – sendo que já recuperou parte do caminho uma vez que depois disso passou a disponibilizar gratuitamente as vacinas para esta camada da população.

Um dos problemas da Comissão Europeia começa na própria recolha de dados, já que do Inverno a que diz respeito o relatório, o de 2011/2012, só recebeu dados de 18 países. E mesmo dentro destes países, Portugal, França e Noruega entregaram os seus números através de estimativas feitas com base em inquéritos e não através da recolha administrativa pretendida pelas instâncias europeias.

Dentro dos 18 países, só a Holanda ultrapassou a meta, atingindo os 77,2%, seguida do Reino Unido (74%), França (64,1%), Itália (62,7%), Espanha (57,7%), Irlanda (56,3%), Dinamarca (51%), Luxemburgo (45,1%), Suécia (44%), Portugal (43,4%), Noruega (36%), Hungria (31,1%), Eslováquia (21,9), Roménia (20,9%), Lituânia (18,5%), Eslovénia (16,2%), Polónia (14,2%) e Letónia (1,7%).

Outra das preocupações da Comissão Europeia está no facto de não haver consistência nos dados, isto é, de Inverno para Inverno nem sempre se registaram melhorias e houve mesmo casos de regressão. Em Portugal, por exemplo, em 2008/2009 tinham-se atingido 53%, um número que baixou no Inverno seguinte para 52,2% e em 2010/2011 para 48,4% até ao último dado incluído de pouco mais de 43%.

O relatório refere que nos outros grupos considerados prioritários, como as pessoas com doenças crónicas ou os profissionais de saúde, as taxas de cobertura também não estão a evoluir como seria desejável, apesar de a maior parte dos países (Portugal inclusive) dizerem que têm programas de vacinação a nível nacional e campanhas de sensibilização para o tema.

Para a Comissão Europeia o problema continua a ser a baixa percepção de risco em relação à doença e o facto de as pessoas não perceberem a facilidade com que podem infectar outras, em especial nas instituições de saúde. Alguns receios e mitos em relação às vacinas e sua eficácia também contribuem para que muitas pessoas optem por não as fazer, mesmo recebendo recomendação médica.
 

 Portugal ultrapassou os 60% 

O PÚBLICO tentou ouvir a Direcção-Geral da Saúde, sem sucesso. O relatório surge numa altura em que se sabe que durante este Inverno em Portugal já foram vacinados até Dezembro contra a gripe mais de 1,2 milhões de portugueses com mais de 65 anos, o que representa uma taxa de cobertura de 62%, superior ao mínimo de 60% que a Direcção-Geral da Saúde queria atingir para neste Inverno e o que representa um salto em relação há dois anos. No ano passado foi a primeira vez que a vacina foi dada gratuitamente às pessoas com mais de 65 anos, como forma de estimular a adesão.

Segundo as recomendações da Direcção-Geral da Saúde a vacina contra a gripe deveria ser dada aos grupos de riscos preferencialmente até Dezembro. À semelhança do ano passado, as pessoas com mais de 65 anos podem recebê-la gratuitamente nos centros de saúde. Em termos de grupos prioritários, a vacina deve ser dada às pessoas com mais de 65 anos, a todos os que tenham doenças crónicas, às crianças com mais de seis meses, às grávidas com mais de 12 semanas de gestação e aos profissionais de saúde ou cuidadores que trabalhem com idosos ou crianças. A vacina é também recomendada aos menores de 64 anos.

A vacina é também gratuita para quem esteja internado em instituições particulares de solidariedade social (IPSS), nas misericórdias ou lares ligados à Segurança Social, bem como a doentes integrados na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados e a crianças ou deficientes institucionalizados.

Neste Inverno de 2013/2014, a vacina contra a gripe sazonal, à semelhança dos outros anos, protege as pessoas das três estirpes do vírus que a Organização Mundial da Saúde previu que mais vão circular: A(H3N2), B/Yamagata e A(H1N1) — esta última idêntica à da gripe pandémica de 2009.

Para as pessoas não incluídas nos grupos abrangidos pela vacinação gratuita, a vacina é disponibilizada nas farmácias, nos mesmos moldes das épocas anteriores, através de prescrição médica. O problema é que houve uma verdadeira corrida às vacinas que rapidamente esgotaram.

A quota de importação voltou a baixar neste ano, como já tinha acontecido em 2012. Passou de um milhão e 800 mil doses em 2011 para um milhão e 600 mil este ano. A quota de vacinas que as empresas farmacêuticas importam para o mercado privado português “é decidida a nível empresarial, muito antes da época gripal, com base no número de vacinas importadas e consumidas em anos anteriores e com as disponibilidades de fabrico, que são limitadas a nível mundial”, explicou anteriormente a DGS, num comunicado. As empresas comprometeram-se a enviar um reforço.

2400 óbitos por gripe

A vacinação contra a gripe é fundamental para prevenir a doença e a transmissão. A gripe é a principal doença do adulto que se pode prevenir pela vacinação e, no nosso país, esta infecção é responsável por milhares de internamentos hospitalares e centenas de óbitos. Na Europa, estima-se que o excesso médio de óbitos associados à gripe seja de 40 mil por época. Em Portugal, a média ao longo de várias épocas foi de cerca de 2400 óbitos.

A gripe é uma infecção aguda viral provocada pelo vírus influenza, que afecta sobretudo o sistema respiratório. No adulto, o quadro clínico típico caracteriza-se pelo aparecimento súbito de mal-estar geral, febre, dores musculares e nas articulações, arrepios, dor de cabeça e corrimento nasal.