“A literatura é uma investigação que não termina”

Atlas do Corpo e da Imaginação foi feito em conjunto com um grupo de arquitectos, Espacialistas. “Situando-se num território híbrido entre a arte contemporânea e a arquitectura […] centram os seus projectos na compreensão das relações espaciais”, escreveu
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Atlas do Corpo e da Imaginação foi feito em conjunto com um grupo de arquitectos, Espacialistas. “Situando-se num território híbrido entre a arte contemporânea e a arquitectura […] centram os seus projectos na compreensão das relações espaciais”, escreveu NUNO FERREIRA SANTOS

O trabalho começou em 2005 e publicou-se agora. Uma obra em fragmentos, misto de ensaio, narrativa e imagem que convoca temas e referências da obra de Gonçalo M. Tavares. O Atlas do Corpo e da Imaginação é um mais um desafio a complicar o desenho cheio de pontos interligados mas sem forma definida, como e escritor gosta de se referir ao seu trajecto

Num café de Lisboa onde passou muitas horas de escrita, Gonçalo M. Tavares, 43 anos, 12 de publicação, tem dois livros em cima da mesa, Animalescos, ficção publicada em Junho, e Atlas do Corpo e da Imaginação, um trabalho de fôlego, imagem e texto, que acaba de sair, feito em conjunto com um grupo de arquitectos a que foi dado o nome de Espacialistas. “Situando-se num território híbrido entre a arte contemporânea e a arquitectura [...] centram os seus projectos na compreensão das relações espaciais”, escreveu sobre eles Delfim Sardo.

Gonçalo pega no volume de capa dura. “Gosto do peso do livro. Do facto de não ocupar mais espaço do que deve. Tem a ver quase com a lógica da frase, que a frase ocupe o menos espaço possível e que no menor espaço possível concentre o máximo de energia de que for capaz. Por isso gosto também muito deste livro que é muito concentrado.”

Talvez esta conversa de mais de duas horas se pudesse resumir a esta frase sobre um livro difícil de catalogar, marcado por fragmentos, axiomas sobre o corpo, a morte, o amor, a cidade, o poder, a arte. Quase todos os temas e talvez mais alguns dos que têm ocupado o escritor nos 31 títulos que publicou até agora. Ele diz-me aqui mais do lado do bem.



A primeira frase deste livro: “Começar aqui é interromper uma tarefa, noutro lado, claro.” Que tarefa ficou interrompida?

Começar num sítio é interromper noutro lado. Tem a ver com a perda, com concentração.

Há angústia?

Há algo que é uma constante em mim: pensar muito na morte. É mais do que ter a morte presente, é uma constante enquanto ponto de partida.

A morte como impulso de criação?

Quase o começo de tudo. A pergunta certa não é o que fazemos; é o que fazemos enquanto estamos vivos. Essa pergunta coloca responsabilidade nas coisas. Por outro lado, tudo fica mais fácil. Há problemas que parecem importantes que ficam irrelevantes. Ao responder à pergunta “o que é que faço enquanto não morro” dirijo a energia para o que acho essencial e não me disperse. A questão essencial é o que é que podemos fazer enquanto estamos aqui. A questão é também responsabilizarmos os dias. O dia é a medida humana. Quando se alarga essa energia para mês, ano, a energia vai-se diluindo. Um dia é decisivo.

A primeira vez que conversámos, acabara de editar o primeiro livro, em 2001. Dizia que aspirava mais a ser santo do que a ser herói. A ideia de bem parece aqui mais presente do que em muitos livros anteriores. Caso de Animalescos, o mais recente romance, deste ano. O bem como contraponto ao mal são os grandes temas literários?

(Risos) Tenho um grande fascínio, no sentido de querer entender, pela maldade; perceber o mecanismo da maldade, da violência; mas também pela bondade. É enigmático.

Sente-se à mesma distância do bem e do mal?

Não quero falar em termos pessoais. Quero falar do que me prende e me espanta. A tortura é abjecta, em qualquer forma, mas racionalmente podemos tentar compreendê-la quando tem um determinado objectivo, a confissão, por exemplo. Mas é asquerosa e irracional quando sem qualquer objectivo. E isso é tão enigmático. Quero saber o mecanismo que lhe dá origem. Do mesmo modo que a bondade pura. Uma pessoa que se entrega completamente aos outros e lhes dedica todo o tempo.

O tempo que tem dedicado a esses temas já o ajudou a definir, fora da literatura, o bem e o mal?

Tenho muito medo das pessoas que sabem exactamente onde estão o bem e o mal. A questão da perspectiva é tremenda. Isso não é abstracto. A ideia e de bem e de mal absoluto são muito perigosas. Isto não tem solução, mas um dos critérios é tentar não adiar a decisão sobre um acto ser justo ou não. Num momento, tentar que o que estou a fazer não seja violento para pessoa que está próxima.

Neste Atlas fala-se muito da geometria, do ver de dentro e de fora…

Sim. Se definirmos que o bem é o que está dentro da circunferência e o mal o que está fora vamos rapidamente praticar a decapitação e de uma forma aparentemente muito benigna. É importante perceber que o que está fora pode ser incorporado e que também o que pertence ao corpo pode ser exterior. É fundamental perceber que em termos éticos é uma decisão que depende de muitos parâmetros. Mesmo nas coisas mais de base, o “não matarás”. A eutanásia veio colocar questões ao que parece óbvio.

Qual foi o impulso que o levou a este Atlas? Arrumar referências, sabedoria?

Não, até porque o primeiro capítulo é muito a ideia do desarrumar. Não ter centro. Falo em vários pontos da doença e da dor e não há uma conclusão sobre isso. O arrumar pressupõe maneira sistematizar.

Mas o livro está cheio de axiomas.

Gosto das frases que são ao mesmo tempo exactas e ambíguas. É um livro e, ao mesmo tempo, vários livros. Há uma base central de ensaio, um ensaio literário. E há também um segundo livro colateral, com uma narrativa que se vai construindo entre imagens e legendas. Pode-se ir para este livro primeiro lendo apenas o mundo lateral, a imagem como algo que conta uma história.

Começou este livro em 2005.

Sim, uma eternidade. A parte central foi escrita em 2005, são quase dez anos, e é mesmo a sensação de o livro ir mudando e pedindo determinadas coisas. Está praticamente terminado há um ano. As imagens foram aparecendo e foi-se moldando. Para mim o tempo dos livros é importante. Há aqui quase uma micro-narrativa. As imagens nunca são ilustrativas, muitas vezes fazem atrito com o texto e há um tom lúdico que contrasta com o peso do centro e que se tornou quase essencial, contaminando o ensaio central. A ideia de que há uma seita benigna que acredita que se fizer o gesto da cruz, se abrir os braços num gesto de cruz, esse gesto aparentemente inconsequente, inútil, permite que o mundo não colapse. Termina com umas imagens em que alguém faz um gesto de cruz num nevoeiro denso e depois com alguém que corre quase em sinal de redenção.

A ideia de método está presente. Qual foi o método neste livro?

Tem uma estrutura de quatro capítulos. Como é que o corpo pensa, como podemos pensar sem entrar num sistema completo aplicado de forma prepotente. O corpo no mundo, como o corpo interfere na cidade, a identidade do corpo. O Deleuze diz que um cão doméstico está mais próximo do cavalo doméstico do que o cavalo doméstico do cavalo selvagem. Estamos sempre muito ligados à anatomia na questão da identificação. Os hábitos podem ser mais importantes do que a anatomia. A identidade forma-se a partir de tudo isso. Não interessa o que parece ser, mas o que é que o corpo quer. A identidade tem a ver com a resposta a essa pergunta.

A ideia de ser escrito em fragmentos foi primordial?

Sim. Pode ser lido em qualquer sítio. É também um grande elogio ao fragmento. Se a pessoa ler a eito há uma espécie de narrativa, mas há também a possibilidade de entrar num capítulo sobre a vergonha ou sobre o amor sem a necessidade de saber o que está antes ou virá depois. Há uma leitura fundamental, silenciosa, concentrada, contínua, mas pode ser isso tudo e por fragmentos, um filão não conclusivo.

A escrita foi fragmentária?

Não. Foi muito instintiva. São dois momentos. O das imagens é mais fragmentado, mais lúdico. Gosto desse conflito entre o “não te leves demasiado a sério mas leva a sério o mundo”. Algumas micro-histórias são esse “não te leves demasiado a sério”. O lúdico tem uma parte trágica horrível. E há um salto do olhar que me interessa. Suspender uma lógica e em micro-segundos entrar noutra diferente. Há leitores que sentem necessidade de se manter longe das laterais e outros que andam por elas. Passo, passo, passo.

Está a apelar a um leitor performer?

Sim. A leitura é um processo corporal, assim como a escrita. Escrever é um movimento como andar, saltar, correr.

E consegue ser um escritor de fôlego como um escritor de velocidade?

O Animalescos é de outro mundo de movimentos. Tenho muito prazer na histórias. O Senhor Valery, da série O Bairro, é um contador de histórias. Mas às vezes escrevo sem pensar em forma nenhuma. No Animalescos o movimento de escrita é muito veloz e orgânico. Quase incompatível com o Atlas ou Uma Viagem à Índia. Gosto da escrita instintiva. Há os equívocos acerca do pensamento estar ligado à lentidão, mas o Animalescos tem velocidade e reflexão. O Atlas tem a ver com lentidão.

Continua a escrever num espaço fora de casa?

Completamente. Um espaço do século XVIII. Sem contactos, sem comunicação. Agora escrevo muito de seguida, três ou quatro horas sem parar. Não revejo. A uma velocidade enorme. Às vezes acelero de tal maneira que as letras saem fora do lugar. No início escrevo mais lento e quando começo a acelerar todas as letras estão fora do lugar. É a minha forma. Sou muito instintivo. Não gosto de pensar antes de escrever.

E a reescrita?

Aí é completamente diferente. É outra parte do cérebro, outra tarefa. Tento escrever muito de manhã. Mas pegar no texto, cortar, esse trabalho gigantesco, faço à tarde. É como se fosse feito com a mão esquerda e outro com a mão direita. A escrita é com a mão esquerda, o apurar com a direita. O acto decisivo é dado com a mão esquerda disse Walter Benjamin. A escrita e a reescrita são dois esforços completamente diferentes, como duas energias, a energia da reescrita muito mais lúcida.

Mas onde há menos êxtase.

Sim, se escrever fosse só esta segunda parte era um processo assustador. Continuo a achar que a escrita é uma necessidade e tem a ver com essa primeira parte.

E porque diz “ainda hoje”? Passaram 12 anos.

Sim, mas nunca se sabe. Posso daqui a dez anos querer ir para outro lado fazer outra coisa. Fico contente quando sinto que não faço nada em resposta a algo exterior a mim.

Não sente a expectativa dos outros?

Não. Tento fazer o meu percurso tranquilamente. Tenho sempre a tal distância entre o momento da escrita e o da publicação. Isso dá-me uma lucidez grande. Só publico depois de deixar o tempo e um juízo muito crítico meu. Porto-me como um leitor que pode interferir no texto. Continuo a escrever apenas porque fico irritado quando não escrevo.

O tema do pessimismo e do optimismo é inevitável em tudo o que se escreve sobre si e o Gonçalo vem quase sempre dizer que não é assim tão pessimista.

Gosto dessas oposições. Sou uma e outra coisa. Aqui mais optimista. Neste Atlas um dos maiores contrastes que sublinho é o que existe entre o corpo e o texto. Por vezes temos a noção de que a lei é uma entidade abstracta. A lei começa por ser uma frase e a questão fundamental é que se há uma frase, ela teve de ser escrita por alguém, mas às vezes tenho a sensação de que as pessoas acham que a lei é divina. É uma falha da democracia não se conhecerem as pessoas que objectivamente escrevem as leis. A lei é o que determina a forma como as pessoas se relacionam. É uma frase que devia ser escrutinada, analisada como é analisado um texto literário. O ponto de partida deve ser: quem é que escreve a frase.

A frase que vai determinar o corpo.

Sim. E que pode determinar o desespero, o medo, a violência. O Atlas do Corpo e da Imaginação é um título muito descritivo, o corpo é central. Às vezes dou títulos que criam atrito com o próprio livro. De certa maneira perceber o que é o corpo, o corpo na cidade, como se alimenta, como deseja, como ama. E depois a imaginação.

Que está dependente do corpo a que pertence?

Não necessariamente. A imaginação, a literatura e as artes alimentam, e isso é grandioso. Quando alguém amesquinha o mundo das artes está a amesquinhar o mundo invulgar que é o de criar imagens. A imaginação é uma possibilidade de criarmos imagens privadas, e ess cinema individual é quase uma segunda vida. Se estamos constantemente a responder a urgências, não conseguimos criar um imaginário individual.

É a grande violência, o corte da imaginação?

Uma das. Até pelo trajecto das palavras. Percebemos a violência do exterior e como certas ideologias vão ganhando força. Por exemplo, a palavra “contemplar”. Ganhou uma conotação quase negativa de tão desvalorizada. “Lá estás tu a contemplar”, ou seja, “lá estás tu a não fazer nada”. Era uma palavra grandiosa. Uma das origens etimológicas é “estar com o templo”. Contemplar era decisivo, estar ali com o espaço mais sagrado a tentar perceber o que está e o que vai acontecer. Hoje se alguém estiver a contemplar corre o risco de estar a ser insultado como preguiçoso.

Fala da dor, da doença individual como ameaça de um colectivo.

É a tentativa de perceber que a dor e a doença remetem para algo individual, mas se sofrermos colectivamente pode significar um problema do sistema político. Se todas as pessoas tiverem uma doença grande, há uma suspensão da sua possibilidade de participação política. Mesmo que as leis fossem democráticas, a participação política estaria muito limitada. É assustador como a fraqueza do nosso organismo individual pode interferir num colectivo. É interessante também a outra parte: como é que alguém com a sua dor – estou a pensar por exemplo no jejum político –, se sacrifica corporalmente por algo político. Mas, no Atlas, sobre esta questão não há uma conclusão, não há um arrumar. Quando tudo parece estar a pender numa direcção, abre-se essa segunda leitura mais literária. Vejo muito a literatura como contar uma história, mas também como uma investigação que não termina. Permite apenas que haja maior lucidez sobre um assunto.

Dedica o livro a Bernardo Sassetti.

(Silêncio)... É difícil falar disso. Ja dediquei livros a pessoas que desapareceram pensando em como gostaria que eles tivessem lido um livro, a sensação de falta geral. Retribuir é indispensável. Sou muito grato a quem se entusiasmou com os meus livros, como aconteceu com Eduardo Pado Coelho ou José Saramago. As dedicatórias são muito pensadas e ao mesmo tempo o pensamento é instintivo. Achei que devia ser dedicado ao Bernardo Sassetti... O dia em que o Bernardo desapareceu foi um dos mais tristes para mim. Ele era de uma energia e talento contagiantes. A minha reação foi muito violenta. É uma dedicatória muito afectiva.