Michelle Bachelet ganhou a presidência e diz que o Chile voltou ao “rumo certo”

A Presidente eleita já falou nas reformas, mas o combate à desigualdade, que é cada vez maior, é o seu grande desafio.

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O Presidente cessante recebeu Bachelet em La Moneda segunda-feira JOSE MANUEL DE LA MAZA/AFP
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Apoiantes de Bachelet celebram nas ruas de Santiago AFP/Martin Bernetti
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Evelyn Matthei emocionou-se na hora de assumir a derrota AFP/Hector Retamal

Michelle Bachelet, a candidata do centro-esquerda, ganhou as eleições presidenciais de domingo no Chile e disse, no discurso de vitória, que os eleitores voltaram a “por o país no rumo certo”.

O rumo certo, explicou — como já tinha dito na longa campanha eleitoral, as eleições tiveram duas voltas — é o das reformas. “Muito obrigada, sobretudo aos mais jovens, que expressaram veementemente o seu desejo de criar um sistema de educação pública que seja ao mesmo tempo gratuito e de qualidade. Estas prioridades chegaram ao topo [da agenda política]”, disse Bachelet, definindo o seu primeiro objectivo assim que regressar, em Março de 2014, ao Palácio de La Moneda, onde já esteve entre 2006 e 2010.

A educação pública gratuita, incluindo a universitária, tinha sido um dos temas maiores do programa eleitoral de Bachelet. Juntou-lhe uma reforma do sistema fiscal — bastante centrada nas contribuições das empresas —, que disse ser necessária para custear a educação. Uma terceira promessa, para alguns a mais importante, foi a redacção de uma nova Constituição, uma vez que a Lei Fundamental chilena já teve várias alterações, mas a sua base ainda é a da ditadura militar de Augusto Pinochet, que governou o Chile entre 1973 e 1990, depois de ter derrubado o Presidente eleito de esquerda, Salvador Allende.

Bachelet é filha de um general que se manteve fiel ao Presidente legitimo e, por isso, foi preso e morreu devido às torturas que sofreu na prisão — e esse dado ainda foi relevante na vitória da candidata da coligação de centro-esquerda (partido socialista, democracia-cristã e comunistas). Conseguiu 62% dos votos, contra 38% de Evelyn Matthei, representante da União Democrática (o centro-direita, que detinha a presidência através de Sebastian Piñera). Matthei também é filha de um general que ficou do lado dos golpistas e da ditadura.

“O meu desejo mais profundo e honesto é que corra bem. Ninguém que ame realmente o Chile pode querer o contrário”, disse Matthei. Bachelet também fez um apelo à unidade.

Na primeira volta das presidenciais, os chilenos também votaram para eleger um novo Parlamento. O centro-esquerda venceu, mas não conseguiu a maioria de dois terços no Senado e na câmara baixa que garantia a Michelle Bachelet um mandato tranquilo — um efeito da alta abstenção na primeira eleição no Chile em que votar não foi obrigatório; 50% dos eleitores não foi às urnas na primeira volta, 60% na segunda. Terá que negociar com a direita as suas reformas, o que pode atrasar, ou inviabilizar, algumas das suas promessas de campanha.

A maioria parlamentar com que Bachelet conta é um grupo fragmentado. Bachelet é socialista e está aliada à democracia-cristã, que tem posições opostas em muitas matérias (por exemplo o aborto terapeutico, que Bachelet quer despenalizar), e ao Partido Comunista, que se junta pela primeira vez desde o fim da ditadura a uma coligação e que tem aspirações no futuro governo e tem expectativas muito altas quanto ao trabalho de uma Presidente de esquerda.

Esta fragmentação, dizem os analistas chilenos, é outro potencial problema para a governação. Pelo que será difícil à Presidente eleita repetir o sucesso do seu primeiro mandato, marcado também pelo crescimento económico do Chile.

A economia continua estável — apesar das quebras nas exportações e no rombo dos cofres provocado pela descida do preço do principal produto, o cobre —, mas as desigualdades acentuaram-se em quatro anos e, de acordo com o El País, esse será de facto o grande desafio da futura Presidente. “A economia chilena é punjante — diz o jornal espanhol — e desde 2010 que o PIB cresce em média 5,5%. Porém, o dinheiro concentra-se em poucas mãos e o ingresso de riqueza per capita [no grupo mais rico] é 40 vezes superior ao de 81% da população”.