Irlanda quer voltar a ser o “tigre celta”, mas a retoma é frágil

Dublin fecha o programa da troika sem poder festejar novo ciclo. A indústria do passado e a abertura ao exterior dão um empurrão. Para 2014 há mais austeridade.

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Depois do choque do pedido de resgate financeiro, em Novembro de 2010, a Irlanda torna-se hoje no primeiro país da zona euro a concluir formalmente o programa de assistência financeira negociado com a União Europeia (UE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Para o Governo de coligação entre conservadores e trabalhistas, este domingo é o dia D. Mas, passados três anos do início do resgate, está o país em condições de voltar a vestir a pele de “tigre celta”? O diagnóstico diverge entre aqueles que encontram um país mais forte do que há três anos (ou há cinco, quando a Irlanda caiu numa profunda recessão) e os que dizem ser cedo para deitar foguetes e lançam um alerta sobre os efeitos de longo prazo da aplicação das medidas de austeridade.

Certo é que a Irlanda entra em 2014 com um tímido crescimento, com o desemprego em queda mas num nível elevado, com o consumo privado praticamente estagnado e com as exportações sem o fôlego de outros tempos. O Financial Times descrevia recentemente a Irlanda como um país em frágil recuperação. Uma retoma a dois tempos: por um lado, cidades como Dublin, Cork e Galway a ensaiarem uma recuperação; por outro, zonas rurais estagnadas, a sofrer o impacto das falências no sector imobiliário e apanhadas pela emigração.

Depois de anos de crescimento acentuado, que lhe deram o estatuto de “tigre celta” da Europa, a Irlanda mergulhou numa profunda crise. Uma combinação de choques em catadupa a partir de 2007-2008 colocou a actividade económica em queda acentuada. E a elevada exposição dos bancos ao crédito imobiliário levou o Governo irlandês a assegurar, depois da queda do banco norte-americano Lehman Brothers, a totalidade da dívida dos bancos através de transferências de capital. O resultado foi um impacto brutal nas contas públicas que se revelaria insustentável quando a pressão dos mercados de dívida se intensificou sobre os países com desequilíbrios orçamentais. Do resgate de 85 mil milhões de euros — dos quais 67.500 milhões emprestados pela UE e FMI —, 50 mil milhões serviram para financiamento do Estado e 35 mil milhões foram direccionados para o sector bancário.

Muitas das medidas previstas no memorando de entendimento da troika resultaram do plano de reformas desenhado entre o Governo irlandês e as autoridades europeias nos meses anteriores ao resgate. Quando partiu para a aplicação do programa, a Irlanda já tinha posto em marcha “medidas de ajustamento” que, desde 2008, valem cerca de 21 mil milhões de euros. O programa deu continuidade a esse plano: cortes na função pública, nas pensões, agravamento de impostos sobre a propriedade, o capital e bens de consumo. Para 2014, o Governo prepara-se para aplicar mais uma dose de austeridade para alcançar um défice de 4,8% no próximo ano, colocando em cima da mesa um orçamento que inclui cortes na saúde e na protecção social, um aumento de impostos sobre o consumo, contribuições sobre as instituições financeiras e sobre os fundos de pensões.

Agora que o programa termina e a pressão dos investidores acalmou (no mercado secundário os juros da dívida a dez anos estão abaixo de 3,5%), o Governo liderado por Enda Kenny tenta o acesso pleno ao financiamento de mercado. Fá-lo sem recorrer a uma linha de crédito preventiva (o chamado “programa cautelar”) e para isso parte com uma folga financeira de 25 mil milhões de euros.

Com a austeridade e as falências provocadas pela bolha imobiliária, o desemprego disparou e só a partir de meados do ano passado começou a baixar. Num país com cerca de 4,6 milhões de habitantes, a população empregada não chega aos 1,9 milhões e a taxa de desemprego representa 12,5% da população activa. O número de postos de trabalho está a aumentar desde o início deste ano. E em 2013 já haverá criação de emprego (0,6%, insuficiente para igualar o nível anterior à crise, nos 2,1 milhões de pessoas no mercado de trabalho).

Abertura ao exterior
A retoma é frágil e as marcas da crise não desaparecem de um dia para o outro. “Qualquer choque económico deixa muitas pessoas permanentemente desempregadas. E este é, provavelmente, o pior impacto da austeridade no longo prazo” na Irlanda, diz ao PÚBLICO Dan O'Brien, economista-chefe do Instituto de Assuntos Europeus e Internacionais, sedeado em Dublin.

Depois de três anos em contracção económica, a Irlanda voltou a crescer logo em 2011 e a um ritmo de 2,2%. Só que a crise na zona euro colocou um travão a fundo no crescimento das exportações, o principal motor do PIB, e a actividade económica ressentiu-se de imediato: com a zona euro em recessão, a economia cresceu apenas 0,2% no ano passado e este ano

O investimento começa a descolar. O consumo privado cresceu no primeiro trimestre de 2013, mas ainda é inferior ao mesmo período do ano passado. E em 2014 deverá ter um aumento residual (de 0,5%), segundo as previsões da troika.

O peso da indústria, das exportações e a abertura do país ao exterior são consideradas características que ajudaram a amortecer na economia o peso do ajustamento. “O país beneficia de uma indústria dominada por empresas multinacionais, que têm um peso importante no PIB e isso joga a seu favor”, acredita Zsolt Darvas investigador húngaro no grupo de reflexão Bruegel, sedeado em Bruxelas. Daí que as características-base da economia tenham ajudado a Irlanda a resistir melhor ao choque do resgate e à aplicação da austeridade, explica ao PÚBLICO. O mesmo diz Dan O'Brien: “A Irlanda tem um sector empresarial endógeno fraco, mas é muito boa a receber multinacionais estrangeiras. Por exemplo, um em cada seis postos de trabalho no sector privado tem como empregador uma empresa estrangeira”.

Outros analistas colocaram o dedo na ferida ao questionarem que a Irlanda seja considera, no discurso dos líderes europeus, como o “caso de sucesso” da aplicação de medidas de austeridade. “Não celebremos já, o fim do resgate está longe de ser uma ‘missão cumprida’”, escreveu no irlandês Independent o economista David McWilliams.