FMI errou e Portugal deveria ter tido mais tempo para cumprir programa de ajustamento

Lagarde diz que Europa está no bom caminho para vencer desafios, mas “é prematuro cantar vitória”. Directora-geral do FMI diz que Governos europeus têm de atacar desemprego jovem.

Aly Son/Reuters
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A directora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, afirmou nesta terça-feira que o organismo errou e que a Grécia e Portugal deveriam ter tido "mais tempo" para cumprirem programas que exigiam “demasiada consolidação orçamental, demasiado rápido”.

“Tradicionalmente, porque havia poucos estudos sobre a questão, visávamos um quociente multiplicador de 1%. Ora, com a análise da situação e dos factos, apercebemo-nos de que o quociente estava mais perto de 1,7% do que de 1%", referiu Christine Lagarde, no Comité Económico e Social, em Bruxelas, a propósito do indicador que mede o impacto das medidas de austeridade no crescimento da economia (quanto maior for o multiplicador, maior será o seu impacto no crescimento económico).

“Reconhecemo-lo porque é ponto de honra do FMI reconhecer os seus erros quando os comete”, referiu a directora-geral do FMI, sublinhando que o organismo não teria “modificado a substância do programa que foi desenhado na altura”, mas percebeu que "o que teria funcionado" para a Grécia e para Portugal “seria o reexame do espaço de tempo em que os programas foram aplicados”. “O FMI não reviu o seu relatório, mas foi o primeiro a dizer: “Atenção, é demasiada consolidação orçamental, demasiado rápido, é preciso dar mais tempo ao tempo, quer à Grécia, quer a Portugal, quer à Espanha (que não tinha programa)”, afirmou Lagarde.

A directora-geral do FMI sublinhou ainda que a Europa está no “bom caminho” para superar os “desafios significativos” que enfrenta, mas entende que “ainda é prematuro cantar vitória”. Lagarde notou que os progressos no crescimento e na confiança dos mercados não aconteceram por acaso, e que a Europa fez grandes reformas para eliminar os obstáculos ao crescimento.

Há maior confiança dos investidores estrangeiros e dos mercados financeiros, admitiu Lagarde, mas não se podem abandonar as reformas até que o crescimento tenha estabilizado o suficiente para deter o aumento do desemprego e da dívida. E, segundo o jornal Expansión, até citou Nelson Mandela para ilustrar que a Europa não pode dar a sua tarefa por terminada: “Depois de subirmos a uma grande montanha, descobrimos que há muito mais montanhas por escalar”.

Ainda assim, a directora-geral do FMI assinalou que os governantes europeus deverão mudar o foco das medidas de austeridade para os estímulos fiscais que incentivem o crescimento económico, nota o The Telegraph. Lagarde sublinhou a importância de se terem dissipado as dúvidas sobre o avanço da União Bancária e apelou a que o Banco Central Europeu tome medidas que assegurem o financiamento às pequenas empresas e afastem o risco de deflação. Segundo a directora-geral do FMI, existem riscos de que a Europa caia num “ciclo vicioso” em que a quebra da procura e a estagnação do investimento se retroalimentem.

Christine Lagarde mencionou ainda o desemprego maciço que está a eliminar as qualificações profissionais em alguns países da zona euro, pondo em causa a capacidade produtiva destas economias no longo prazo, e frisou que os governantes europeus devem tomar medidas urgentes para combater o desemprego jovem.

“Pode uma crise ter terminado quando 12% da força de trabalho não tem emprego? Quando o desemprego entre os jovens atinge taxas de dois dígitos, que ultrapassam os 50% na Grécia e em Espanha? E quando não há sinais de que se está a tornar mais fácil para as pessoas pagarem as suas dívidas?”, insistiu a directora-geral do FMI, a propósito de ser prematuro dar a crise europeia por terminada.