Rússia, Ucrânia e China travam plano para criar santuário marinho na Antárctida

Em cima da mesa estavam duas propostas para criar uma zona protegida do tamanho da Índia. As negociações falharam pela terceira vez.

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Pinguins são uma das cerca de 16 mil espécies que vivem na Antárctida GREENPEACE/Steve Morgan/REUTERS

À terceira, não foi de vez. As negociações para criar na Antárctida a maior zona marinha protegida voltaram a falhar nesta sexta-feira. Em cima da mesa estavam duas propostas diferentes mas com um objectivo comum: proteger aquele frágil ecossistema ameaçado pela pesca e pela prospecção de petróleo. Ambas chumbaram com os votos contra da Rússia, Ucrânia e China.

Os representantes de 24 países e da União Europeia, que formam a Convenção sobre Conservação da Fauna e Flora Marinhas da Antárctida (CCAMLR, da sigla em inglês), estiveram reunidos nas últimas duas semanas em Hobart, na Tasmânia, Austrália. Na ordem de trabalhos estava a discussão sobre a criação de duas áreas marinhas em torno do continente gelado onde a pesca seria proibida, com uma área total equivalente ao tamanho da Índia.

Uma das propostas, apresentada pelos Estados Unidos e pela Nova Zelândia, previa a transformação do Mar de Ross, uma baía profunda do oceano Antárctico, num santuário para a vida marinha, com cerca de 1,25 milhões de quilómetros quadrados. A segunda proposta, da Austrália, França e União Europeia, pedia a protecção de outra zona na Antárctida Oriental, do lado do oceano Índico, com uma extensão de 1,6 milhões de quilómetros quadrados.

Para que fossem aprovadas, as propostas tinham de obter o voto favorável dos 200 delegados. No entanto, a Rússia e a Ucrânia bloquearam o processo, votando contra as duas propostas. A China apoiou apenas uma. A Rússia já se tinha oposto nas reuniões que decorreram no ano passado por esta altura e já este ano, em Julho. À agência noticiosa AFP, o delegado sueco Bo Fernholm disse que não houve acordo sobre a extensão da área a proteger e a duração das restrições.

“Dia negro”
A criação deste mega-santuário permitiria salvaguardar as mais de 16 mil espécies daquele que é considerado um dos últimos ecossistemas “virgens”, sem presença humana, usado como referência para avaliar as consequências do aquecimento global. Entre as espécies do continente gelado estão pinguins, baleias, aves marinhas, lulas gigantes e a merluza-negra da Antárctida.

“Parece bastante claro que há um pequeno grupo de países encabeçado pela Rússia que quer afundar o acordo”, disse à agência Reuters o director da Aliança para o Oceano Antárctico, Steve Campbell. “Este é um dia negro não só para a Antárctida, mas para todos os oceanos do mundo”, lamentou Andrea Kavanagh, directora do projecto para a criação de santuários marinhos da Pew Charitable Trusts, uma organização americana de defesa do ambiente.

"A comunidade internacional reuniu-se em Hobart para proteger as zonas essenciais ao oceano Antárctico - um dos últimos ecossistemas intactos do planeta - e a Rússia escolheu ser um obstáculo", disse à AFP Joshua Reichert, vice-presidente executivo da Pew Charitable Trusts.

No próximo ano haverá nova tentativa. “Se trabalharmos com os países-membros durante o ano, acredito que podemos trazer uma nova proposta para a reunião do próximo ano e chegar a um consenso”, afirmou Tony Fleming, director da Divisão Australiana da Antárctida.