Reaparecimento da poliomielite na Síria faz OMS temer surto na região

Testes confirmaram dez casos em crianças. O último caso da doença no país tinha sido identificado em 1999. Autoridades de saúde vão avançar com plano de vacinação.

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Campanha de vacinação numa escola em Damasco Reuters

O regresso da poliomielite à Síria, uma doença infecciosa viral e incurável que pode levar à paralisia, está a preocupar as autoridades de saúde. A Organização Mundial de Saúde (OMS) teme que os casos se estendam a outros países daquela região.

A doença reapareceu após 31 meses de guerra civil, com as condições sanitárias a degradarem-se de dia para dia e em que mais de dois milhões de sírios já se viram obrigados a atravessar a fronteira em busca de ajuda. O poliovírus, um enterovírus, transmite-se por via oral. Basta consumir água contaminada por fezes infectadas. A infecção estende-se do intestino a todo o organismo, mas o cérebro e a espinal medula são os mais gravemente afectados.

Esta é a segunda doença humana, após a varíola, que se está a tentar erradicar para sempre, mas tem resistido, reaparecendo em locais com más condições sanitárias.

Até agora a OMS, segundo o El País, detectou a doença em dez crianças na zona de Deir el Zor, uma província no nordeste do país reivindicada pelos rebeldes que tentam pôr um ponto final no regime de Bashar Al-Assad. Perante o número de refugiados, a que se juntam as pessoas que mesmo dentro do país se viram obrigadas a deixar as suas casas, as organizações humanitárias temem que a doença se possa alastrar.

A confirmação dos casos de poliomielite surge numa altura particularmente delicada no país. No fim-de-semana, a Organização para a Proibição das Armas Químicas, cujos observadores estão na Síria a inspeccionar os locais onde estas armas estão armazenadas, anunciou que o regime sírio entregou a tempo e horas a “declaração inicial formal do seu programa de armas químicas”.

O acordo para a destruição dos arsenais químicos de Bashar al-Assad foi alcançado depois do ataque de 21 de Agosto que matou centenas de civis nos arredores de Damasco – a ONU confirmou que foi usado gás sarin. A resolução 2118 do Conselho de Segurança determina que estas armas têm de ser destruídas até Junho de 2014. A declaração entregue por Assad a 24 de Outubro permitiu “estabelecer um plano para a destruição sistemática, integral e verificada das armas químicas declaradas, assim como das instalações de produção e de armazenamento”, diz num comunicado a organização da ONU, a mesma que recebeu o Nobel da Paz.

Aumento de casos de febre tifóide, hepatite A e rubéola
O último caso de poliomielite na Síria tinha sido identificado em 1999. Há duas semanas chegaram à OMS informações sobre um tipo de paralisia associada a esta doença e que tinha sido identificada em 22 crianças da mesma província. Os técnicos recolheram amostras e em dez dos casos as análises revelaram-se positivas para o poliovírus. Dos outros 12 casos ainda são aguardados resultados.

Só na província onde foram confirmados os dez casos, a BBC diz que há mais de 100 mil crianças com menos de cinco em risco. A OMS já tinha, ainda segundo a BBC, reportado um aumento de casos de febre tifóide, hepatite A e de rubéola na Síria desde 2011 – com o risco de as forças estrangeiras a combater no país “importarem” as doenças quando regressarem às suas casas.

“A doença pode expandir-se para outras áreas, com um elevado risco de propagar-se pela região”, alertou um porta-voz da OMS, Oliver Rosenbauer, citado pelo El País. Além da degradação das condições no país em termos de alimentação e higiene, também as taxas de vacinação caíram significativamente: em 2010 tinham sido vacinadas contra a poliomielite 91% das crianças sírias, no ano passado a percentagem caiu para 68%.

O risco de propagação desta e de outras doenças erradicadas ou em grande queda já levou ao lançamento de uma campanha internacional que tem como objectivo vacinar nos próximos seis meses cerca de 1,6 milhões de crianças sírias contra a poliomielite, sarampo, rubéola e papeira. A Unicef considera que pelo menos meio milhão de crianças não tenha recebido a imunização necessária desde que começou a revolta contra o regime de Assad. “Vacinar crianças é um gesto político na sua natureza e não tem relação com considerações militares”, disse o director executivo deste programa da ONU, Anthony Lake, após uma visita a Damasco.

Doença endémica no Paquistão, Afeganistão e Nigéria
O Paquistão era até agora, a par do Afeganistão e da Nigéria, um dos três únicos países do mundo onde esta doença altamente contagiosa ainda era endémica. No ano passado, na Nigéria, foram detectados 121 casos, 58 no Paquistão e 37 no Afeganistão. Isto apesar de a poliomielite poder ser completamente erradicada pela vacinação. Trata-se de uma doença que provoca paralisias muito graves em algumas das pessoas que são infectadas.

Porém, em Agosto soube-se que a Somália está também a sofrer um “surto explosivo” de poliomielite e que agora este país do corno de África tem mais casos do que qualquer outra nação. Registaram-se até àquele mês mais de 100 casos, sendo que há seis anos que não havia sinais da doença.

Desde a criação da Iniciativa para a Erradicação Global da Poliomielite, que inclui organizações como a OMS, a Unicef e o Rotary International, em 1988, a incidência desta doença foi reduzida em mais de 99%. Na altura, mais de 350 mil crianças ficavam paralisadas todos os anos em mais de 125 países onde a poliomielite era endémica.

Em relação a Portugal, não há registo de casos de poliomielite aguda por vírus em estado natural desde 1987, facto que se deve às elevadas coberturas vacinais mantidas há décadas. Ainda assim, para quem viaja, a Direcção-Geral da Saúde tem insistido na necessidade da vacinação contra a poliomielite quando os destinos procurados são áreas endémicas, de transmissão restabelecida ou com ocorrência registada de surtos. A doença foi considerada eliminada da região europeia pela OMS em 2002.